25 de setembro de 2018

Fantasticamente realista


Numa de suas aulas na Universidade de Berkeley, em 1980, Julio Cortázar fala do dia em que ficou muito aporrinhado porque emprestou a um amigo um romance pouco conhecido de Júlio Verne, O segredo de Wilhelm Storitz, e o amigo devolveu dizendo que não havia conseguido ler; achou fantástico demais... Para Cortázar aquilo não era razão para o amigo não ler a coisa. E foi então que se deu conta: seria sempre um escritor realista — e o seu realismo, mais realista que o realismo dos escritores chamados realistas. “... os realistas como meu amigo”, disse ele, “aceitavam a realidade até certo ponto, e a partir daí tudo era fantástico. Eu aceitava uma realidade maior, mais elástica, mais expandida, em que tudo cabia.”

Esta conclusão moldou-o como escritor, especialmente de contos. Sua intensa familiaridade com o elemento fantástico revelou-se como uma forma de realidade que poderia surgir em qualquer momento, com qualquer livro e dentro de qualquer história de vida. O fantástico mora no singelo gesto de uma moça calçar as suas meias às dez da noite, antes de se deitar para ler um livro; na forma como se varre uma rua; na maneira de se acariciar um gato. 

Nessas aulas em Berkeley, depois de analisar o chamado conto fantástico — e ele o entende e, à sua maneira, domina —, Cortázar dá o pulo literário para o que se entende por conto realista, e tenta defini-lo em sua complexa relação com a não menos complexa realidade. A filosofia, desde os seus primórdios e até hoje, ocupa-se da realidade. Aceitamos o que os nossos sentidos apreendem e nos mostram, mas também sabemos do falhanço destes sentidos — como é fácil, com a ajuda de jogos, exercícios e estratégias, iludirmo-nos na captação do real que nos envolve. “... no entanto”, diz ele, “como é preciso viver, como não podemos ficar parados numa mera problemática, acabamos aceitando a realidade tal como ela se apresenta para nós.”

O conto realista, para o inventor dos Cronópios, é menos fácil de compreender. De início, e dada a sua natureza realística, esta forma de contar denuncia uma situação de dor e indignidade, aponta com o dedo a ferida de uma condição humana degradada por forças negativas e autoritárias, e ainda aborda criticamente variadas patologias psicológicas e sociais. E o conto realista ganha, assim, algum tipo de função social. O autor, é claro, nem sempre tem consciência de sua denúncia — mas ela está lá, mesmo que de uma forma impalpável. O bom leitor, diante de um bom texto, saberá flagrá-la.

Cortázar, no entanto, vai por outra via. Tenta definir o conto realista como uma narrativa que insiste no tratamento do seu tema, no evento que pretende relatar ou em algum episódio da vida de tal ou tal personagem — e tudo isto é retirado da realidade a envolver o autor ou o leitor, quer a conheçam ou não. O perigo, para Cortázar, está em tal insistência permanecer circunscrita a esse recorte do real — o autor contentando-se em descrever algo que o instiga, comove ou choca, acreditando isto bastar para que o seu acontecimento mereça ser relatado. Se o escritor, no entanto, permanece parado em seu recorte, o conto morre quando a história chega à sua última linha.

Embora todo conto, dado que o real surge múltiplo e infinito, precise ser sempre este recorte, esta visada, esta recolha de algum quinhão de realidade, é preciso ir além. Se o texto consegue ir além da história contada, aventurando-se em algo mais — os meandros da psicologia dos personagens envolvidos, ou o insólito encravado no cotidiano —, chega então à condição de um grande conto realista. E Cortázar cita alguns, como os de Tchekhov, Quiroga e Maupassant; e eu, entrando na conversa, somo Bierce, Harvey, O’Hara e Somerset Maugham. Seus contos fixam-se de tal forma em nossa memória que se tornam, em qualquer tempo, inesquecíveis — sempre fáceis de se recontar e recontar.

“Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo”, escreveu Walter Benjamin em seu ensaio “O narrador”. E dele me lembrei lendo esta aula do Cortázar: do nostálgico Benjamin e de suas considerações acerca das narrativas do romancista russo Nikolai Leskov (1831-1895) — para ele um grande narrador justamente porque consegue ir além daquilo que conta, e assim é porque não se mete a analisar ou a descer à profundidade rasa das explicações que tentam manter uma realidade de pé, “verificada” e “provada”.

O ensaio de Benjamin, no entanto, segue uma trilha diferente das aulas do Cortázar. Está a falar do ocaso das grandes narrativas baseadas numa tradição oral, do nascimento do romance como produto de consumo da burguesia europeia e do surgimento da imprensa e do livro. Está a falar do “perigo” que representa para as grandes narrativas épicas a gradual importância que vão ganhando a informação e o fato jornalístico — estes, sem a realidade, sem a sua explicação e a sua verificabilidade, não se sustentam.

As grandes narrativas baseadas na tradição oral, os contos fantásticos de forma mais óbvia e os contos realistas, tal como Cortázar os vê, devem pôr em funcionamento, “por trás da história, às vezes por baixo, às vezes lateralmente (...), todo um sistema de forças de que não há por que falar necessariamente, mas que explica o que sucede no conto; explica-nos de outra maneira que o relato mesmo, que a própria história, por baixo ou por cima”, segue Cortázar, “e lhe dá uma força que não tem a historia pura, simples”.

Nada disso, porém, forma uma engrenagem que se põe em simples movimento no instante em que se escreve. O escritor que se dispõe a saltar sobre o abismo da escrita, sobre o risco de se escrever para outras pessoas, sobre este dar a cara a tapa que é criar uma “coisa” que insistimos (e temos de insistir) em chamar de arte literária; este escritor precisa saber que dentro da “realidade” de sua arte há, e deve sempre haver, muitas outras realidades — belas, tristes, doentias e perigosas. E só então ele pega impulso e pula. 

*

Fontes:

BENJAMIN, Walter. “O narrador — considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. Vol. 1. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. Prefácio Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 2012.

CORTÁZAR, Julio. Aulas de Literatura – Berkeley, 1980. Trad. Fabiana Camargo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

Desenho:

Karina Kuschnir, sobre capa de Paula Paron e Maurício Albuquerque (foto da capa: Walter Benjamin Archiv, Hamburger Stiftung zur Förderung von Wissenschaft und Kultur); e sobre capa de Leonardo Iaccarino (foto da capa: Colección Aurora Bernárdez, CGAI).


10 de setembro de 2018

Aparício: eis a questão



Aparício aparece ao início, logo no segundo parágrafo do capítulo um. Nasceu de uma canetada, e agora passa a existir. O aparecimento de Aparício deu-se num fim de tarde em que não havia nem sol nem chuva, mas apenas o crepúsculo. Aparício mora agora no romance de um sujeito que escreve, não vale a pena falar dele; não é de muita conversa. 

Aparício foi perfeitamente criado e já nasceu adulto. Além de todas as partes do corpo, íntegras, e nenhuma doença digna de registro, ainda ganhou uma personalidade, ganhando assim vontades, desejos, alegrias e frustrações. E já nasceu introspectivo, sempre suspeitando que, a bem da verdade, ele não nasceu, porque seres como ele não nascem; são criados. Aparício, além de introspectivo — e talvez por causa ou consequência de sua introspecção —, tem desde sempre uma pulga atrás da orelha, também suspeitando que a sua “pulga” é, por sua vez, uma criação do tal sujeito que escreve. Aparício, tal como a sua pulga, e tal como a sua “orelha”, atrás da qual a pulga passou a morar, é ficcional.

Tal condição deu à personalidade de Aparício um quê meio existencial, fazendo de Aparício um “ser” paradoxal. A dúvida e a questão de Aparício: ele existe? Ser um ser ficcional é uma coisa que lhe dá muita confusão na cabeça. Como pode ele, um ser, ser ficcional? Como pode existir um ser que não existe? Linha após linha esta angústia vai dando cabo de si e tomando conta de todo o seu ser ficcional.

Tentou algumas vezes interpelar o tal sujeito que o criou, mas o dito cujo estava sempre ocupado, a criar outras cenas e outros seres — que, também eles, passaram a existir, mesmo não existindo. E Aparício desistiu. Não seria com aquele sujeito ocupadíssimo que resolveria as suas angústias existenciais. E seguiu então a sua vida, página a página, como todo ser ficcional deve seguir...

Embora fosse ganhando cada vez mais convicção de que de fato não existia, agia como se existisse. É verdade que comia pouco e dormia quase nada. Chegou a comer pela primeira vez na vida, e mesmo assim muito mal, no capítulo nove (ou foi no dez?), durante um longo parágrafo, num jantar enfadonho, com outros seres ficcionais à mesa, também enfadonhos, com exceção de um rapaz. Dormir, só se lembra de ter dormido (cochilado) muitas páginas à frente, e num trem, onde o tal sujeito de pouca conversa o meteu para que ele se encontrasse com um rapaz (o tal do jantar), talvez criado apenas para aquele encontro. Ou não. Aparício até então não sabia de nada.

De resto, o que mais fazia era conviver, relacionar-se, indignar-se, frustrar-se, rejubilar-se — ocupar-se, enfim, e incansavelmente, com relações humanas, sobretudo as amorosas. Era o que na sua história ia acontecendo, e era como ele ia vivendo a sua vidinha — e sempre não fazendo a menor ideia do que lhe aconteceria algumas páginas ou mesmo algumas linhas à frente. Aparício ainda não sabe nem se é afinal o protagonista da história que está sendo contada pelo tal sujeito de pouca conversa, embora de muitas palavras, algumas ao vento...

Um belo dia, no meio de um parágrafo que descrevia uma tarde ensolarada, e justo na linha que narrava uma caminhada sua por um bosque, Aparício deu-se conta de que estava sendo observado por outra pessoa — esta de fato existente, ou seja, nada ficcional.

Aparício assustou-se, parou a sua caminhada e sentou-se num banquinho. Não imaginava que houvesse “por aí” ninguém além dele, dos malucos que o cercavam por todas aquelas linhas e páginas e do tal sujeito de pouca conversa, de quem já sabe que não obteria informação alguma sobre o paradoxo da sua (in)existência. Passado o susto, aproveitou o que talvez fosse a sua única oportunidade de entender a si mesmo e saber afinal se ele, que se sentia tão existente, de alguma forma (qual?) existia.

Quem o estava lendo era um senhor idoso, de óculos, um lápis na mão e um olhar cândido. Aparício pegou um travessão da mochila e falou:

— O senhor... O senhor aí que me observa... Posso pedir um minuto da sua atenção?

O velhinho, que, como é obvio, não tirava os olhos das linhas em que caminhava Aparício, e agora da linha em que Aparício se sentou, e principalmente do próprio Aparício, não levantou os olhos do livro, como seria de se esperar numa situação comum e ordinária, mas se inclinou ainda mais sobre a página, arrumou os óculos e sorriu.

— Obrigado — disse Aparício, sentindo-se, pela primeira vez na vida, realmente não tão só. — Posso me apresentar?

— Não precisa. Sei quem você é. É o Aparício.

— Mas como o senhor?... Claro, o senhor sabe o meu nome, mas eu não sei o seu.

— Pode me chamar de Antonio.

— Muito prazer, sr. Antonio. O senhor me perdoe a pergunta um tanto descabida: o senhor existe de fato, não é?

— Sim, sim. Inteiramente.

— Imaginei... É que estou desde sempre com uma questão existencial difícil de destrinchar: pode parecer maluquice, mas o fato é que não sei se existo. Às vezes penso que sim, quando sinto e sofro e choro e também me alegro, porém às vezes sinto que não, como se houvesse algo construído, controlado e controlável a guiar meus pensamentos e minhas ações, um projeto acabado, como se eu existisse apenas para corresponder a uma lógica qualquer... O senhor entende desses assuntos?

— Entendo, sim, Aparício, e muito. E isso é normal. Você, afinal, é uma personagem. E todas as personagens, pelo menos as chamadas complexas, que são reflexivas e contraditórias e profundas, e... redondas, como se diz em algumas teorias literárias, todas as personagens como você sentem essa angústia existencial.

— Sei... Bom, falar é fácil, e pouco resolve a coisa. E eu, ou melhor, a minha personagem, vai chegar a fazer análise?

— Não, mas o seu criador...

— O tal sujeito...

— Sim, o tal sujeito, que eu aliás conheço, já estivemos juntos num debate... Ele faz.

— Imaginei... Perguntei isso da análise porque conheci um jovem psicanalista, que apareceu no capítulo nove, ou dez, e depois num trem... Talvez ele pudesse me indicar alguém. Mas o senhor diz que não vai rolar análise nenhuma.

— Bom, Aparício, sem querer adiantar a coisa... Você ainda vai se encontrar com esse psicanalista em outros lugares, mas nunca como paciente. Vocês serão grandes amigos, depois vão se apaixonar, e depois vão se afastar.

— Puxa, sr. Antonio... Que banho de água fria...

— Pode me chamar de Antonio.

— OK, Antonio. Você sabe tanta coisa a meu respeito...

— Já li a sua história de vida três vezes, Aparício. Estou, inclusive, escrevendo um ensaio sobre você — disse Antonio, cândido.

— Nem sei o que dizer. Não me achava assim tão... ensaiável.

— Você é, Aparício. E eu diria mais: é instigante e, de certo modo, revolucionário. Permite muitas leituras.

— Estou vendo. Você já me leu três vezes...

— Estou falando de leitura no sentido de interpretação, Aparício... Mas tudo bem, você não precisa entender muito disso. A sua área é outra. Você é um médico, um clínico geral.

— Isso eu não preciso que você diga, Antonio! Eu sei muito bem quem eu sou.

— Ora, ora! Isso não deixa de ser um avanço aí na sua questão existencial...

— Antonio, eu dizer que sei quem eu sou é apenas uma maneira de dizer. De toda forma, admito: você me conhece mais do que eu a mim mesmo.

— Conheço. O seu criador abriu a sua mente para o leitor. Poderia não ter aberto se tivesse criado um Aparício mais simples, mais estereotipado... Mas ele optou por fazer de você uma personagem complexa, redonda, e deu a mim, ao leitor, as chaves da sua intimidade.

— Não sei se gosto disso... É invasivo.

— Você não tem opção. O fato é que o conheço, Aparício, bem melhor do que conheço todas as pessoas que me cercam.

— Mais do que conhece a sua mãe, ou o seu pai, ou a sua mulher? Nem sei se você é casado...

— Sou, sim. Conheço-o mais do que conheço as pessoas da minha família. Das pessoas, digamos, realmente reais, nós conhecemos a fisionomia, os gestos, alguns hábitos e alguns pensamentos, mas apenas alguns! E mesmo assim só aqueles que as pessoas permitem que nós conheçamos. As pessoas são misteriosas e inesperadas, Aparício.

— Mas eu afinal não sou redondo? Também me sinto mist...

— Nós, seres realmente reais, inventamos teorias e práticas que nos permitem chegar mais perto do nosso íntimo. A psicologia é uma delas, e a filosofia também. E, mesmo com essas ferramentas, o conhecimento que eu e os demais seres realmente reais temos uns dos outros surge fluido e impreciso. É muitas vezes decepcionante, e esse desconhecimento pode levar a situações catastróficas, e tem levado...

— Isso tudo, Antonio, acontece aí fora, é?

— Acontece... Mas, se não fosse assim, se não houvesse no mundo daqui de fora este mistério acerca do outro; se não houvesse uma certa privacidade, uma reserva mútua a proteger todos os seres realmente reais, a vida neste planeta seria um inferno, Aparício. É um preço alto não conhecermos de fato uns aos outros, mas se não fosse assim seria bem pior...

— Bom, como eu dizia, eu também me sinto misterioso e inesperado. Tenho até questões existenciais...

— Mas há uma diferença, Aparício. Os seres realmente reais são arbitrários, e a nossa vida está sujeita ao acaso. A sua, jamais. Você foi criado, elaborado e manufaturado nos mínimos detalhes, e para servir a um propósito estético, artístico.

— Ora, ora, também não é pra tanto...

— Desculpe se estou sendo pomposo... Mas conheço tudo sobre você. Posso nem conhecer tanto o seu corpo ou a maneira como se veste ou mesmo se usa fio dental, porém da sua personalidade eu conheço tudo, porque está tudo aí dentro, tudo o que me foi dado conhecer, claro... É aquilo que você mesmo disse sobre corresponder a uma lógica. Você, meu caro Aparício, o que faz é seguir uma lógica, a simples lógica da sua personagem.

— Simples lógica!... Então a minha suposta profundidade não passa de uma “simples lógica”, uma história pra boi dormir? Você disse que eu era profundo...

— E é, Aparício! A sua profundidade é tão profunda como a minha, mas a diferença está aqui: sobre a sua personalidade as páginas, nesta história, estão abertas. O seu criador, o tal sujeito, ele sabe tudo a seu respeito, mesmo que tenha decidido não escrever tudo a seu respeito. 

— Tudo bem, ele me inventou. OK, eu sei que “devo” a minha ”vida” a ele, mas não gosto dele...

— Isso, no fim das contas, é irrelevante. Talvez o relevante seja se ele gosta de você.

— Bom, estou fazendo o melhor que posso... E olha que já passei por cada uma, Antonio... No capítulo treze, por exemplo...

— Eu sei, Aparício, o que aconteceu lá... Mas, como eu já disse, aquele rapaz, mesmo tão belo e sensível, não foi concebido para ser o seu amor...

— Estou gostando dele cada vez mais...

— Mas vai deixar de gostar, desculpe adiantar o futuro, daqui a... deixe ver... tomei umas notas aqui neste caderno... Vai deixar de gostar daqui a dez capítulos.

— Tanto tempo assim? E até lá, o que é que eu faço?

— Vai vivendo esse amor.

— Hum.. Não sei se quero continuar com isso... Já sei que não vai dar em nada.

— Essa sua frase nem faz sentido, Aparício. Mas, ao mesmo tempo, é graças a essa frase que você é uma personagem complexa, redonda...

— Não quero mais ser redondo!

— Essa decisão não é sua... Aliás, é melhor se arrumar. Daqui a pouco você aparece.

— Quando?

— Daqui a dois capítulos.

— Saco...

— E vai ser num almoço de confraternização de antigos estudantes da faculdade de medicina de São Paulo.

— Almoço de confraternização?! Isso não se faz... E além do mais não tenho fome.

— Porque você, de fato, não precisa de comida, Aparício.

— Eu queria precisar.

— Eu também queria muita coisa...

— Bom, uma última perguntinha, Antonio. Pode ser?

— Só mais uma, porque eu preciso continuar a ler a sua vida.

— Hum... Nem sei se quero saber isso, mas vou perguntar mesmo assim.

— Diga.

— Com relação a essa história aqui...

— Diga, Aparício!

— Eu... morro no final?

— Você nunca morre, Aparício... É o máximo que posso adiantar. É muita informação para uma caminhada num bosque, numa tarde ensolarada... Boa sorte, rapaz!

— Mas...

*

Fonte:

Antonio CANDIDO. “A personagem do romance”. A personagem de ficção. Debates, Literatura. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1976, p. 51-80. (O texto está aqui.)

Desenho: