2 de julho de 2018

Os desconectados


Não usam smartphones; não têm e-mail nem Facebook; seus currículos não estão no Linkedin; não comentam o mundo pelo Twiter; não postam fotos no Instagram; e um selfie para eles remete a um conceito da psicologia. Também não fotografam os pratos que comem, os drinks que bebem nem os cafés que tomam. Não flertam pelo Tinder, mas ao vivo, com os olhos; e quando querem compartilhar momentos sem deixar “rastros” usam o fogo, não o Snapchat.

Também são efusivos. Dão abraços apertados, como se precisassem de fato estar presentes; conversam muito próximos de nós, como se quisessem assegurar-se de alguma privacidade básica e já esquecida; olham-nos de forma obsedante, como se procurassem pescar nosso olhar, sempre navegante entre o mundo e as telas; e falam de forma convicta, como se ansiassem por nos convencer de algo crucial. Mas do quê?

De que estamos afundando, desconectados com tanta conectividade; ansiosos com tanto imediatismo; expostos e isolados com tanto exibicionismo. Eles estão alarmados. E quem são “eles”?

São os chamados “desconectados”, ou “unplugged people”. Antes estavam mais preocupados com o vício da TV, mas sabem que TV, hoje, é coisa do passado.

Mais dia menos dia acabamos nos deparando com um deles na rua. 

— Juva!

— Henrique! Há quanto tempo... O quê? Uns quinze anos...

— Isso não é nada, Juva. A História sempre andou devagar... Mas hoje anda rápido! Essa velocidade me assusta, Juva... Mas já tomei as minhas providências.

— Providências?!... — E muito rápido a minha luzinha cor de laranja, nível 1, acendeu. Pressenti que estava entrando numa fria. Tratei de mudar o rumo da prosa. — Estás com uma cara boa, Henrique...

— Estou, né? E você vai querer tirar um selfie comigo, imagino... Mas nem pense nisso! Eu não tiro fotos nem deixo que ninguém tire fotos minhas.

— É só uma recordação, Henrique... Deixa de ser bobo.

— Vamos ter a recordação vivendo o momento. E, cá pra nós, a gente sabe que você nunca mais vai olhar pra essa foto no saco das centenas de fotos que você deve ter guardadas aí dentro do seu celular...

— Vou, sim.

— Até vai, mas somente pra compartilhar essa foto com todos os seus amigos, e todos os amigos dos seus amigos, e todos vão curtir o diabo da foto, e aí acaba a vida útil da foto. Ela só vai servir pra isso.

— Ok. Sem fotos... — e eu dei um suspiro. Foi quando a minha luzinha cor-de-rosa, nível 2, acendeu. Agora era mandar o clássico “Então, tá... Vamos combinar um café um dia desses pra colocar a conversa em dia”.

— O ponto, Juva, é que eu saí do digital. Não faça essa cara. Eu saí da rede. Porque as pessoas, hoje...

E aí começou a ladainha do “as pessoas, hoje...”. Porque as pessoas hoje não se comunicam mais; as pessoas hoje só compartilham experiências vazias; as pessoas hoje não vivem na pele os acontecimentos; não se veem mais; não falam umas com as outras ao vivo, só por mensagens mal escritas e mal abreviadas... As pessoas hoje não vivem!

— Estás exagerando...

— Os números são alarmantes, Juva. Eu leio estudos...

— Eu também leio. Há muitos sites sobre “tech addiction”...

— Não estou falando de sites. Eu leio estudos, mas é no jornal impresso. Eu ainda assino jornal impresso...

— Eu não.

— São muitos estudos... Até 2020 a metade da América Latina vai estar navegando afogada em redes sociais.

— Puxa...

— E os estudos no âmbito comportamental são ainda mais alarmantes. Aí a coisa pega...

— Pega, é? — A minha luzinha vermelha, nível 3, acendeu enfim. Eu tinha de fugir. — Bom, Henrique, mas agora eu tenho que...

— As pessoas hoje não escrevem mais cartas, Juva... Agora eu só escrevo cartas! Compro papel de carta e envelope, escrevo à mão, compro selos e vou ao correio. É lindo! E a carta leva o seu tempo pra chegar, e o meu destinatário recebe a carta no tempo natural do vaivém das cartas, e...

— A cena é bonita, Henrique, mas deve dar um trabalho...

— E se ele quiser se comunicar comigo vai ter que escrever uma carta, ou me fazer uma visita, claro... A psicanálise foi construída, durante anos, graças também às muitas cartas que Freud escreveu na vida, e ele escreveu mais de 10 mil, muito mais... Fora as que ele queimou pra dar trabalho aos biógrafos... — e o Henrique deu uma risadinha.

— Mas e se houver... uma emergência?...

— Sempre houve emergências, e ninguém morria por causa disso.

— Às vezes morria...

— Ok, Juva, ok, mas eu estou disposto a pagar o preço. Pra não ficar assim tão desconectado comprei um telefone fixo — e ele me olhou de cima a baixo. — Mas é fixo mesmo! Com fio comprido... daqueles que a gente vai arrastando pela casa, sabe como é...

— Sim, acho que me lembro.

— E quando eu não estou em casa e a pessoa quiser falar comigo tem que deixar um recado. Eu tenho uma secretária.

— Secretária, Henrique?! Estás falando de secretária eletrônica, não é?

— Claro, Juva! Você acha que vou contratar uma secretária particular? Eu sou professor, não ganho pra isso...

— Claro... Fico feliz que tenhas aderido a esse tipo de tecnologia... — E respirei fundo. A hora era agora: — Então, tá, Henrique... Vamos combinar um café um dia desses pra colocar a conversa em dia.

— Não precisa, Juva! A gente já está colocando a conversa em dia. As pessoas hoje estão indo pro abismo, homem! É muito blá-blá-blá...

E seguiu falando, especialmente do telefone fixo, dizendo que...

— As pessoas hoje são tão estúpidas que não conseguem mais deixar um simples recado; não conseguem esperar que a gente receba o recado somente quando chegar em casa; não...

— Ok, Henrique. Já entendi. Mas tudo isso é uma decisão difícil de ser tomada.

Eu já tinha percebido que não iria conseguir falar das chuvas que virão ou da violência no Rio de Janeiro, ou de algum livro interessante. Até pensei em comentar aquele livro do Harari, o Homo Deus, mas isso só iria piorar as coisas e acentuar o espírito “unplugged” do Henrique.

Disse a ele que eu estava ciente do que significava esse excesso de conectividade, mas também que que não deveríamos “culpar” a tecnologia, as redes sociais ou os vídeo games, mas sim a forma como nós lidamos com a coisa — nós e os nossos filhos.

— Tens filhos, Henrique?

— Eu? Filhos? Não.

— É difícil abrir mão de tudo isso quando se tem filhos. A gente fica preocupado... Sem falar que desconectar os filhos pode significar, hoje, um tipo de exclusão social. Os amigos, a escola... e o bullying...

— Mas é muita passividade, Juva!

— Ficar na frente da TV é mais passividade do que interagir com um celular.

— Mas a questão...

— A questão pode não ser a passividade, mas a ausência de introspecção. Quase ninguém hoje fica de fato sozinho. Escrevem-se mensagens, compartilham-se o tempo todo as mais insignificantes experiência, estuda-se ouvindo música, dorme-se ouvindo música, toma-se banho ouvindo música. Fica-se pouco tempo, quase nada, em silencio.

Pode parecer que sim, mas eu e o Henrique não estávamos falando a mesma língua. Ele me olhava, no entanto, como se estivéssemos. E sorriu. E naquele preciso instante o meu celular deu um gritinho, das profundezas do meu bolso, como se pressentisse que eu precisava de ajuda, que estava me afogando em tanta navegação apocalíptica. Eu não teria conseguido sair daquela conversa não fosse o apito do meu Whatsapp — o meu Deus ex machina.

Foi eu meter a mão no bolso, e o Henrique me olhar com espanto e indignação; com uma cara de quem havia sido traído. Então era assim — deve ter pensado ele —, depois de conversarmos tanta coisa e de termos concordado em algumas, eu deixaria uma porcaria de celular interromper brutalmente o nosso encontro? 

— Henrique, vou me despedir de ti agora porque tenho de responder a essas mensagens.

— Como queira, Juva. Como queira... — e virou as costas.

Uns minutos depois ainda pude vê-lo na rua a andar à minha frente. Andava devagar, arrastando os pés, carregando o próprio corpo, com os braços balançando pesados, como se também os carregasse. Parecia perdido, sem saber onde estava.

Eu mesmo, depois daquela conversa, não sei se sabia onde estava. Mas eu tinha o Waze...

E caminhei, seguindo o Henrique de longe. E os versos do Pessoa na canção do Caetano ficaram na minha cabeça, sim, mas de cabeça para baixo: “Navegar não é preciso; viver é preciso”. (1)

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Desenho:


Citação:

1. Inversão do verso do Pessoa (referência à canção “Os Argonautas”, de Caetano Veloso). Os versos do Pessoa: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / ‘Navegar é preciso; viver não é preciso’” nasceram daqui: “Navigare necesse; vivere non est necesse”, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a.C., dita aos marinheiros, cheios de medo, que se recusavam a viajar durante a guerra (segundo Soares Feitosa, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu), acesso 1 jul. 2018.