30 de dezembro de 1999

"Dialoguinho"

— Onde é que você vai passar o ano-novo?

— Ainda não pensei nisso.

— Você não pensou? Como pode isso? Você não sabe onde vai passar o ano-novo, justamente esse ano-novo?

— O que é que tem esse ano-novo de especial?

— É o ano-novo do ano dois mil, uai... A gente tem que descolar uma festa, alguma coisa, assim, mais... chique, sofisticada, sei lá...

— Todo ano você diz isso, e a gente sempre acaba de lado, esquecidas... Por que é que você acha, querida, que esse ano vai ser diferente?

— Ah, sei lá... Apenas sinto que dessa vez vai ser diferente.

— Diferente, como?

— Quer saber? Acho que nesse ano a gente vai explodir a boca do gargalo.

— Você vive sentindo coisas... Acho que você sentiu a mesma coisa ano passado, e você viu onde foi que nós passamos a meia-noite... Naquele lugar horroroso, escuro, quente e cheirando a queijo e salaminho, e ainda por cima de pé a noite toda, horrorosas...

— A gente TEM QUE arranjar uma festa! Eu não quero ficar na mão de qualquer um no meio da rua. Isso não!

— Não se preocupe, tonta. Tenho uma surpresa para você.

— Qual?

— Temos, sim, uma festa...

— Jura? Onde? Por que é que você não falou logo? Por que é que me deixou na agonia? Por que é que ficou fazendo charminho? Sinto que sou capaz de transpirar de emoção... Você acredita nisso?

— De você eu espero tudo...

— E de quem é a festa?

— É de uma moça muito simpática e de um moço muito simpático.

— Você não precisava me dar tantos detalhes assim...

— Não me aporrinhe a paciência, senão você fica de fora...

— Você não seria capaz de tamanha torpeza... Não se esqueça de que nós duas nascemos praticamente no mesmo dia... Quem são eles?

— O nome dela é Roberta e o dele é Luís Henrique. São muito simpáticos.

— E você os conheceu onde?

— Ela é a mãe da Lili.

— Que Lili?

— A Lili, ora! A namorada daquele menino engraçado, o Byron.

— O lorde?

— Não, o Sousa.

— ...

— Ó, doce flor, inculta e bela, por que é que você quer saber de tantos detalhes assim? Até parece que você vai ficar a noite toda conversando com eles. Nosso lugar você bem sabe onde é...

— Onde?

— Na cozinha, sua tonta...

— Isso depende muito do tipo de festa, você sabe. É festa chique, com garçons, essas coisas? É casa ou apartamento? É grande ou pequena? Muita ou pouca gente? Vai ter empadinha ou não vai ter empadinha? Vai ter...

— Chega!! Pare de ser curiosa! Devia dar-se é por satisfeita de ter sido convidada. Eles foram muito carinhosos em nos convidar. Não se esqueça disso.

— É na Avenida Atlântica?

— Claro!

— Valha-me, Nossa Senhora da Boa Vista e do Bom Lugar à Janela, valha-me!! Isso é bom demais! Eu não estou satisfeita; eu estou des-bun-dan-do de satisfação!! Você acha que nós vamos encalhar mais uma vez, você acha? Ou dessa vez vai?

— Estou achando que dessa vez vai. Nessa festa vai.

— Logo você, que é tão pessimista... Por que o otimismo?

— Porque o povo parece que vai beber bastante.

— Será?

— Oxalá!

— Hum...

— O que foi, maluca?

— Maluca é você! Eu estou aqui pensando...

— No quê?

— Esta festa, assim, em pleno ano-novo do ano dois mil, assim, numa bela casa, com gente simpática e bonita, belas bocas e belas mãos, na Avenida Atlântica, com empada e tudo... Não está bom demais para ser verdade? E se acabar em pizza?

— Não vai acabar nada em pizza, tonta! Tenho até um convite para dois...

— Um convite, é? Que chique!! E o que é que diz?

— Diz que temos que confirmar nossa presença até o dia 3 de dezembro e levar...

— Aha!! Eu sabia que tinha que levar alguma coisa! Estava bom demais para ser verdade... O que é que tem que levar?

— Fique calminha, não é nada demais... Diz aqui que tem que levar uma pessoa por garrafa. É só.

— Uma pessoa por garrafa? Hum... E você conhece alguém?

— Tem aí um casal que parece disponível...

— Prazo de validade?

— Acho que estão dentro.

— Franceses?

— Não.

— Hum... Quem são?

— O Juva e a mulher dele.