14 de junho de 2018

O instante de Sísifo no tempo de Cecília Meireles


Descobri Cecília Meireles há pouco, e percebi logo um de seus temas mais recorrentes: o tempo — protagonista de muitos poemas. Sentia esse tempo como fugaz e perdido, sempre levando ao fim de todas as coisas. Mas a poeta diz que aprendeu a aceitar o tempo e acolher o seu fluir, e segundo alguns de seus intérpretes aceitava-o com ternura.

Dois ou três poemas de Cecília Meireles me levaram, pelos caminhos do coração, a Sísifo — figura mitológica que, para não enlouquecer, teve de reinventar a sua relação com o tempo. Para mim é o grande herói da mitologia — que me encanta e incomoda desde que o conheci. Viveu intensamente e, de dentro de sua tragédia, trabalhou como ninguém. Albert Camus, quem me apresentou a Sísifo, chamou-lhe “o trabalhador inútil dos infernos”. Sísifo foi assim, e o seu famoso mito resume a sua história. 

Sísifo provocou os deuses, fazendo fofocas fatais; acorrentou a morte, deixando o Hades vazio; e ainda, a pretexto de voltar ao mundo dos vivos para ajustar contas com alguns inimigos que o traíram, enganou Plutão e por isso conseguiu viver muitos anos em belas praias, aproveitando os dias e as noites como se não houvesse amanhã. Foi preciso um deus ir buscá-lo pela gola e atirá-lo ao inferno, de onde nunca mais saiu. Lá, aguardando por ele, já estava o seu castigo em forma de um grande rochedo. 

A sua condenação era o trabalho vão. Fora-lhe ordenado que empurrasse um rochedo montanha acima, mas a pedra, logo na primeira vez, chegando ao topo, resvalou para o lado e rolou para baixo. A pedra iria sempre rolar montanha abaixo, e esta era a tarefa que teria de cumprir pela eternidade adentro. Do alto da montanha, Sísifo deve ter olhado para o seu rochedo lá embaixo, pequenino, e pensado. 

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo. (1)

Os versos do poema bem poderiam ter sido seus, se fosse poeta. Mas Sísifo não era poeta. Se viveu a dúvida que vemos nestes versos de Cecília Meireles, foi pelo átimo de segundo que deve ter durado o seu desespero. Não mais. Depois de descer e voltar a carregar a pedra pela segunda vez até o topo da alta montanha, e já sabendo que, quando ela rolasse, chegando à planície, ele deveria recomeçar a subida com a sua pedra ao ombro, deu-se conta de que já não se tratava mais de ter de obedecer a uma ordem dos deuses. Não havia opção. Sísifo resignou-se, e esta foi, para mim, a sua salvação. 

E tornou-se, aos poucos, uma espécie de sábio. Dentro da eternidade a que estava condenado, aprendeu que, se tivesse de se agarrar a alguma coisa para não enlouquecer, esta seria o presente. Sísifo aprendeu que, do tempo eterno a que estava condenado, só existe o instante. Cecília também.

Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente. (2)

Também estes versos dizem muito de Sísifo e do seu aprendizado compulsório. Quando não há passado, não há nostalgia. Quando não há futuro, não há esperança. Sísifo deixou para trás a sua saudade da vida, boêmio que era, e já não tem a esperança de que seu trabalho um dia se acabará. Se houvesse uma única esperança em seu coração, sofreria para sempre, porque sempre iria falhar, a pedra sempre irá rolar. Mas Sísifo mora no instante: o futuro para ele não existe.

O momento de sua história que mais interessa a Camus não é a subida, em que o desgraçado carrega a pedra às costas. Durante a subida ele não está preocupado com a descida. O trabalho absorve-o de corpo inteiro. Sísifo e a pedra são uma coisa só — as mãos cheias de terra, a dureza da rocha, o ombro dolorido, os pés e o barro. A subida é o único momento em que ele não pensa em nada. “No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade”, diz Camus, “a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos” (3), e este proletário dos deuses, olhando para baixo, para as tempestades do Hades, vê a sua pedra pequenina, à sua espera, e desce outra vez para recomeçar.

Camus está interessado no momento da descida: é descendo que Sísifo se dá conta de sua condição miserável e impotente. Camus ainda vê nele  uma revolta. Vejo é uma sábia resignação diante da viagem que terá de fazer para sempre, cem e mil vezes, como se aceitasse enfim a loucura daquele castigo. E do livro Viagem, de Cecília Meireles, encontramos estes versos de sua viagem pela aventura incessante da poesia:

... sou uma chama da terra
que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo:
adestrei-me com o vento, e a minha festa é a tempestade. (4)

Releio O mito de Sísifo, de Camus, com a suspeita de que, chegando fim do livro, não terei escolha senão retomar a minha viagem com a leitura e a escrita — e sempre tendo às costas a minha pedrinha particular de todos os dias.

*

Desenho:

Karina Kuschnir

Citações: 

1. Cecília Meireles, “Motivo”, Viagem, Lisboa, Editorial Império, 1939.
2. Id., “Irrealidade”, Mar Absoluto e Outros Poemas, Porto Alegre, Ed. Globo, 1945.
3. Albert Camus, O mito de Sísifo, trad. Urbano Tavares Rodrigues e Ana de Freitas, Lisboa, Livros do Brasil-Lisboa, s/d, p. 147-149.
4. Cecília Meireles, “Encontro”, Viagem, op. cit.

Os poemas e as referências bibliográficas sobre Cecília Meireles foram retiradas de Nelly N. Coelho, “O eterno instante na poesia de Cecília Meireles”, Alfa: Revista de Linguística, acesso 13 jun. 2018.