2000-02-16
FERRAZ, Silvio, “Uma lição de vida — O escritor baiano conta como venceu o alcoolismo e fala da eterna luta entre a preguiça e o trabalho na hora de escrever”, Veja, 16 fev. 2000.
JUR: “A crítica me aborrece. São pessoas sem nenhum fundamento clássico, sem nenhuma base para entender literatura. Sem parâmetros, sem referências. Um jovem qualquer pega um Milan Kundera e já se acha capaz de elaborar uma crítica literária. E já sai dizendo que O sorriso do lagarto não passa de uma novela das oito. Ou seja, bobagens. O que me surpreende é a incapacidade de esculhambar com fundamento”.
16 de fevereiro de 2000
6 de fevereiro de 2000
“Ocasião um pouco tensa”
2000-02-06
RIBEIRO, João Ubaldo, “Ocasião um pouco tensa”, O Globo, Rio de Janeiro, 6 fev. 2000.
JUR: “... depois de sentenciado por uma comissão de críticos literários, me amarrarão num poste a entrada da Academia, me darão um último cigarrinho, me vendarão os olhos com as folhas dos originais de meu último (último mesmo) livro e me despacharão desta para pior”.
RIBEIRO, João Ubaldo, “Ocasião um pouco tensa”, O Globo, Rio de Janeiro, 6 fev. 2000.
JUR: “... depois de sentenciado por uma comissão de críticos literários, me amarrarão num poste a entrada da Academia, me darão um último cigarrinho, me vendarão os olhos com as folhas dos originais de meu último (último mesmo) livro e me despacharão desta para pior”.
30 de dezembro de 1999
"Dialoguinho"
—
Onde é que você vai passar o ano-novo?
—
Ainda não pensei nisso.
—
Você não pensou? Como pode isso? Você não sabe onde vai passar o ano-novo,
justamente esse ano-novo?
—
O que é que tem esse ano-novo de especial?
—
É o ano-novo do ano dois mil, uai... A gente tem que descolar uma festa, alguma
coisa, assim, mais... chique, sofisticada, sei lá...
—
Todo ano você diz isso, e a gente sempre acaba de lado, esquecidas... Por que é
que você acha, querida, que esse ano vai ser diferente?
—
Ah, sei lá... Apenas sinto que dessa vez vai ser diferente.
—
Diferente, como?
—
Quer saber? Acho que nesse ano a gente vai explodir a boca do gargalo.
—
Você vive sentindo coisas... Acho que você sentiu a mesma coisa ano passado, e
você viu onde foi que nós passamos a meia-noite... Naquele lugar horroroso,
escuro, quente e cheirando a queijo e salaminho, e ainda por cima de pé a noite
toda, horrorosas...
—
A gente TEM QUE arranjar uma festa! Eu não quero ficar na mão de qualquer um no
meio da rua. Isso não!
—
Não se preocupe, tonta. Tenho uma surpresa para você.
—
Qual?
—
Temos, sim, uma festa...
—
Jura? Onde? Por que é que você não falou logo? Por que é que me deixou na
agonia? Por que é que ficou fazendo charminho? Sinto que sou capaz de
transpirar de emoção... Você acredita nisso?
—
De você eu espero tudo...
—
E de quem é a festa?
—
É de uma moça muito simpática e de um moço muito simpático.
—
Você não precisava me dar tantos detalhes assim...
—
Não me aporrinhe a paciência, senão você fica de fora...
—
Você não seria capaz de tamanha torpeza... Não se esqueça de que nós duas
nascemos praticamente no mesmo dia... Quem são eles?
—
O nome dela é Roberta e o dele é Luís Henrique. São muito simpáticos.
—
E você os conheceu onde?
—
Ela é a mãe da Lili.
—
Que Lili?
—
A Lili, ora! A namorada daquele menino engraçado, o Byron.
—
O lorde?
—
Não, o Sousa.
—
...
—
Ó, doce flor, inculta e bela, por que é que você quer saber de tantos detalhes
assim? Até parece que você vai ficar a noite toda conversando com eles. Nosso
lugar você bem sabe onde é...
—
Onde?
—
Na cozinha, sua tonta...
—
Isso depende muito do tipo de festa, você sabe. É festa chique, com garçons,
essas coisas? É casa ou apartamento? É grande ou pequena? Muita ou pouca gente?
Vai ter empadinha ou não vai ter empadinha? Vai ter...
—
Chega!! Pare de ser curiosa! Devia dar-se é por satisfeita de ter sido
convidada. Eles foram muito carinhosos em nos convidar. Não se esqueça disso.
—
É na Avenida Atlântica?
—
Claro!
—
Valha-me, Nossa Senhora da Boa Vista e do Bom Lugar à Janela, valha-me!! Isso é
bom demais! Eu não estou satisfeita; eu estou des-bun-dan-do de satisfação!!
Você acha que nós vamos encalhar mais uma vez, você acha? Ou dessa vez vai?
—
Estou achando que dessa vez vai. Nessa festa vai.
—
Logo você, que é tão pessimista... Por que o otimismo?
—
Porque o povo parece que vai beber bastante.
—
Será?
—
Oxalá!
—
Hum...
—
O que foi, maluca?
—
Maluca é você! Eu estou aqui pensando...
—
No quê?
—
Esta festa, assim, em pleno ano-novo do ano dois mil, assim, numa bela casa,
com gente simpática e bonita, belas bocas e belas mãos, na Avenida Atlântica,
com empada e tudo... Não está bom demais para ser verdade? E se acabar em
pizza?
—
Não vai acabar nada em pizza, tonta! Tenho até um convite para dois...
—
Um convite, é? Que chique!! E o que é que diz?
—
Diz que temos que confirmar nossa presença até o dia 3 de dezembro e levar...
—
Aha!! Eu sabia que tinha que levar alguma coisa! Estava bom demais para ser
verdade... O que é que tem que levar?
—
Fique calminha, não é nada demais... Diz aqui que tem que levar uma pessoa por
garrafa. É só.
—
Uma pessoa por garrafa? Hum... E você conhece alguém?
—
Tem aí um casal que parece disponível...
—
Prazo de validade?
—
Acho que estão dentro.
—
Franceses?
—
Não.
—
Hum... Quem são?
—
O Juva e a mulher dele.
13 de agosto de 1999
24 de março de 1999
“João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”
1999-03-24
VASCONCELOS, José Carlos de, “João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”, Entrevista, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIX, nº 743, Portugal, 24 mar. a 6 abr. 1999, p. 9-12.
JCV: “...será que cada vez te interessa menos, como escritor, essa (esta) realidade e os aspectos sociais que lhe estão ligados?”
JUR: “Não sei se concordo com as premissas da pergunta. Fico curioso em saber o que foi que o levou a essa percepção. Talvez nosso quadros de referência sejam mais diversos entre si do que pensamos. (...) E os tipos, personagens e situações [de O feitiço da ilha do Pavão] me parecem — e foi você quem puxou o assunto — metáforas do Brasil, e do Brasil de hoje. Portanto, não me creio tão alheado assim. Mas fiquei preocupado agora. Acho que gostaria de conversar com você mais extensamente sobre isso, estou me sentindo um pouco frustrado. Você não viu, através do ‘quilombo ao contrário’, o problema racial passado através do prisma económico/tecnológico e com suas bases na ‘realidade’ ridicularizadas? A corrupção, a advocacia administrativa, a hipocrisia, a desmitificação do indiozinho inocente e assim por diante? Só pra chatear, mostrar a Inquisição a pleno vapor na Alemanha, em vez de na Ibéria, entre nossos sebentos torquemadas? E mais outras tantas brincadeiras sérias? Eu sou mau carpinteiro” (p. 9-10).
VASCONCELOS, José Carlos de, “João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”, Entrevista, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIX, nº 743, Portugal, 24 mar. a 6 abr. 1999, p. 9-12.
JCV: “...será que cada vez te interessa menos, como escritor, essa (esta) realidade e os aspectos sociais que lhe estão ligados?”
JUR: “Não sei se concordo com as premissas da pergunta. Fico curioso em saber o que foi que o levou a essa percepção. Talvez nosso quadros de referência sejam mais diversos entre si do que pensamos. (...) E os tipos, personagens e situações [de O feitiço da ilha do Pavão] me parecem — e foi você quem puxou o assunto — metáforas do Brasil, e do Brasil de hoje. Portanto, não me creio tão alheado assim. Mas fiquei preocupado agora. Acho que gostaria de conversar com você mais extensamente sobre isso, estou me sentindo um pouco frustrado. Você não viu, através do ‘quilombo ao contrário’, o problema racial passado através do prisma económico/tecnológico e com suas bases na ‘realidade’ ridicularizadas? A corrupção, a advocacia administrativa, a hipocrisia, a desmitificação do indiozinho inocente e assim por diante? Só pra chatear, mostrar a Inquisição a pleno vapor na Alemanha, em vez de na Ibéria, entre nossos sebentos torquemadas? E mais outras tantas brincadeiras sérias? Eu sou mau carpinteiro” (p. 9-10).
“João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”
1999-03-24
VASCONCELOS, José Carlos de, “João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”, Entrevista, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIX, nº 743, Lisboa, Portugal, 24 mar. a 6 abr. 1999, p. 9-12.
JCV: “Sempre disseste que O feitiço da ilha do Pavão era uma simples história divertida, às vezes brejeira, sem nenhum outro significado. Não admites que ele também é uma metáfora (...)?.
JUR: “... prefiro que o leitor veja por si mesmo as metáforas. Se precisar explicá-las, serão más metáforas. Acho que, com o tempo, fui inventando (...) uma série de resposta um tanto cínicas para perguntas muito repetidas, tais como ‘pode dizer-nos alguma coisa sobre o seu livro?’. Aí eu digo a primeira besteira que me ocorre e, de tanto repetir essa besteira, ela se torna automática. Para ser perfeitamente honesto há uma vasta falsa modéstia no que eu falo a respeito de meu trabalho, mas tenho boas razões para isso: não é decoroso o sujeito sair por aí, rasgando-se em elogios a si próprio ou impondo visões sobre o que faz. Eu gosto do que faço e tenho lá minhas pretensões (esse ‘lá’ aí já é a falsa modéstia em operação (...)). Minha acção, pois, é devolver a peteca ao freguês. Ele que ache alguma coisa mais no Feitiço do que uma simples história divertida. Se não achar nada, terá sido, das duas, uma: ou é mau achador ele, ou sou eu mau carpinteiro. Ou ambas as coisas; nada impede que o leitor tenha um nível de incompetência comensurável com o do escritor” (p. 9).
VASCONCELOS, José Carlos de, “João Ubaldo Ribeiro — O feitiço da escrita”, Entrevista, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Ano XIX, nº 743, Lisboa, Portugal, 24 mar. a 6 abr. 1999, p. 9-12.
JCV: “Sempre disseste que O feitiço da ilha do Pavão era uma simples história divertida, às vezes brejeira, sem nenhum outro significado. Não admites que ele também é uma metáfora (...)?.
JUR: “... prefiro que o leitor veja por si mesmo as metáforas. Se precisar explicá-las, serão más metáforas. Acho que, com o tempo, fui inventando (...) uma série de resposta um tanto cínicas para perguntas muito repetidas, tais como ‘pode dizer-nos alguma coisa sobre o seu livro?’. Aí eu digo a primeira besteira que me ocorre e, de tanto repetir essa besteira, ela se torna automática. Para ser perfeitamente honesto há uma vasta falsa modéstia no que eu falo a respeito de meu trabalho, mas tenho boas razões para isso: não é decoroso o sujeito sair por aí, rasgando-se em elogios a si próprio ou impondo visões sobre o que faz. Eu gosto do que faço e tenho lá minhas pretensões (esse ‘lá’ aí já é a falsa modéstia em operação (...)). Minha acção, pois, é devolver a peteca ao freguês. Ele que ache alguma coisa mais no Feitiço do que uma simples história divertida. Se não achar nada, terá sido, das duas, uma: ou é mau achador ele, ou sou eu mau carpinteiro. Ou ambas as coisas; nada impede que o leitor tenha um nível de incompetência comensurável com o do escritor” (p. 9).
20 de março de 1999
"No oeste só o forte sobrevive"
"No oeste só o forte sobrevive — Novo livro de Cormac McCarthy retoma o universo violento da fronteira dos Estados Unidos com o México em narrativa impiedosa e veloz", Caderno Idéias, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 de março de 1999.
Resenha sobre o livro A travessia, de Cormac McCarthy, ed. Companhia das Letras.
Existem dois tipos de narrador, já dizia o filósofo Walter Benjamin num ensaio sobre o escritor russo Nikolai Leskov: aquele que viaja e traz do mundo o muito que conta e aquele que, vivendo e morrendo onde nasceu, conhece e transmite suas histórias e tradições. Podemos cobri-los com as roupas do marinheiro comerciante e do camponês sedentário e teremos então dois arquétipos, modelos de seres, representantes arcaicos da grande família dos narradores. Mas a real extensão do universo narrativo somente será bem compreendida se apresentarmos o marinheiro ao camponês e misturarmos as conversas. A troca de experiências fará circularem os saberes — o de longe e o de antes —, e da travessia das histórias pelo espaço e pelo tempo nascerá a narrativa.
Coloque-se em lugar de marinheiros e camponeses um jovem vaqueiro americano e muitos velhos de beira de estrada ansiosos para contar-lhe suas histórias; e coloque-se como espaço e tempo o ancestral chão mexicano nos anos imediatamente anteriores à Segunda Guerra — e teremos assim um dos grandes romances já escritos neste século. “A travessia” (The Crossing), de Cormac McCarthy, forma o segundo volume de uma trilogia (The Border Trilogy), da qual o primeiro, “Todos os belos cavalos” (All the Pretty Horses), também publicado pela Companhia das Letras, ganhou os prêmios National Book Critics Circle e National Book for Fiction, em 1992. Fechando a trinca, Cities of the Plain, que reúne os protagonistas dos dois primeiros livros: John Grady Cole e Billy Parham.
Billy é um menino de dezesseis anos que cruza por três vezes a fronteira com o México, atravessa desertos, montanhas e povoados, aprende com o que descobre pelo caminho e cresce — e o que descobre pelo caminho condensa tudo o que pode haver de essencial no campo da experiência humana. McCarthy apresenta o mundo como se fosse ele mesmo um personagem, recupera motivos e temas presentes nas formas narrativas ligadas à tradição oral e consegue assim pôr os pés naquela universalidade que dá a uma história um pouco de todas as outras já escritas e por escrever. Lá estão as forças da natureza, com as estrelas a servir de guia, as tempestades a conduzir o viajante à procura do abrigo, a neve, os rios e o pôr do sol a dar corda à melancolia. Lá estão os personagens, encarnados no homem justo, no ancião quase santo e cheio de conselhos a oferecer, no bêbado que puxa a faca, na jovem mulher calada e virgem e em mais um sem-número de figuras típicas. Lá estão as crendices, os receituários, os presságios, a força da memória como condição para qualquer narrativa, a maldade. Lá está, antes e depois de tudo, o espetáculo público da morte — em todos os povoados por onde vaga o menino, em todas as casas e acampamentos e praças, haverá sempre um morto sendo velado e ensinando, com seu silêncio, o principal da vida. E o narrador, seguindo o exemplo dos clássicos narradores da tradição oral, não se detém em ponderações psicológicas; sua única preocupação é dar conta do insondável rio de acontecimentos presente em toda história.
Billy é quase um Quixote — andrajoso, profundamente só e obstinado: “Um ser saído de um tempo antigo de quem tinham apenas ouvido falar. Um ser sobre o qual tinham lido” (p. 326). Teve três boas razões para não atravessar a fronteira em direção ao México, e no entanto foi exatamente o que fez, em três viagens fadadas ao desastre. A primeira razão tem a forma de uma loba prenhe que avança a fronteira, desce pelas encostas da Sierra de la Madera e desata a matar os novilhos do rancho dos Parham, no vale do Novo México. O pai e seus dois filhos, Billy e Boyd, plantam armadilhas por toda a região, espalham líquidos pelos caminhos, na verdade odores enfrascados, distribuem iscas, lançam mão, enfim, de toda uma espécie de epistemologia da caça, acumulada e transmitida por décadas e gerações, mas não pegam a loba — que não é boba e aprendeu a desenterrar armadilhas, reconhecer emboscadas e classificar cheiros. Após muitos dias e alguns bezerros, Billy consegue, sozinho, capturá-la. Ao invés de puxar o gatilho, decide, num acesso de desrazão, devolvê-la às montanhas do México. Ata-lhe à boca aberta um pedaço de pau, improvisa uma focinheira, faz coleira e guia, encabresta a loba e parte a cavalo rumo à fronteira.
A partir daí “A travessia” esquenta e o leitor passa a sentir-se cúmplice da péssima idéia de Billy — estamos na estrada e sentimos frio e fome e medo. A narrativa não usa meias palavras e a relativa ausência de vírgulas na enumeração das ações dá à leitura um encadeamento urgente: “Ouviu os limitados movimentos do cavalo maneado e ouviu a erva se quebrar maciamente na boca do cavalo e o ouviu respirar e abanar a cauda e viu no longe ao sul bem além das Hatchet Mountains o clarão dos relâmpagos sobre o México e entendeu que não seria sepultado naquele vale mas em algum lugar remoto entre estranhos e olhou para a direção na qual o vento impelia as ervas sob o frio céu estrelado como se a própria terra estivesse sendo arremessada ruidosamente e disse com voz branda antes de tornar a pegar no sono que a única coisa que sabia entre todas as outras que se acreditava saber era que...” (p. 338). As duas outras viagens de Billy são a conseqüência inevitável do horror e do absurdo que o esperam em seu primeiro retorno à casa paterna.
Cormac McCarthy é um sujeito arredio e avesso a teorismos, prefere não dar entrevistas mas gosta de conversar sobre tudo o que existe no mundo — menos literatura. Antes de sua Border Trilogy, publicou, em 1965, The Orchard Keeper, ganhador do Prêmio Faulkner; Outer Dark em 1968, seguido por Child of God (1973), Suttree (1969) e, em 1985, “Meridiano sangrento” (Blood Meridian), editado pela Nova Fronteira em 1991. McCarthy, 65 anos, nasceu em Rhode Island, criou-se nos arredores de Knoxville, no Tenessee, serviu na Força Aérea Americana em 1953, entrou e abandonou a universidade por duas vezes, mudou-se em 1976 para El Paso, no Texas, e lá vive até hoje. O nome Cormac é um velho apelido de família e equivale a Charles em gaélico — subdivisão do grupo das línguas celtas, formado pelo irlandês e pelo escocês. Charles faz o tipo rústico errante e dizem que escreve numa velha Olivetti. Seus ambientes são vastos, arenosos e despovoados, minúsculas vilas pregadas no deserto, estradas de terra batida e encruzilhadas. Seus personagens não têm a vida fácil, são os párias, os bêbados, os miseráveis, os dementes, os que não possuem nada e quase nada podem perder, viúvas, padres sem Deus, meninos sem pai: “Mundeiros. (...) Não tinham qualquer relação de posse com nada, dificilmente com o espaço que ocupavam. (...) Esse movimento é em si mesmo uma forma de prosperidade” (p. 398). Seus temas não são propriamente domésticos ou datados; mas os mesmos temas que animaram a prosa de escritores considerados grandes, como Faulkner, Dostoievsky, Hemingway e Melville: a aspereza da vida, o crescimento às turras, o assombro diante da morte, o tenso arco de bondade e crueldade presente no coração dos homens, a procura do bom e velho e necessário sentido para a existência, a opção entre Deus ou a liberdade.
Trecho nº 1
“Os rebeldes capturados foram postos nas ruas encadeados um ao outro com fios de cerca (...) e esse homem se acercou e se pôs a examinar cada um deles (...). O homem falava bom espanhol, ainda que com sotaque alemão, e disse ao artillero que apenas o mais patético dos tolos morreria por uma causa que era não só errada como também estava condenada e o prisioneiro cuspiu em seu rosto. O alemão fez então algo bastante estranho. Sorriu e lambeu a saliva do homem em torno da boca. Era um homem corpulento de mãos enormes e as estendeu e com ambas segurou a cabeça do prisioneiro e se inclinou como se fosse beijá-lo. Mas beijo não era. Segurava-lhe o rosto e (...) o que ele fez, encovando profundamente as bochechas, foi sugar cada um dos olhos do homem e depois cuspi-los de novo, deixando-os pender, úmidos e estranhos e balançando sobre as faces.
“E desse modo ele ficou. Sua dor era grande mas maior era sua agonia pelo mundo em desordem que ele agora contemplava e que jamais poderia ordenar. Muito menos conseguia se decidir a tocar os olhos. Urrava com grande desespero e agitava as mãos diante de si. Não podia ver o rosto do inimigo. O arquiteto de sua treva, o ladrão de sua luz. Via a terra pisada na estrada abaixo dele. Uma confusão de botas. Via a própria boca. (...) Ninguém jamais testemunhara tal coisa. Todos estavam estupefatos. Os buracos rubros em seu crânio luziam como lampiões. Como se neles houvesse um fogo mais profundo que o demônio trouxera à superfície.”
Trecho nº 2
“Os fazendeiros contavam que os lobos brutalizavam as reses de um modo que não brutalizavam os animais selvagens. Como se as vacas provocassem neles alguma cólera. Como se eles estivesse ofendidos com alguma violação de uma antiga ordem. Antigas cerimônias. Antigos protocolos.
“Ela atravessou o Bavispe River e seguiu rumo ao norte. Carregava a primeira barrigada e não tinha como saber que estava numa enrascada. (...) Quando matou o novilho na neve na nascente do Foster Draw nas Peloncillo Mountains do Novo México, não comera mais do que carniça por duas semanas e tinha um olhar de acossada e não encontrava nem um rastro sequer de lobos. Comeu e descansou e comeu de novo. Comeu até a barriga arrastar no chão e não voltou. Não retornou para um chacina. Não atravessou uma estrada ou uma via férrea à luz do dia. Não passou debaixo de uma cerca de arame duas vezes num mesmo lugar. Esses eram os novos protocolos. Restrições que antes não existiam. Agora existiam.”
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