20 de junho de 2018

Inferno astral



Sempre ouvi isto e aquilo sobre o chamado “inferno astral”: que é o encerramento do ciclo do sol durante um ano de vida; que é o renascimento com a passagem deste sol pela posição em que se encontrava quando viemos à luz; que é introspecção e compreensão das experiências vividas. Mas ouvi também que o inferno astral não passa de uma invenção ocidental do século XX. 

Em infernos astrais, portanto, não acredito, mas que eles existem... existem... Vinte e sete dias antes do meu aniversário, o senhor Gledson, que trabalha como porteiro no prédio onde moro, me disse, de cabeça baixa, que a vizinha do oitavo andar, velhinha macambúzia, comunicou aos demais moradores, ao fim de uma reunião de condomínio, que iria “mandar rezar uma missa” pra mim. 

Não soube disso apenas pelo Gledson. No dia seguinte ao enlutado aviso, o morador do terceiro andar foi mais educado que o habitual, o jornaleiro me olhou com mais curiosidade do que o usual, e as meninas do café não riram do meu nome “Juvenal”. Até então, riam... Nunca conseguiram acertar a fonética do “Juva”, e, de tanto me chamarem de “Giovan”, “Juvá” e “Geová”, acabei desistindo do nome artístico e me rendi ao “Juvenal”. Desde então o que passei a ouvir, sempre risonho, eram os incontáveis “Nem a pau, Juvenal” que me gritavam. Naquele dia foi apenas “Olá, Juva, está tudo bem?”. Não entendi nada: entendi tudo.

Pedi ao Gledson para dizer à vizinha macambúzia que eu estava vivo, apertei com firmeza a mão do jornaleiro e aproveitei para dizer às meninas que, a partir daquele dia, “Juvenal”, nem a pau. Começou ali o meu inferno astral...

Mas inferno astral é uma coisa; astrologia é outra. Com os aspectos mais prosaicos da astrologia sempre me dei bem; sinto que sou exatamente aquilo que meu signo, meu ascendente e minha lua dizem que sou: geminiano, leão e libra. Fernando Pessoa também era geminiano de 13 de junho, e nem é preciso explicar o quanto este signo multiforme lhe cai bem — a ele, ao Ricardo Reis, ao Álvaro de Campos, ao Alberto Caeiro, e até mesmo ao Bernardo de Campos, igual e diferente “do Pessoa na pessoa”, como canta o Caetano. (1)

O dia 13 chegou enfim. E em algum momento da tarde ainda pensei: tecnicamente falando, o tal inferno termina hoje. E foi assim: reuni amigas e amigos num café — e, como o salão estava cheio, espalhei o pessoal em várias mesas e desatei a circular pra lá e pra cá. E tanto andei e saracoteei de mesa em mesa, que a minha namorada, ao fim da noite, foi chamada por uma senhora de olhos arregalados, que lhe disse com voz intensa:

— Não me leve a mal, eu não deveria estar me intrometendo, mas eu ‘tô vendo esse rapaz... ele precisa fazer um tratamento na Ayurvedica. Você conhece ele, não é? Então diz isso pra ele. Olha, escrevi aqui no papel o nome do tratamento: Ayurvedica. Isso é muito importante. O tratamento não falha. Sou uma estudiosa do assunto... 

Não adiantou a minha namorada explicar que eu andava daquele jeito porque tinha artrite, já estava acostumado e que era doença reumatológica de nascença. A senhora continuou, insistente:

— Ele precisa desse tratamento. Ele não vai se arrepender se tentar.

Não vou tentar, e sei que posso me arrepender — mas não de ignorar o tratamento, ou rir da missa encomendada. Vou me arrepender, sim, se não levar em conta dois acontecimentos inusitados vindo ao acaso num momento curioso da vida. Para a astrologia não vieram ao acaso, claro; e para mim, se vieram, posso sempre aproveitá-los de algum modo, pegando um pouco deste pouco e inserindo-o, por pura arte (arteiro que sou), numa historinha de vida.

A astrologia, por não contar com acasos, é para mim uma coisa confusa, mas bela. A ideia de planetas e estrelas no espaço infinito relacionando-se conosco e com humores e personalidades é antiga e ancestral, pertencendo aos longínquos tempos em que o ser humano deu de inventar a linguagem, e com a linguagem os mitos. Sem mitos não estaríamos aqui. Sem linguagem, então, nem eu nem tu, leitora e leitor, estaríamos aqui neste espaço sideral que é toda literatura — infinita, infinita.

Pois de tudo fica um pouco.
(...)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?

(“Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade) (2)

E, se aprendi algo com estes 48 anos, é isto: que de tudo no mundo fica um pouco, e que sempre se pode fazer deste pouco um texto de vida. 

*

Desenho:


Citações:

1. Canção “Língua”, Caetano Veloso.
2. Poema “Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade.

14 de junho de 2018

O instante de Sísifo no tempo de Cecília Meireles


Descobri Cecília Meireles há pouco, e percebi logo um de seus temas mais recorrentes: o tempo — protagonista de muitos poemas. Sentia esse tempo como fugaz e perdido, sempre levando ao fim de todas as coisas. Mas a poeta diz que aprendeu a aceitar o tempo e acolher o seu fluir, e segundo alguns de seus intérpretes aceitava-o com ternura.

Dois ou três poemas de Cecília Meireles me levaram, pelos caminhos do coração, a Sísifo — figura mitológica que, para não enlouquecer, teve de reinventar a sua relação com o tempo. Para mim é o grande herói da mitologia — que me encanta e incomoda desde que o conheci. Viveu intensamente e, de dentro de sua tragédia, trabalhou como ninguém. Albert Camus, quem me apresentou a Sísifo, chamou-lhe “o trabalhador inútil dos infernos”. Sísifo foi assim, e o seu famoso mito resume a sua história. 

Sísifo provocou os deuses, fazendo fofocas fatais; acorrentou a morte, deixando o Hades vazio; e ainda, a pretexto de voltar ao mundo dos vivos para ajustar contas com alguns inimigos que o traíram, enganou Plutão e por isso conseguiu viver muitos anos em belas praias, aproveitando os dias e as noites como se não houvesse amanhã. Foi preciso um deus ir buscá-lo pela gola e atirá-lo ao inferno, de onde nunca mais saiu. Lá, aguardando por ele, já estava o seu castigo em forma de um grande rochedo. 

A sua condenação era o trabalho vão. Fora-lhe ordenado que empurrasse um rochedo montanha acima, mas a pedra, logo na primeira vez, chegando ao topo, resvalou para o lado e rolou para baixo. A pedra iria sempre rolar montanha abaixo, e esta era a tarefa que teria de cumprir pela eternidade adentro. Do alto da montanha, Sísifo deve ter olhado para o seu rochedo lá embaixo, pequenino, e pensado. 

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo. (1)

Os versos do poema bem poderiam ter sido seus, se fosse poeta. Mas Sísifo não era poeta. Se viveu a dúvida que vemos nestes versos de Cecília Meireles, foi pelo átimo de segundo que deve ter durado o seu desespero. Não mais. Depois de descer e voltar a carregar a pedra pela segunda vez até o topo da alta montanha, e já sabendo que, quando ela rolasse, chegando à planície, ele deveria recomeçar a subida com a sua pedra ao ombro, deu-se conta de que já não se tratava mais de ter de obedecer a uma ordem dos deuses. Não havia opção. Sísifo resignou-se, e esta foi, para mim, a sua salvação. 

E tornou-se, aos poucos, uma espécie de sábio. Dentro da eternidade a que estava condenado, aprendeu que, se tivesse de se agarrar a alguma coisa para não enlouquecer, esta seria o presente. Sísifo aprendeu que, do tempo eterno a que estava condenado, só existe o instante. Cecília também.

Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente. (2)

Também estes versos dizem muito de Sísifo e do seu aprendizado compulsório. Quando não há passado, não há nostalgia. Quando não há futuro, não há esperança. Sísifo deixou para trás a sua saudade da vida, boêmio que era, e já não tem a esperança de que seu trabalho um dia se acabará. Se houvesse uma única esperança em seu coração, sofreria para sempre, porque sempre iria falhar, a pedra sempre irá rolar. Mas Sísifo mora no instante: o futuro para ele não existe.

O momento de sua história que mais interessa a Camus não é a subida, em que o desgraçado carrega a pedra às costas. Durante a subida ele não está preocupado com a descida. O trabalho absorve-o de corpo inteiro. Sísifo e a pedra são uma coisa só — as mãos cheias de terra, a dureza da rocha, o ombro dolorido, os pés e o barro. A subida é o único momento em que ele não pensa em nada. “No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade”, diz Camus, “a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos” (3), e este proletário dos deuses, olhando para baixo, para as tempestades do Hades, vê a sua pedra pequenina, à sua espera, e desce outra vez para recomeçar.

Camus está interessado no momento da descida: é descendo que Sísifo se dá conta de sua condição miserável e impotente. Camus ainda vê nele  uma revolta. Vejo é uma sábia resignação diante da viagem que terá de fazer para sempre, cem e mil vezes, como se aceitasse enfim a loucura daquele castigo. E do livro Viagem, de Cecília Meireles, encontramos estes versos de sua viagem pela aventura incessante da poesia:

... sou uma chama da terra
que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo:
adestrei-me com o vento, e a minha festa é a tempestade. (4)

Releio O mito de Sísifo, de Camus, com a suspeita de que, chegando fim do livro, não terei escolha senão retomar a minha viagem com a leitura e a escrita — e sempre tendo às costas a minha pedrinha particular de todos os dias.

*

Desenho:

Karina Kuschnir

Citações: 

1. Cecília Meireles, “Motivo”, Viagem, Lisboa, Editorial Império, 1939.
2. Id., “Irrealidade”, Mar Absoluto e Outros Poemas, Porto Alegre, Ed. Globo, 1945.
3. Albert Camus, O mito de Sísifo, trad. Urbano Tavares Rodrigues e Ana de Freitas, Lisboa, Livros do Brasil-Lisboa, s/d, p. 147-149.
4. Cecília Meireles, “Encontro”, Viagem, op. cit.

Os poemas e as referências bibliográficas sobre Cecília Meireles foram retiradas de Nelly N. Coelho, “O eterno instante na poesia de Cecília Meireles”, Alfa: Revista de Linguística, acesso 13 jun. 2018.