21 de junho de 2018

Inferno astral



Sempre ouvi isto e aquilo sobre o chamado “inferno astral”: que é o encerramento do ciclo do sol durante um ano de vida; que é o renascimento com a passagem deste sol pela posição em que se encontrava quando viemos à luz; que é introspecção e compreensão das experiências vividas. Mas ouvi também que o inferno astral não passa de uma invenção ocidental do século XX. 

Em infernos astrais, portanto, não acredito, mas que eles existem... existem... Vinte e sete dias antes do meu aniversário, o senhor Gledson, que trabalha como porteiro no prédio onde moro, me disse, de cabeça baixa, que a vizinha do oitavo andar, velhinha macambúzia, comunicou aos demais moradores, ao fim de uma reunião de condomínio, que iria “mandar rezar uma missa” pra mim. 

Não soube disso apenas pelo Gledson. No dia seguinte ao enlutado aviso, o morador do terceiro andar foi mais educado que o habitual, o jornaleiro me olhou com mais curiosidade do que o usual, e as meninas do café não riram do meu nome “Juvenal”. Até então, riam... Nunca conseguiram acertar a fonética do “Juva”, e, de tanto me chamarem de “Giovan”, “Juvá” e “Geová”, acabei desistindo do nome artístico e me rendi ao “Juvenal”. Desde então o que passei a ouvir, sempre risonho, eram os incontáveis “Nem a pau, Juvenal” que me gritavam. Naquele dia foi apenas “Olá, Juva, está tudo bem?”. Não entendi nada: entendi tudo.

Pedi ao Gledson para dizer à vizinha macambúzia que eu estava vivo, apertei com firmeza a mão do jornaleiro e aproveitei para dizer às meninas que, a partir daquele dia, “Juvenal”, nem a pau. Começou ali o meu inferno astral...

Mas inferno astral é uma coisa; astrologia é outra. Com os aspectos mais prosaicos da astrologia sempre me dei bem; sinto que sou exatamente aquilo que meu signo, meu ascendente e minha lua dizem que sou: geminiano, leão e libra. Fernando Pessoa também era geminiano de 13 de junho, e nem é preciso explicar o quanto este signo multiforme lhe cai bem — a ele, ao Ricardo Reis, ao Álvaro de Campos, ao Alberto Caeiro, e até mesmo ao Bernardo de Campos, igual e diferente “do Pessoa na pessoa”, como canta o Caetano. (1)

O dia 13 chegou enfim. E em algum momento da tarde ainda pensei: tecnicamente falando, o tal inferno termina hoje. E foi assim: reuni amigas e amigos num café — e, como o salão estava cheio, espalhei o pessoal em várias mesas e desatei a circular pra lá e pra cá. E tanto andei e saracoteei de mesa em mesa, que a minha namorada, ao fim da noite, foi chamada por uma senhora de olhos arregalados, que lhe disse com voz intensa:

— Não me leve a mal, eu não deveria estar me intrometendo, mas eu ‘tô vendo esse rapaz... ele precisa fazer um tratamento na Ayurvedica. Você conhece ele, não é? Então diz isso pra ele. Olha, escrevi aqui no papel o nome do tratamento: Ayurvedica. Isso é muito importante. O tratamento não falha. Sou uma estudiosa do assunto... 

Não adiantou a minha namorada explicar que eu andava daquele jeito porque tinha artrite, já estava acostumado e que era doença reumatológica de nascença. A senhora continuou, insistente:

— Ele precisa desse tratamento. Ele não vai se arrepender se tentar.

Não vou tentar, e sei que posso me arrepender — mas não de ignorar o tratamento, ou rir da missa encomendada. Vou me arrepender, sim, se não levar em conta dois acontecimentos inusitados vindo ao acaso num momento curioso da vida. Para a astrologia não vieram ao acaso, claro; e para mim, se vieram, posso sempre aproveitá-los de algum modo, pegando um pouco deste pouco e inserindo-o, por pura arte (arteiro que sou), numa historinha de vida.

A astrologia, por não contar com acasos, é para mim uma coisa confusa, mas bela. A ideia de planetas e estrelas no espaço infinito relacionando-se conosco e com humores e personalidades é antiga e ancestral, pertencendo aos longínquos tempos em que o ser humano deu de inventar a linguagem, e com a linguagem os mitos. Sem mitos não estaríamos aqui. Sem linguagem, então, nem eu nem tu, leitora e leitor, estaríamos aqui neste espaço sideral que é toda literatura — infinita, infinita.

Pois de tudo fica um pouco.
(...)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?

(“Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade) (2)

E, se aprendi algo com estes 48 anos, é isto: que de tudo no mundo fica um pouco, e que sempre se pode fazer deste pouco um texto de vida. 

*

Desenho:


Citações:

1. Canção “Língua”, Caetano Veloso.
2. Poema “Resíduo”, Carlos Drummond de Andrade.

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