5 de outubro de 2018

O candidato do A.M.O.R.

Saul Steinberg

— O senhor é o candidato do “Amor”. Vamos fazer aqui algumas perguntas. Pedimos que o senhor seja breve nas respostas. Nosso tempo é limitado.

— Claro. Apenas uma correção, menina. Sou candidato do “A”, “Ême”, “Ó”, “Érre”. É assim que se fala. “Atitude, Merecimento, Ordem e Respeito” 

— O senhor me desculpe. Bom, vamos à primeira pergunta. O que o senhor pensa do ensino básico hoje no país?

— Ensino básico... A questão é a educação dos jovens adolescentes e das criancinhas. Nem vou entrar nessa conversa de gênero aqui. A imprensa vai distorcer. A imprensa foi uma descoberta maravilhosa, mas às vezes faz mais mal do que bem. Concordo com a liberdade de expressão, mas pergunto: quantos crimes já se cometeram em nome da liberdade? Será que vale a pena tanta liberdade? Mas isso é outro plano de ação que eu tenho...

— A pergunta, senhor candidato...

— Claro. Bom, sou um homem naturalista, ou seja, uso a natureza, e na natureza a gente tem macho e fêmea. Ponto pacífico. Leão e leoa. Sapo e rã, por exemplo. É simples. Agora, o que não é natural é o sujeito dizer que nasceu num corpo errado, que vive num mundo de sexo de fluidez. Essa coisa de ideologia de gênero, metamorfose... As pessoas acham que eu não sou instruído. Quem inventou a metamorfose foi o poeta Ovídio. Mal sabia ele no que ia dar... Homem e mulher são indivíduos de sexo oposto. Ponto pacífico. Agora, homossexualismo sempre teve. Todos têm direito ao homossexualismo. Não sou nem preconceituoso nem ideológico. Sou um liberal.

— Já que tocou nesse assunto... O senhor tem algum projeto de combate à homofobia?

— Homofobia... Minha questão, como eu disse, são a educação dos jovens adolescentes e das criancinhas. O mundo adulto é duro; a pessoa tem que ser firme como uma rocha. Agora, “debater questões” com os jovens adolescentes e as criancinhas é outra coisa. Os jovens adolescentes e as criancinhas devem possuir uma educação normal, e depois de adulto se tencionarem ser homossexualistas, ponto pacífico. Na escola, não! Lugar de escola é matemática, português, geografia, estudo de moral e cívica. Essas delineações embasam o meu plano de ação “A.D.I.A. — Ação de Desideologização da Infância e da Adolescência”, nome sugerido pela minha equipe. 

— E o senhor, na esfera privada, como se posiciona em relação a isso? Poderia dizer?

— Esfera privada... Na esfera privada cada sujeito tem a sua individualidade. Família pra mim é família. Meu pai sempre dizia que na mesa não se conversa dois temas: sobre religião nem política, mas nesse ponto eu desobedeci meu pai... (risos) Mas atenção! Estou falando de religião de verdade, e não budismo, essa falsa religião da Índia... Mas retornando aos finalmentes... Minha vida é um livro aberto. Agora, se desde cedo eu tivesse deixado esse debate dentro de casa, esse debate de homem que não é homem e mulher que não é mulher... Ôpa! Não deixei, e por isso esse assunto não proliferou. Menina, sou do tipo paizão, e nesse ponto eu obedeci meu pai, e até demais! (risos) As pessoas acham que eu sou preconceituoso. Eu não sou. Mas sou antiquário. Isso sou. Sou do tempo em que a gente dizia: “Primeiro as damas!”, e elas olhavam pra baixo e sorriam.

— O senhor não respondeu... O projeto de combate à homofobia...

— Homofobia... Menina, como pai, aí não é questão de “projeto”; é questão de bom senso. Mas como homem público tenho que tolerar, não é?

— Tolerar a homofobia?!

— É. Quer dizer, não... Tolerar o homossexualismo. O país é vasto, e a gente tem que saber lidar. Ponto pacífico. Até índio trans deve ter... (risos) Isso foi uma piada, claro...

— O senhor costuma ser acusado de fazer piadas politicamente incorretas...

— Nem fazer humor a gente pode hoje, porque começa aquela história de não ser politicamente correto! Sempre fui politicamente correto! Nunca fui processado, nunca roubei, nunca apliquei dinheiro público. As pessoas misturam o joio do trigo... A gente não faz piada de português? Que eu saiba não tem nenhum português processando gente que faz piada de português. Piada com judeu, argentino, bicha... Um povo feliz não vive sem piada, gente! Outro plano de ação meu é rigorosamente esse, recuperar o bom humor do cidadão de bem. O plano de ação “H.A.H.A. — Humorização Autorizada com Humor Amoroso”. A-mo-ro-so, viu?

— O senhor, em suas declarações públicas, costuma adotar posturas machistas... É o que...

— Eu não sou machista, menina! Mas nem piada com mulher a gente pode fazer mais? Eu recordo de quando a gente na família ria, minha mãe também..., dizendo: “Mulher no volante, perigo constante!”. Bom, pra provar que quando eu digo isso é apenas uma piada, eu afirmo publicamente: “Eu no volante, perigo constante!”. (risos) Minha mulher, por incrível que pareça, até dirige melhor que eu... Ponto pacífico.

— Como o senhor vê a mulher, hoje, no mercado de trabalho?

— Hoje, no século XX, a gente esbarra com mulheres trabalhando, e muito bem, diga-se de passagem! Mas, segundo afirmei, menina, eu sou um naturalista, me embaso pela natureza, e o fato é que a mulher, nessa perspectiva teórica, é um animal procriador: procria as crias, enquanto o macho sai pra caçar o alimento, e, fazendo um paralelismo com a raça humana, o macho sai pra trabalhar, ou seja, trazer o salário. Hoje o mundo é outro, claro! Estamos em pleno século XX! A gente até vê pai cuidando de filho homem em casa... Mas eu sou a favor da licença paternidade, sim. Filho tem que que virar homem com pai em cima, pra dar o arrocho necessário. Se eu não tivesse feito licença paternidade, nem sei... Mas isso é outro assunto.

— Mas...

— Peraí. Voltando às vacas gordas... (risos) A mulher no mercado de trabalho fortaleceu esse mercado, mas teve um custo de objetividade. O homem é mais objetivo que a mulher, que é mais subjetiva que o homem. Isso é o naturalismo. Toda pessoa, claro, tem que ter a sua subjetividade... E o mundo tem que equilibrar objetividade com subjetividade. Mas atenção! Não em todas as esferas! Controlador de voo, por exemplo... Vai ver quantas mulheres é controladora de voo... Tem que ter bolas. Às vezes é bom usar as palavras certas... Cirurgião... Tem que ter coração duro e sangue frio... Menina, você entregaria seu filho pruma cirurgiã mulher? Pela sua cara, não... Pra outras profissões é diferente. Assistente social, trabalho voluntarístico, pediatria, psicologia do Freud... Essas ações estão no meu “P.A.U.”.

— “Pau”?!

— “Pê”, “A”, “U”: “Plano do Amanhã Ultravioleta”. O nome é bom, né? Violeta é uma cor feminina. Ultravioleta, então, é ultra-feminino. Percebeu a metáfora? Escolhi um nome lírico, poético, pra agradar as feministas e OS feministas. Pois é, há de tudo no mundo, até homem feminista... (risos) Trocando em miúdos: o “P.A.U.” explora a verdadeira natureza da mulher na sociedade de bem. Ponto pacífico.

— E quais são os seus projetos para a educação de nível superior?

— Educação?! Você está falando de educação ou de falta de educação? (risos) É piada... Antes de mais nada, vamos aclarar alguns conceitos teóricos. As pessoas são iguais, não são? Não é isso que todo o mundo faz alarde? Então, se são iguais, temos que dar igual oportunidades a todas elas, não é?

— Sim, mas...

— Como “mais”?! Elas não são iguais? Não tem uma declaração que diz isso? Branco, preto, amarelo, índio... Até índio é igual, não é? Agora, como é que eu vou favorecer umas e não outras na educação? Quando é pra estudar, todo mundo tem que ter as mesmas condições! Entrar numa faculdade... Por que é que eu vou separar umas vagas especiais pra umas pessoas, só porque elas são pretas? 

— Mas numa sociedade com uma história de escravidão, o contexto...

— Ah, eu sabia! Lá vem você falar de contexto... Essa expressão virou moda... Agora tudo é contexto... “Contexto social”... Isso não passa de uma frase feita, um clichê cinematográfico... O contexto social é o mesmo pra todo mundo! Todo mundo está dentro do contexto social. Todo mundo é cidadão! Não é o que todo mundo quer? É cidadão até mesmo aquele indivíduo que não tem carteira de identidade nem certificado de reservista, não é? Até bandido hoje é cidadão... Mas isso é outro assunto... Eu tenho planos de ação pra isso.

— Quais?

— Deixa eu terminar. A gente é um país de latinos americanos. Aqui ninguém é branco como é na Europa, não é? Aqui existe a prática da mestiçagem. Eu não sou branco, você não é branca, apesar desse rostinho lindo... Se eu não sou branco, eu posso ficar dizendo que sou preto só pra receber vaga especial em faculdade?

— O senhor está simplificando uma questão complexa...

— Agora também tudo é “questão complexa”... Se eu dou esse tipo de favoritismo, então eu não estou sendo igualitarista. Um sujeito que estuda duro, ele vai entrar numa faculdade porque deu duro, não é? Um entra porque mereceu; outro entra porque é preto? Ponto pacífico que não.

— Mas candidato...

— Deixa eu terminar. Resolver essa simples questão é parte do plano de ação “A.M.E.M. — Ação de Meritocratização Educacional para a Maioridade”, que faz parte de uma ação maior, que é a “A.I.5 — Ação de Igualitarização dos 5”, uma variante do “P.D.S. — Plano de Discernimento Social”.

— Cinco?

— Eu sabia que você ia me perguntar sobre isso. São os cinco pilares da Raça Humana. Tem até sigla, abreviatura... “F.E.D.E.R. — Família, Educação, Dinheiro, Estado e Religião”. Se uma sociedade tem esses cinco elementos equilibrados numa igualdade para todos os homens de bem, de bem e de bens... (risos), aí tudo funciona a pleno vapor! Menina, aprende isso: a sociedade é uma orquestra, cada um faz a sua parte, sob a regência de um único regente. É simples.

— O senhor poderia explicar melhor?

— Óbvio! Se todos os homens, e mulheres também, claro..., viver como se fôssemos uma grande família nacional, com uma educação harmônica e homogênea, todos com dinheiro na carteira, todos sobre a proteção de um Estado-Pai e dirigidos por uma única e verdadeira religião, a orquestra não desafina! Ponto pacífico.

— Bom, e quais outros projetos o senhor colocará em prática?

— O mais gratificante é o plano de ação do “C.Ú. — Cidadanismo Único”. Primeiramente, fazer com que todas as pessoas de bem sejam cidadãos, ou seja, tenha os mesmos deveres. Mas não só. Índio, por exemplo. Essa época de índio já passou. Antes aqui havia só índio, muito justo; eles habitavam de favor, mas os tempos são outros! O índio hoje tem que ser o cidadão de bem. Tem direitos? Tem. Mas tem deveres de imposto também. Índio tem certificado de reserva? Tem carteira de identidade? Isso eu não sei, vou ver com o pessoal da minha equipe. Se não tiver vai ter que ter. Ponto pacífico.

— Os indígenas são cadastrados pelo Registro Administrativo de Nascimento de Indígena, RANI.

— Raoni?! Raoni não é o nome daquele cacique lá?

— RA-NI, senhor.

— Bom, dá no mesmo... Como eu dizia, o país serve para todos. Não dá mais pra ficar separando terra de índio e terra de branco, quer dizer, de branco, preto, amarelo, tudo isso aí. O país precisa crescer. Essas áreas de reserva florestal, isso é área rica, que devem ser aproveitadas pro crescimento econômico, madeira, indústria e, claro, pecuária, pra alimentar as pessoas. Tem uns estudos sobre isso. Não faz sentido uma ruma de gente faminta andando pra lá e pra cá em área de reserva ambiental, de Partido Verde... A não ser que sejam vegetarianos... (risos)

— Combater a miséria e preservar áreas indígenas não são projetos excludentes...

— Lá vem você com teoria... A prática, aprenda isso, menina, é sempre superior à teoria. Isso é um conceito teórico da filosofia. Grécia antiga. Eu tenciono colocar esses índios pra trabalhar, e não ficar balançando em rede. Indolência é uma característica dos países quentes, mas tem que mudar isso... Eu vejo índio na capital!... Vejo índio servindo mesa, indo ao cinema!... Nenhum deles morreu por participar da sociedade branca, digo, branca, preta, amarela e mestiça. Vai perguntar pro índio se ele não quer ser trabalhador... O trabalhador é por natureza um ser honesto, desde que não se organize em grupos, claro... 

— O senhor é contra a organização sindical?

— Você está misturando os alhos dos bugalhos... Haviam uns estudos de sociologia sobre isso, que provam que no fundo nenhum índio quer ser mais índio nem falar língua rudimentar de índio... Isso faz parte do plano de ação “A.E.I.O.U. — Alfabetização Educacional do Indígena Organizado e Unificado”. Desflorestamento ambiental e introdução do índio na capital é o novo princípio da ordem político-econômica.

— O senhor tem mais projetos?

— O que não falta aqui é plano de ação. Eu tenho um plano de ação geral, e ele é bem concreto. Aprende isso: ideais são coisas inúteis; ações é que são efetivas. O país precisa de investimento, e não de classe artística. Artista ganha rios de dinheiro e atira tudo pela janela da inspiração. Vai ver se trabalhador honesto pode se dar ao luxo de ser artista...

— Perguntei se o senhor tem mais projetos...

— Desculpa, eu quando falo de arte me animo... Tenho um plano de ação fundamental: desburocratização! Um governante quer fazer alguma coisa, e tem que propor projeto de lei, e o projeto tem que tramitar, e tem que ser aprovado aqui e ali... E enquanto isso o país afunda. Tem que agilizar! O pesadelo da burocracia todo governante padece de. Ele não foi eleito? Não teve maioria do povo? Então é um governante com legitimidade pra governar, e não ficar fazendo projeto de lei pra parlamentar aprovar... O presidente faz a lei, e a lei é pra ser cumprida de forma rápida e eficiente. Ponto pacífico. Não é pra ser “debatida”. Tempo é dinheiro. Bom, isso está no plano de ação “P.S.L. — Projeto da Soberania Legítima”, que é a minha menina dos olhos, o meu xodó...

— O senhor se importaria de no próximo bloco responder a um pingue-pongue de perguntas? Com respostas rápidas?

— Tipo “toma lá; dá cá”? Que nem na política hoje? (risos) Sem problema algum. Estamos aqui pra isso.

— Obrigada. Estamos aqui numa entrevista exclusiva com o candidato do “Amor”. E vamos agora pros nossos comerciais. Fique com a gente. Obrigada.

— Desculpa, é “A”, “Ême”, “Ó”, “Érre”: “Atitude, Merecimento, Ordem...

— Obrigada, candidato.

*

Inspirações e paráfrases:

G. FLAUBERT. Dicionário das ideias feitas. Trad. João da Fonseca Amaral. Ilustrações Martim Avilez. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.

Imagem:

Saul Steinberg
New Yorker March 12th, 1960 Canvas Print, em: Fine Art America.


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