10 de setembro de 2018

Aparício: eis a questão



Aparício aparece ao início, logo no segundo parágrafo do capítulo um. Nasceu de uma canetada, e agora passa a existir. O aparecimento de Aparício deu-se num fim de tarde em que não havia nem sol nem chuva, mas apenas o crepúsculo. Aparício mora agora no romance de um sujeito que escreve, não vale a pena falar dele; não é de muita conversa. 

Aparício foi perfeitamente criado e já nasceu adulto. Além de todas as partes do corpo, íntegras, e nenhuma doença digna de registro, ainda ganhou uma personalidade, ganhando assim vontades, desejos, alegrias e frustrações. E já nasceu introspectivo, sempre suspeitando que, a bem da verdade, ele não nasceu, porque seres como ele não nascem; são criados. Aparício, além de introspectivo — e talvez por causa ou consequência de sua introspecção —, tem desde sempre uma pulga atrás da orelha, também suspeitando que a sua “pulga” é, por sua vez, uma criação do tal sujeito que escreve. Aparício, tal como a sua pulga, e tal como a sua “orelha”, atrás da qual a pulga passou a morar, é ficcional.

Tal condição deu à personalidade de Aparício um quê meio existencial, fazendo de Aparício um “ser” paradoxal. A dúvida e a questão de Aparício: ele existe? Ser um ser ficcional é uma coisa que lhe dá muita confusão na cabeça. Como pode ele, um ser, ser ficcional? Como pode existir um ser que não existe? Linha após linha esta angústia vai dando cabo de si e tomando conta de todo o seu ser ficcional.

Tentou algumas vezes interpelar o tal sujeito que o criou, mas o dito cujo estava sempre ocupado, a criar outras cenas e outros seres — que, também eles, passaram a existir, mesmo não existindo. E Aparício desistiu. Não seria com aquele sujeito ocupadíssimo que resolveria as suas angústias existenciais. E seguiu então a sua vida, página a página, como todo ser ficcional deve seguir...

Embora fosse ganhando cada vez mais convicção de que de fato não existia, agia como se existisse. É verdade que comia pouco e dormia quase nada. Chegou a comer pela primeira vez na vida, e mesmo assim muito mal, no capítulo nove (ou foi no dez?), durante um longo parágrafo, num jantar enfadonho, com outros seres ficcionais à mesa, também enfadonhos, com exceção de um rapaz. Dormir, só se lembra de ter dormido (cochilado) muitas páginas à frente, e num trem, onde o tal sujeito de pouca conversa o meteu para que ele se encontrasse com um rapaz (o tal do jantar), talvez criado apenas para aquele encontro. Ou não. Aparício até então não sabia de nada.

De resto, o que mais fazia era conviver, relacionar-se, indignar-se, frustrar-se, rejubilar-se — ocupar-se, enfim, e incansavelmente, com relações humanas, sobretudo as amorosas. Era o que na sua história ia acontecendo, e era como ele ia vivendo a sua vidinha — e sempre não fazendo a menor ideia do que lhe aconteceria algumas páginas ou mesmo algumas linhas à frente. Aparício ainda não sabe nem se é afinal o protagonista da história que está sendo contada pelo tal sujeito de pouca conversa, embora de muitas palavras, algumas ao vento...

Um belo dia, no meio de um parágrafo que descrevia uma tarde ensolarada, e justo na linha que narrava uma caminhada sua por um bosque, Aparício deu-se conta de que estava sendo observado por outra pessoa — esta de fato existente, ou seja, nada ficcional.

Aparício assustou-se, parou a sua caminhada e sentou-se num banquinho. Não imaginava que houvesse “por aí” ninguém além dele, dos malucos que o cercavam por todas aquelas linhas e páginas e do tal sujeito de pouca conversa, de quem já sabe que não obteria informação alguma sobre o paradoxo da sua (in)existência. Passado o susto, aproveitou o que talvez fosse a sua única oportunidade de entender a si mesmo e saber afinal se ele, que se sentia tão existente, de alguma forma (qual?) existia.

Quem o estava lendo era um senhor idoso, de óculos, um lápis na mão e um olhar cândido. Aparício pegou um travessão da mochila e falou:

— O senhor... O senhor aí que me observa... Posso pedir um minuto da sua atenção?

O velhinho, que, como é obvio, não tirava os olhos das linhas em que caminhava Aparício, e agora da linha em que Aparício se sentou, e principalmente do próprio Aparício, não levantou os olhos do livro, como seria de se esperar numa situação comum e ordinária, mas se inclinou ainda mais sobre a página, arrumou os óculos e sorriu.

— Obrigado — disse Aparício, sentindo-se, pela primeira vez na vida, realmente não tão só. — Posso me apresentar?

— Não precisa. Sei quem você é. É o Aparício.

— Mas como o senhor?... Claro, o senhor sabe o meu nome, mas eu não sei o seu.

— Pode me chamar de Antonio.

— Muito prazer, sr. Antonio. O senhor me perdoe a pergunta um tanto descabida: o senhor existe de fato, não é?

— Sim, sim. Inteiramente.

— Imaginei... É que estou desde sempre com uma questão existencial difícil de destrinchar: pode parecer maluquice, mas o fato é que não sei se existo. Às vezes penso que sim, quando sinto e sofro e choro e também me alegro, porém às vezes sinto que não, como se houvesse algo construído, controlado e controlável a guiar meus pensamentos e minhas ações, um projeto acabado, como se eu existisse apenas para corresponder a uma lógica qualquer... O senhor entende desses assuntos?

— Entendo, sim, Aparício, e muito. E isso é normal. Você, afinal, é uma personagem. E todas as personagens, pelo menos as chamadas complexas, que são reflexivas e contraditórias e profundas, e... redondas, como se diz em algumas teorias literárias, todas as personagens como você sentem essa angústia existencial.

— Sei... Bom, falar é fácil, e pouco resolve a coisa. E eu, ou melhor, a minha personagem, vai chegar a fazer análise?

— Não, mas o seu criador...

— O tal sujeito...

— Sim, o tal sujeito, que eu aliás conheço, já estivemos juntos num debate... Ele faz.

— Imaginei... Perguntei isso da análise porque conheci um jovem psicanalista, que apareceu no capítulo nove, ou dez, e depois num trem... Talvez ele pudesse me indicar alguém. Mas o senhor diz que não vai rolar análise nenhuma.

— Bom, Aparício, sem querer adiantar a coisa... Você ainda vai se encontrar com esse psicanalista em outros lugares, mas nunca como paciente. Vocês serão grandes amigos, depois vão se apaixonar, e depois vão se afastar.

— Puxa, sr. Antonio... Que banho de água fria...

— Pode me chamar de Antonio.

— OK, Antonio. Você sabe tanta coisa a meu respeito...

— Já li a sua história de vida três vezes, Aparício. Estou, inclusive, escrevendo um ensaio sobre você — disse Antonio, cândido.

— Nem sei o que dizer. Não me achava assim tão... ensaiável.

— Você é, Aparício. E eu diria mais: é instigante e, de certo modo, revolucionário. Permite muitas leituras.

— Estou vendo. Você já me leu três vezes...

— Estou falando de leitura no sentido de interpretação, Aparício... Mas tudo bem, você não precisa entender muito disso. A sua área é outra. Você é um médico, um clínico geral.

— Isso eu não preciso que você diga, Antonio! Eu sei muito bem quem eu sou.

— Ora, ora! Isso não deixa de ser um avanço aí na sua questão existencial...

— Antonio, eu dizer que sei quem eu sou é apenas uma maneira de dizer. De toda forma, admito: você me conhece mais do que eu a mim mesmo.

— Conheço. O seu criador abriu a sua mente para o leitor. Poderia não ter aberto se tivesse criado um Aparício mais simples, mais estereotipado... Mas ele optou por fazer de você uma personagem complexa, redonda, e deu a mim, ao leitor, as chaves da sua intimidade.

— Não sei se gosto disso... É invasivo.

— Você não tem opção. O fato é que o conheço, Aparício, bem melhor do que conheço todas as pessoas que me cercam.

— Mais do que conhece a sua mãe, ou o seu pai, ou a sua mulher? Nem sei se você é casado...

— Sou, sim. Conheço-o mais do que conheço as pessoas da minha família. Das pessoas, digamos, realmente reais, nós conhecemos a fisionomia, os gestos, alguns hábitos e alguns pensamentos, mas apenas alguns! E mesmo assim só aqueles que as pessoas permitem que nós conheçamos. As pessoas são misteriosas e inesperadas, Aparício.

— Mas eu afinal não sou redondo? Também me sinto mist...

— Nós, seres realmente reais, inventamos teorias e práticas que nos permitem chegar mais perto do nosso íntimo. A psicologia é uma delas, e a filosofia também. E, mesmo com essas ferramentas, o conhecimento que eu e os demais seres realmente reais temos uns dos outros surge fluido e impreciso. É muitas vezes decepcionante, e esse desconhecimento pode levar a situações catastróficas, e tem levado...

— Isso tudo, Antonio, acontece aí fora, é?

— Acontece... Mas, se não fosse assim, se não houvesse no mundo daqui de fora este mistério acerca do outro; se não houvesse uma certa privacidade, uma reserva mútua a proteger todos os seres realmente reais, a vida neste planeta seria um inferno, Aparício. É um preço alto não conhecermos de fato uns aos outros, mas se não fosse assim seria bem pior...

— Bom, como eu dizia, eu também me sinto misterioso e inesperado. Tenho até questões existenciais...

— Mas há uma diferença, Aparício. Os seres realmente reais são arbitrários, e a nossa vida está sujeita ao acaso. A sua, jamais. Você foi criado, elaborado e manufaturado nos mínimos detalhes, e para servir a um propósito estético, artístico.

— Ora, ora, também não é pra tanto...

— Desculpe se estou sendo pomposo... Mas conheço tudo sobre você. Posso nem conhecer tanto o seu corpo ou a maneira como se veste ou mesmo se usa fio dental, porém da sua personalidade eu conheço tudo, porque está tudo aí dentro, tudo o que me foi dado conhecer, claro... É aquilo que você mesmo disse sobre corresponder a uma lógica. Você, meu caro Aparício, o que faz é seguir uma lógica, a simples lógica da sua personagem.

— Simples lógica!... Então a minha suposta profundidade não passa de uma “simples lógica”, uma história pra boi dormir? Você disse que eu era profundo...

— E é, Aparício! A sua profundidade é tão profunda como a minha, mas a diferença está aqui: sobre a sua personalidade as páginas, nesta história, estão abertas. O seu criador, o tal sujeito, ele sabe tudo a seu respeito, mesmo que tenha decidido não escrever tudo a seu respeito. 

— Tudo bem, ele me inventou. OK, eu sei que “devo” a minha ”vida” a ele, mas não gosto dele...

— Isso, no fim das contas, é irrelevante. Talvez o relevante seja se ele gosta de você.

— Bom, estou fazendo o melhor que posso... E olha que já passei por cada uma, Antonio... No capítulo treze, por exemplo...

— Eu sei, Aparício, o que aconteceu lá... Mas, como eu já disse, aquele rapaz, mesmo tão belo e sensível, não foi concebido para ser o seu amor...

— Estou gostando dele cada vez mais...

— Mas vai deixar de gostar, desculpe adiantar o futuro, daqui a... deixe ver... tomei umas notas aqui neste caderno... Vai deixar de gostar daqui a dez capítulos.

— Tanto tempo assim? E até lá, o que é que eu faço?

— Vai vivendo esse amor.

— Hum.. Não sei se quero continuar com isso... Já sei que não vai dar em nada.

— Essa sua frase nem faz sentido, Aparício. Mas, ao mesmo tempo, é graças a essa frase que você é uma personagem complexa, redonda...

— Não quero mais ser redondo!

— Essa decisão não é sua... Aliás, é melhor se arrumar. Daqui a pouco você aparece.

— Quando?

— Daqui a dois capítulos.

— Saco...

— E vai ser num almoço de confraternização de antigos estudantes da faculdade de medicina de São Paulo.

— Almoço de confraternização?! Isso não se faz... E além do mais não tenho fome.

— Porque você, de fato, não precisa de comida, Aparício.

— Eu queria precisar.

— Eu também queria muita coisa...

— Bom, uma última perguntinha, Antonio. Pode ser?

— Só mais uma, porque eu preciso continuar a ler a sua vida.

— Hum... Nem sei se quero saber isso, mas vou perguntar mesmo assim.

— Diga.

— Com relação a essa história aqui...

— Diga, Aparício!

— Eu... morro no final?

— Você nunca morre, Aparício... É o máximo que posso adiantar. É muita informação para uma caminhada num bosque, numa tarde ensolarada... Boa sorte, rapaz!

— Mas...

*

Fonte:

Antonio CANDIDO. “A personagem do romance”. A personagem de ficção. Debates, Literatura. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1976, p. 51-80. (O texto está aqui.)

Desenho:



16 de agosto de 2018

Nanopost


O escritor Ricardo Piglia escreveu a sua famosa teoria do conto, e começou referindo umas notas de Tchekhov que talvez estivessem ali para esboçar uma pequena história a ser escrita mais tarde — um autor a tomar notas para futuros textos. O argumento de Tchekhov é simples, sintético e potente: “Um homem em Montecarlo vai a um cassino, ganha um milhão, volta para o hotel e se mata”.

A partir daí Piglia monta a sua teoria segundo a qual um conto, um bom conto, sempre conta duas histórias. E as notas de Tchekhov sugerem mais: duas histórias que, dentro daquelas breves notas, não combinam. Um jogo bem sucedido e uma vontade de acabar com a própria vida são eventos que à primeira vista não se casam, e a força deste conto (não escrito) está aqui: nas duas histórias que propõe — a história do jogo e a história do suicídio.

Tchekhov, não sei se com esta intenção, acabou por escrever, a partir daquelas notas para um provável conto, um delicioso nanoconto pronto para uso — perfeito e redondo. Na verdade, duplamente perfeito: como quatro frases que podem ser preenchidas e assim gerar diferentes histórias (o que faz todo bom nanoconto), e ainda como a representação de uma ideia de conto — um texto ficcional que conta duas histórias como se fossem uma só, duas histórias caminhando lado a lado, ou uma à frente da outra.

Citei o Tchekhov porque para mim é o exemplo ideal. Mas há outros incríveis nanocontos — alguns apenas perfeitos, outros duplamente perfeitos. O famoso nanoconto de Hemingway — “Vendem-se sapatinhos de bebê sem uso” — é apenas (!) perfeito, e sua história é tão simples e óbvia quando trágica e triste.

O nanoconto é uma espécie de narrativa in medias res — começa já tendo começado e termina antes de terminar; um bonde literário andando... E o leitor, se tiver fôlego, corre atrás do bonde para imaginar onde aquela narrativa termina. O fôlego não é para correr; é para imaginar.

Há nanocontos metanarrativos, como o de Alan Moore: “Tempo. Inesperadamente, inventei uma máquina do”. O tempo manipulado numa hipotética máquina é flagrado dentro do próprio texto, que altera os termos dentro da leitura — porque a leitura só acontece dentro do tempo. Há outros, como o da Cíntia Moscovich, que brincam com espaços literais e figurados: “Uma vida inteira pela frente. O tiro veio por trás”.

Este, de Edival Lourenço, mistura as pequenas doçuras do cotidiano com eventos grandiosos e espetaculares: “Vestiu os artefatos, beijou o filho com ternura e saiu pro último trabalho sobre a Terra”. Temos um astronauta a se despedir do filho antes de embarcar para fora do planeta, ou temos um homem que sai para trabalhar e ao fim do dia morre na contramão, atrapalhando o tráfego. O Chico Buarque fez, com esta ideia, o seu belo conto-canção, “Construção”.

Kafka dá-nos um soco. E não é à toa que se aplica aqui a frase do Cortázar: um romance vence o leitor por pontos; um conto vence o leitor por nocaute. “2 de agosto: a Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde.” Misturam-se aqui História e histórias — e tanto temos um evento único e irrepetível engolindo com violência uma prosaica atividade diurna, como esta, na sua singeleza, enfraquecendo a violência de uma data que é tudo menos ordinária.

Ocorreu-me agora uma frase que dá título a um romance do escritor Javier Marías. Para ele é o título de seu livro e também uma fala na cena III do ato V de Ricardo III; para mim, um belíssimo nanoconto. “Amanhã, na batalha, pensa em mim.” (Mañana en la batalla piensa en mí.) Quantas histórias, de amor e guerra, haverá aqui dentro? E, pensando apenas na manha da frase, a pergunta essencial: quem estará na batalha?

Talvez toda a literatura seja um inusitado bordado de nanocontos. E, enquanto escrevia isto, pensava: vou deixar para o fim o artefato do Augusto Monterroso — “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá” —, o mais badalado nanoconto que há. Por quê? Não sei. Talvez seja pela ausência da única vírgula cabível, ausência que deixa abertas três possibilidades de sintaxe e sentido: quem acordou é um humano ou algum outro ser; quem acordou é o próprio dinossauro; e quem acordou o dinossauro... este “quem” ainda estava lá, diante do dinossauro. Isto sem falar nas interpretações de enredo da teoria da jornada do herói, e estas são muitas.

Mas o que deixo para o fim é este nanoconto de Marcelo Rota: “Morreu”.

Sim, começa e acaba assim. Se fosse: “Nasceu”, o Marcelo ainda teria de matar o personagem, e a coisa iria se alongar muito... E mais não falo, porque há textos sobre os quais nada se pode falar, justamente porque deles tudo se pode falar. Neste “Morreu” cabem todas as histórias já escritas desde que o mundo é mundo e ainda todas por escrever até que o mundo não seja mais mundo.

E, enquanto o mundo ainda é mundo, escrevamos — contos, crônicas, novelas, poesias, dramas e romances. E nanocontos, claro. Só não tentemos escrever nanoposts. Falo por mim, como é óbvio...

*

Fontes:

Alguns contos referidos aqui foram retirados da Revista Bula, coluna de Carlos Willian Leite, “De Kafka a Hemingway: 30 microcontos de até 100 caracteres”acesso 12 ago. 2018.

SHAKESPEARE, Willian, Ricardo III, Edição Ridendo Castigat Mores, trad. Carlos A. Nunes, versão para eBook: EBooksBrasil.com, fonte digital: www.Jahar.org, p. 185, acesso 14 ago. 2018.

Desenho:





1 de agosto de 2018

Uberlândia - Parte 2


A Uberlândia é vária — e não existe nada que não exista. Não existem, portanto, os motoristas que não oferecem pasteis de nata. Não existem também os que não recitam versos ou caiam nos fados. E não existem em Santo Amaro os motoristas de Uber que nunca moraram em Massachusetts.

— O senhor Joaquim é português? Tem um jeito de falar diferente...

— Morei anos em Massachusetts, senhor Juva. Anos...

— Ah... Em... — e foi aí que percebi que não conseguia acertar a pronúncia daquilo...

— Massachusetts, senhor Juva.

E ele não foi o único a morar naquele estado. Em dois dias peguei três motoristas que também haviam morado em Massachusetts por pelo menos nove anos. A maluquice não para aí. Nesses dois dias fui perseguido três vezes pelo senhor Nuno, que ainda por cima me acusou a mim de ser eu o perseguidor. Na primeira vez, em Cascais; na segunda, em Santo Amaro; na terceira, em Lisboa. 

— O senhor Juva de novo? O senhor desculpe, mas está a me perseguir...

E o Nuno, na primeira viagem sujeito faladeiro e risonho, passou a terceira viagem em silêncio. Quem, afinal, estava a perseguir quem? E de vez em quando nossos olhares esbarravam pelo retrovisor, mutuamente desconfiados.

E há, claro, os poetas. Há sempre um poeta à espreita na curva de uma ruela lisboeta...

— Senhor Amando Pessoa?

— Senhor Juva? Para onde vamos?

— O senhor Amando pode me chamar somente de Juva. A propósito, que nome interessante o seu...

— Obrigado. Também pode me chamar de Amando. Mas o... Juva falou do meu nome... Não é lá muito fácil uma pessoa chamar-se “Amando Pessoa”, ainda mais em Lisboa...

— É verdade...

— Pois. O Juva percebeu, não é? Além de rimar com “Fernando”, ainda tenho de carregar este “Pessoa” pela vida afora...

— É verdade...

— Não haveria problema se eu fosse médico, advogado, engenheiro, psicólogo, físico ou qualquer coisa, menos... — e ele parou de falar e olhou pra trás.

— Não me diga que o Amando é poeta...

— Pois aí é que está! É muito peso nos ombros, senhor Juva... Digo, Juva. E ainda fiz a besteira de publicar um livro. E as pessoas amigas iam às livrarias e pediam pelo livro de versos do Pessoa. E tinham de explicar aos livreiros, sempre confusos os gajos, que não era o Pessôôôa, mas o Pessoa...

— O Amando...

— Pois. O Amando... Isto é bué desagradável, o Juva imagine... É um fardo... Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho. O Juva percebe?

— Seria pior se o Amando se chamasse Fernando...

— E foi por um triz! A minha mãe amava o Fernando, e queria Fernando, mas o meu pai disse que não, que aquilo já era demais, e para agradar à sua senhora sugeriu, como compensação, Amando. O poeta é mesmo um sofredor. Ai, Jesus...

— De fato, é complicado...

— Complicado e triste... Resultado número um: acabei detestando Fernando Pessoa, o que é bué irônico para um sujeito que se chama “Amando Pessoa”...

— De fato, é irônico...

— Resultado número dois: acabei detestando ainda mais o “Amando” do que o “Pessoa”. E hoje só assino “Pessoa”. Mas não sei se foi uma boa ideia... O Juva percebe, não?

— De fato, não foi uma boa ideia...

— Ó, senhor Juva... Já não sei quantas almas tenho... O Fernando destruiu a minha carreira... Já agora... Gostaria de ouvir uns versos meus?


*

Citações e paráfrases de poemas do Pessoa (o Fernando...):

“O guardador de rebanhos”, “Autopsicografia”, “Não sei quantas almas tenho”

Desenho:


17 de julho de 2018

Uberlândia - Parte 1


Estou em Santo Amaro de Oeiras, no distrito de Lisboa. Em Santo Amaro não acontece nada. Somadas as pessoas que vejo a andar pela rua em um dia, o número não chega a cinquenta. Táxis nunca vi, exceto os que peço. Os autocarros (ônibus) — costumo ver um a cada dois dias. Mas há ventos, e de todos os tipos. E as árvores balançam bué (muito). Mesmo assim, com as árvores a balançar bué, em Santo Amaro não acontece nada.

Mas de vez em quando acontece. E é quando pego um Uber. Os motoristas são de todas as cores, sexos e nacionalidades; e de todos os feitios. Um deles me atropelou — um senhor da Croácia. Eu estava ocupado com a chuva, não notei que sua nota era 3.7, que tinha dois meses de trabalho e não mais que trinta viagens. Quando vi eu já estava dentro do carro. Cumprimentei-o, ele me olhou esquisito, resmungou em croata, vi que não falava português, atrapalhou-se com o aplicativo, correu feito um desvairado, não xingou Deus, mas quem estivesse ao lado, errou o caminho duas vezes — e por fim, depois que eu saí do carro, ele então me atropelou.

Mas não assim: passando por cima de mim. Já fora do carro, contornava-o por trás quando meu telefone tocou. Distraí-me atendendo, acabei parando, de costas, enquanto conversava, e o senhor croata deu então a sua marcha a ré sem nem querer saber... Senti a pancada por trás, pulei para a frente, e me vi de repente fugindo de um Uber em marcha a ré. Corri, desviei para o lado, fui ter com ele mas já era tarde. O carro engatou a primeira e arrancou, os pneus cantando na chuva. Dei apenas uma estrela ao gajo, e na justificativa disse que ele havia me atropelado levemente. A vida pode ser complicada, mas será bem menos se a linguagem for simples.

*

Quando a dona Rosarinho apareceu, muito empinadinha no seu Volvo preto, muito bem arrumadinha a conduzir, pensei na delicadamente poderosa Miss Marple, da Agatha Christie. Deve ser ela, disse a mim mesmo. Só pode ser. E o carro estalava de tão novo.

— A senhora tem um belo carro...

— O menino Juva... Posso chamá-lo assim, não? Tão moço...

— Claro, dona Rosarinho.

— O menino Juva não viu nada... As minhas colegas estão ainda mais bem equipadas. Renovamos a frota, e causamos uma bela impressão em Lisboa...

— A senhora pertence a um grupo de senhoras motoristas da... terceira idade?

— Sim, mas eu não gosto nada deste termo.

— Peço desculpas.

— Tudo bem. O menino Juva não é obrigado a saber.

— Mesmo assim peço desculpas.

— Ena, pá! Eu já lhe disse que não há problema... Só não me chame “cota”.

— Cota?!

— É uma gíria angolana que a malta usa para chamar os velhos...

— Peço desculpas, dona Rosarinho...

— E escusa de me chamar “dona” Rosarinho... Não sou dona de nada, só da minha vida.

— Claro, claro.

— Bom, mas eu estava a falar de quê? Sim, a Uber tem uma política de idade máxima, a coisa é um bocado estúpida, mas lá conseguimos resolver... A minha colega, a Maria João, é que cuidou da cena toda. E arranjamos uma autorização para realizar o nosso trabalho. Eu conduzo automóveis desde os quinze anos, graças ao meu pai, e conduzo muito bem! Muito melhor, aliás, que esses betinhos, mauricinhos, como vocês chamam, que andam por aí às corridas, mas não passam de uns despassarados... Uns aldrabões... 

— Mas eu estava a dizer que a senhora tem um belo carro...

— Sim! E este nem é o melhor da nossa frota, embora seja o mais seguro... É, aliás, o carro mais seguro do mundo!

E me descreveu algumas características de um Volvo, sistemas de alarme, sensores de objetos súbitos, os pioneiros no uso do cinto de segurança de três pontas, a direção sensitiva para curvas suaves, os alarmes de adormecimento, que avisam o motorista sonolento, e muito mais.

— A Maria João tem um BMW, a Sofia Marques, um Mercedes Classe A, e a Filipa das Graças, rica como o caraças... O menino Juva perdoe a minha linguagem, mas as mulheres, principalmente as idosas, têm de se adaptar à linguagem das ruas...

— Imagine...

— A Filipa das Graças, cheia da massa, agastou-se connosco porque queria conduzir o Lamborghini do marido, este sim um cota que não conduz há dez anos mas tem um Lamborghini de quando era um puto, e o carro está impecável. Um espectáculo! Mas nós fizemos uma votação e achamos aquilo um exagero. Lamborghini não pode ser. É bué fixe, mas não pode ser.

— Claro, claro.

— O menino Juva tem de perceber isto. Já somos mulheres, já sofremos desta pecha de não conduzirmos como os homens, e ainda por cima somos idosas, e por isso dizem que não sabemos fazer mais nada nesta vida. Pois sabemos, sim, senhor! E todas nós, somos sete no nosso grupo... estamos agora é a tentar reverter esta cena. Infelizmente, no mundo de hoje, precisamos de um carro para provar isto aos outros... Tem de ser. Somos é muito despachadas no trânsito! Isto, sim!

— Pois estou a ver — e eu de fato via.

— O senhor veja aí a minha nota.

— Nota 5.0.

— Pois. Sem falar nos comentários elogiosos... Eu converso sobre tudo.

— Estou a ver, principalmente sobre automóveis...

— Pois é isto mesmo. Esta história de “mulheres ao volante, perigo constante”... Não é assim que os homens dizem? E que velhinhas de “terceira idade” têm de ficar em casa a fazer baba de camelo para os filhos, crochet para os netos e sala para as visitas... Desculpa lá! Comigo, não... Sem falar nos maridos, com essa baboseira de Sporting para cá, Benfica para lá, e tudo às bebedeiras! Super Bock, Sagres, um Porto ao final... Eu, cá para mim, não topo com isto...

— A senhora disse baba de camelo?!

— É um doce angolano. O doce mais doce que há. Eu sou chef num restaurante angolano no bairro da Amadora.

— A senhora me surpreende... e tem razão em tudo o que diz...

— Tenho razão e tenho chão! O menino veja aí as minhas viagens...

— Mais de sete mil...

— E isto só na Uber! Eu tenho estrada, menino Juva! Se eu lhe contasse de todas as minhas viagens nesta vida... Vou lhe contar esta... Oiça. Uma vez, com dezassete anitos, lá no Bairro Alto, um polícia chegou e...

*

Desenho:


Karina Kuschnir

2 de julho de 2018

Os desconectados


Não usam smartphones; não têm e-mail nem Facebook; seus currículos não estão no Linkedin; não comentam o mundo pelo Twiter; não postam fotos no Instagram; e um selfie para eles remete a um conceito da psicologia. Também não fotografam os pratos que comem, os drinks que bebem nem os cafés que tomam. Não flertam pelo Tinder, mas ao vivo, com os olhos; e quando querem compartilhar momentos sem deixar “rastros” usam o fogo, não o Snapchat.

Também são efusivos. Dão abraços apertados, como se precisassem de fato estar presentes; conversam muito próximos de nós, como se quisessem assegurar-se de alguma privacidade básica e já esquecida; olham-nos de forma obsedante, como se procurassem pescar nosso olhar, sempre navegante entre o mundo e as telas; e falam de forma convicta, como se ansiassem por nos convencer de algo crucial. Mas do quê?

De que estamos afundando, desconectados com tanta conectividade; ansiosos com tanto imediatismo; expostos e isolados com tanto exibicionismo. Eles estão alarmados. E quem são “eles”?

São os chamados “desconectados”, ou “unplugged people”. Antes estavam mais preocupados com o vício da TV, mas sabem que TV, hoje, é coisa do passado.

Mais dia menos dia acabamos nos deparando com um deles na rua. 

— Juva!

— Henrique! Há quanto tempo... O quê? Uns quinze anos...

— Isso não é nada, Juva. A História sempre andou devagar... Mas hoje anda rápido! Essa velocidade me assusta, Juva... Mas já tomei as minhas providências.

— Providências?!... — E muito rápido a minha luzinha cor de laranja, nível 1, acendeu. Pressenti que estava entrando numa fria. Tratei de mudar o rumo da prosa. — Estás com uma cara boa, Henrique...

— Estou, né? E você vai querer tirar um selfie comigo, imagino... Mas nem pense nisso! Eu não tiro fotos nem deixo que ninguém tire fotos minhas.

— É só uma recordação, Henrique... Deixa de ser bobo.

— Vamos ter a recordação vivendo o momento. E, cá pra nós, a gente sabe que você nunca mais vai olhar pra essa foto no saco das centenas de fotos que você deve ter guardadas aí dentro do seu celular...

— Vou, sim.

— Até vai, mas somente pra compartilhar essa foto com todos os seus amigos, e todos os amigos dos seus amigos, e todos vão curtir o diabo da foto, e aí acaba a vida útil da foto. Ela só vai servir pra isso.

— Ok. Sem fotos... — e eu dei um suspiro. Foi quando a minha luzinha cor-de-rosa, nível 2, acendeu. Agora era mandar o clássico “Então, tá... Vamos combinar um café um dia desses pra colocar a conversa em dia”.

— O ponto, Juva, é que eu saí do digital. Não faça essa cara. Eu saí da rede. Porque as pessoas, hoje...

E aí começou a ladainha do “as pessoas, hoje...”. Porque as pessoas hoje não se comunicam mais; as pessoas hoje só compartilham experiências vazias; as pessoas hoje não vivem na pele os acontecimentos; não se veem mais; não falam umas com as outras ao vivo, só por mensagens mal escritas e mal abreviadas... As pessoas hoje não vivem!

— Estás exagerando...

— Os números são alarmantes, Juva. Eu leio estudos...

— Eu também leio. Há muitos sites sobre “tech addiction”...

— Não estou falando de sites. Eu leio estudos, mas é no jornal impresso. Eu ainda assino jornal impresso...

— Eu não.

— São muitos estudos... Até 2020 a metade da América Latina vai estar navegando afogada em redes sociais.

— Puxa...

— E os estudos no âmbito comportamental são ainda mais alarmantes. Aí a coisa pega...

— Pega, é? — A minha luzinha vermelha, nível 3, acendeu enfim. Eu tinha de fugir. — Bom, Henrique, mas agora eu tenho que...

— As pessoas hoje não escrevem mais cartas, Juva... Agora eu só escrevo cartas! Compro papel de carta e envelope, escrevo à mão, compro selos e vou ao correio. É lindo! E a carta leva o seu tempo pra chegar, e o meu destinatário recebe a carta no tempo natural do vaivém das cartas, e...

— A cena é bonita, Henrique, mas deve dar um trabalho...

— E se ele quiser se comunicar comigo vai ter que escrever uma carta, ou me fazer uma visita, claro... A psicanálise foi construída, durante anos, graças também às muitas cartas que Freud escreveu na vida, e ele escreveu mais de 10 mil, muito mais... Fora as que ele queimou pra dar trabalho aos biógrafos... — e o Henrique deu uma risadinha.

— Mas e se houver... uma emergência?...

— Sempre houve emergências, e ninguém morria por causa disso.

— Às vezes morria...

— Ok, Juva, ok, mas eu estou disposto a pagar o preço. Pra não ficar assim tão desconectado comprei um telefone fixo — e ele me olhou de cima a baixo. — Mas é fixo mesmo! Com fio comprido... daqueles que a gente vai arrastando pela casa, sabe como é...

— Sim, acho que me lembro.

— E quando eu não estou em casa e a pessoa quiser falar comigo tem que deixar um recado. Eu tenho uma secretária.

— Secretária, Henrique?! Estás falando de secretária eletrônica, não é?

— Claro, Juva! Você acha que vou contratar uma secretária particular? Eu sou professor, não ganho pra isso...

— Claro... Fico feliz que tenhas aderido a esse tipo de tecnologia... — E respirei fundo. A hora era agora: — Então, tá, Henrique... Vamos combinar um café um dia desses pra colocar a conversa em dia.

— Não precisa, Juva! A gente já está colocando a conversa em dia. As pessoas hoje estão indo pro abismo, homem! É muito blá-blá-blá...

E seguiu falando, especialmente do telefone fixo, dizendo que...

— As pessoas hoje são tão estúpidas que não conseguem mais deixar um simples recado; não conseguem esperar que a gente receba o recado somente quando chegar em casa; não...

— Ok, Henrique. Já entendi. Mas tudo isso é uma decisão difícil de ser tomada.

Eu já tinha percebido que não iria conseguir falar das chuvas que virão ou da violência no Rio de Janeiro, ou de algum livro interessante. Até pensei em comentar aquele livro do Harari, o Homo Deus, mas isso só iria piorar as coisas e acentuar o espírito “unplugged” do Henrique.

Disse a ele que eu estava ciente do que significava esse excesso de conectividade, mas também que que não deveríamos “culpar” a tecnologia, as redes sociais ou os vídeo games, mas sim a forma como nós lidamos com a coisa — nós e os nossos filhos.

— Tens filhos, Henrique?

— Eu? Filhos? Não.

— É difícil abrir mão de tudo isso quando se tem filhos. A gente fica preocupado... Sem falar que desconectar os filhos pode significar, hoje, um tipo de exclusão social. Os amigos, a escola... e o bullying...

— Mas é muita passividade, Juva!

— Ficar na frente da TV é mais passividade do que interagir com um celular.

— Mas a questão...

— A questão pode não ser a passividade, mas a ausência de introspecção. Quase ninguém hoje fica de fato sozinho. Escrevem-se mensagens, compartilham-se o tempo todo as mais insignificantes experiência, estuda-se ouvindo música, dorme-se ouvindo música, toma-se banho ouvindo música. Fica-se pouco tempo, quase nada, em silencio.

Pode parecer que sim, mas eu e o Henrique não estávamos falando a mesma língua. Ele me olhava, no entanto, como se estivéssemos. E sorriu. E naquele preciso instante o meu celular deu um gritinho, das profundezas do meu bolso, como se pressentisse que eu precisava de ajuda, que estava me afogando em tanta navegação apocalíptica. Eu não teria conseguido sair daquela conversa não fosse o apito do meu Whatsapp — o meu Deus ex machina.

Foi eu meter a mão no bolso, e o Henrique me olhar com espanto e indignação; com uma cara de quem havia sido traído. Então era assim — deve ter pensado ele —, depois de conversarmos tanta coisa e de termos concordado em algumas, eu deixaria uma porcaria de celular interromper brutalmente o nosso encontro? 

— Henrique, vou me despedir de ti agora porque tenho de responder a essas mensagens.

— Como queira, Juva. Como queira... — e virou as costas.

Uns minutos depois ainda pude vê-lo na rua a andar à minha frente. Andava devagar, arrastando os pés, carregando o próprio corpo, com os braços balançando pesados, como se também os carregasse. Parecia perdido, sem saber onde estava.

Eu mesmo, depois daquela conversa, não sei se sabia onde estava. Mas eu tinha o Waze...

E caminhei, seguindo o Henrique de longe. E os versos do Pessoa na canção do Caetano ficaram na minha cabeça, sim, mas de cabeça para baixo: “Navegar não é preciso; viver é preciso”. (1)

*

Desenho:


Citação:

1. Inversão do verso do Pessoa (referência à canção “Os Argonautas”, de Caetano Veloso). Os versos do Pessoa: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / ‘Navegar é preciso; viver não é preciso’” nasceram daqui: “Navigare necesse; vivere non est necesse”, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a.C., dita aos marinheiros, cheios de medo, que se recusavam a viajar durante a guerra (segundo Soares Feitosa, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu), acesso 1 jul. 2018.

20 de junho de 2018

Inferno astral



Sempre ouvi isto e aquilo sobre o chamado “inferno astral”: que é o encerramento do ciclo do sol durante um ano de vida; que é o renascimento com a passagem deste sol pela posição em que se encontrava quando viemos à luz; que é introspecção e compreensão das experiências vividas. Mas ouvi também que o inferno astral não passa de uma invenção ocidental do século XX. 

Em infernos astrais, portanto, não acredito, mas que eles existem... existem... Vinte e sete dias antes do meu aniversário, o senhor Gledson, que trabalha como porteiro no prédio onde moro, me disse, de cabeça baixa, que a vizinha do oitavo andar, velhinha macambúzia, comunicou aos demais moradores, ao fim de uma reunião de condomínio, que iria “mandar rezar uma missa” pra mim. 

Não soube disso apenas pelo Gledson. No dia seguinte ao enlutado aviso, o morador do terceiro andar foi mais educado que o habitual, o jornaleiro me olhou com mais curiosidade do que o usual, e as meninas do café não riram do meu nome “Juvenal”. Até então, riam... Nunca conseguiram acertar a fonética do “Juva”, e, de tanto me chamarem de “Giovan”, “Juvá” e “Geová”, acabei desistindo do nome artístico e me rendi ao “Juvenal”. Desde então o que passei a ouvir, sempre risonho, eram os incontáveis “Nem a pau, Juvenal” que me gritavam. Naquele dia foi apenas “Olá, Juva, está tudo bem?”. Não entendi nada: entendi tudo.

Pedi ao Gledson para dizer à vizinha macambúzia que eu estava vivo, apertei com firmeza a mão do jornaleiro e aproveitei para dizer às meninas que, a partir daquele dia, “Juvenal”, nem a pau. Começou ali o meu inferno astral...

Mas inferno astral é uma coisa; astrologia é outra. Com os aspectos mais prosaicos da astrologia sempre me dei bem; sinto que sou exatamente aquilo que meu signo, meu ascendente e minha lua dizem que sou: geminiano, leão e libra. Fernando Pessoa também era geminiano de 13 de junho, e nem é preciso explicar o quanto este signo multiforme lhe cai bem — a ele, ao Ricardo Reis, ao Álvaro de Campos, ao Alberto Caeiro, e até mesmo ao Bernardo de Campos, igual e diferente “do Pessoa na pessoa”, como canta o Caetano. (1)

O dia 13 chegou enfim. E em algum momento da tarde ainda pensei: tecnicamente falando, o tal inferno termina hoje. E foi assim: reuni amigas e amigos num café — e, como o salão estava cheio, espalhei o pessoal em várias mesas e desatei a circular pra lá e pra cá. E tanto andei e saracoteei de mesa em mesa, que a minha namorada, ao fim da noite, foi chamada por uma senhora de olhos arregalados, que lhe disse com voz intensa:

— Não me leve a mal, eu não deveria estar me intrometendo, mas eu ‘tô vendo esse rapaz... ele precisa fazer um tratamento na Ayurvedica. Você conhece ele, não é? Então diz isso pra ele. Olha, escrevi aqui no papel o nome do tratamento: Ayurvedica. Isso é muito importante. O tratamento não falha. Sou uma estudiosa do assunto... 

Não adiantou a minha namorada explicar que eu andava daquele jeito porque tinha artrite, já estava acostumado e que era doença reumatológica de nascença. A senhora continuou, insistente:

— Ele precisa desse tratamento. Ele não vai se arrepender se tentar.

Não vou tentar, e sei que posso me arrepender — mas não de ignorar o tratamento, ou rir da missa encomendada. Vou me arrepender, sim, se não levar em conta dois acontecimentos inusitados vindo ao acaso num momento curioso da vida. Para a astrologia não vieram ao acaso, claro; e para mim, se vieram, posso sempre aproveitá-los de algum modo, pegando um pouco deste pouco e inserindo-o, por pura arte (arteiro que sou), numa historinha de vida.

A astrologia, por não contar com acasos, é para mim uma coisa confusa, mas bela. A ideia de planetas e estrelas no espaço infinito relacionando-se conosco e com humores e personalidades é antiga e ancestral, pertencendo aos longínquos tempos em que o ser humano deu de inventar a linguagem, e com a linguagem os mitos. Sem mitos não estaríamos aqui. Sem linguagem, então, nem eu nem tu, leitora e leitor, estaríamos aqui neste espaço sideral que é toda literatura — infinita, infinita.

Pois de tudo fica um pouco.
(...)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?

(“Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade) (2)

E, se aprendi algo com estes 48 anos, é isto: que de tudo no mundo fica um pouco, e que sempre se pode fazer deste pouco um texto de vida. 

*

Desenho:


Citações:

1. Canção “Língua”, Caetano Veloso.
2. Poema “Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade.