21 de abril de 2011

"O lobo e o cordeiro"

"Estava o cordeirinho bebendo água, quando viu refletida no rio a sombra do lobo. Estremeceu, ao mesmo tempo que ouvia a voz cavernosa: ´Vais pagar com a vida o teu miserável crime´. ´Que crime?´ - perguntou o cordeirinho tentando ganhar tempo, pois já sabia que com o lobo não adianta argumentar. ´O crime de sujar a água que bebo.´ ´Mas como sujar a água que bebes se sou lavado diariamente pelas máquinas automáticas da fazenda?´ - indagou o cordeirinho. ´Por mais limpo que esteja um cordeiro é sempre sujo para um lobo´ - retrucou dialeticamente o lobo. ´E vice-versa´ - pensou o cordeirinho, mas disse apenas: ´Como posso sujar a sua água se estou abaixo da corrente?´. ´Pois se não foi você foi seu pai, foi sua mãe ou qualquer outro ancestral e vou comê-lo de qualquer maneira, pois, como rezam os livros de lobologia, eu só me alimento de carne de cordeiro´ - finalizou o lobo preparando-se para devorar o cordeirinho. ´Ein moment! Ein moment!´ - gritou o cordeirinho traçando o seu alemão kantiano. ´Dou-lhe toda razão, mas faço-lhe uma proposta: se me deixar livre atrairei pra cá todo o rebanho.´ ´Chega de conversa´ - disse o lobo. ´Vou comê-lo, e está acabado.´ ´Espera aí´ - falou firme o cordeiro. ´Isto não é ético. Eu tenho, pelo menos, direito a três perguntas.´ ´Está bem´ - cedeu o lobo, irritado com a lembrança do código milenar da jungle. `Qual é o animal mais estúpido do mundo?´ ´O homem casado´ - respondeu prontamente o cordeiro. ´Muito bem, muito bem!´ - disse logo o lobo, logo refreando, envergonhado, o súbito entusiasmo. ´Outra: a zebra é um animal branco de listas pretas ou um animal preto de listas brancas?´ ´Um animal sem cor pintado de preto e branco para não passar por burro` - respondeu o cordeirinho. ´Perfeito!´ - disse o lobo, engolindo a seco. ´Agora, por último, diga uma frase de Bernard Shaw.´ ´Vai haver eleições em 66´ - respondeu logo o cordeirinho, mal podendo conter o riso. ´Muito bem, muito certo, você escapou!´ - deu-se o lobo por vencido. E já ia se preparando para devorar o cordeiro quando apareceu o caçador e o esquartejou.

MORAL: QUANDO O LOBO TEM FOME NÃO DEVE SE METER EM FILOSOFIAS."

Millôr Fernandes, Fábulas Fabulosas, Rio de Janeiro, Círculo do Livro, 1974, p. 21.

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