Outras Quartas - Para acabar de vez com a leitura
14 de Setembro de 2011, Chapitô, Lisboa.
"Cânone, ou a vã glória de ler e escrever".
Mediadora: Eurídice Gomes.
Com: Juva Batella, Maria do Rosário Pedreira, Miguel Real e Ricardo Duarte.
13 de setembro de 2011
11 de setembro de 2011
As belas e deliciosas tretas internéticas
Muito se difundem as tretas, e ainda bem, porque vamos conhecê-las. Mas bem que valia sabermos serem as tretas tretas. Recebi esta, que achei impossivelmente maravilhosa. O texto que a acompanha é convincente. Diz que devemos lê-lo antes de assitir ao vídeo, diz que todas as bolas caem nos cones e que a "incrível máquina foi construída como um esforço colaborativo entre o Robert M. Trammell Music Conservatory e a Sharon Wick School of Engenharia (sic) da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos da América". Estas instituições existem? Não consegui chegar a nenhum site oficial. Diz também que 97% dos componentes da máquina vieram da John Deere Industries and Irrigation Equipamentos de Bancroft, Iowa...". Um toque de absurdidade dá mais credibilidade à coisa... E, com alguma ênfase, o texto anexo ao vídeo diz que "a equipa gastou 13.029 horas entre setup, alinhamento, calibragem e ajustes", antes de filmar a maquininha em acção. E, para terminar, ficamos a saber que a máquina está agora "em exibição no Matthew Gerhard Alumni Hall", e que vai ser doada "ao Smithsonian".
Com trinta segundos de alguma pesquisa básica descobri que provavelmente a máquina é falsa. Digo "provavelmente" porque também não sei se é falsa a afirmativa de que a máquina é falsa, mas creio ser falsa a máquina (lindamente falsa) e ser verdadeira a afirmativa que diz ser falsa a máquina. Estou convencido, na verdade, de que mais bela é a máquina, mais belo o que ela faz, sendo a dita cuja uma criação total, sem nenhuma correspondente real. Pelos vistos, a máquina não existe mesmo. Não tem engrenagens e nem precisa de óleo, embora, acredito também, seja fruto de muito trabalho - um belo trabalho, e que deve ter demorado horas, muitas horas de dedicação. A máquina é ainda mais bela se considerarmos isso.
O site em que me baseei, aliás, especializou-se no descortinar das tretas internéticas que circulam por aí há tempos - tipo manga com leite e laranjas antes de dormir.
Vamos esquecer, então, a verdade e a mentira, e vamos ouvir, encantados, "A máquina"?
6 de setembro de 2011
"Masculinidade, obsessão e memorialismo na literatura" - Curso de Verão 2011
"América Latina Hoje" (Curso de Versão 4a.edição)
5 a 9 de Setembro de 2011, ISCTE-IUL, Lisboa.
Organização: Casa da América Latina; Centro de Investigação e Estudos de Sociologia e Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL); e Instituto de Iberoamérica da Universidade de Salamanca.
Dia 7: Seminário 5 - "Masculinidade, obsessão e memorialismo na literatura", por Juva Batella (CLEPUL).
Organização: Casa da América Latina; Centro de Investigação e Estudos de Sociologia e Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL); e Instituto de Iberoamérica da Universidade de Salamanca.
Dia 7: Seminário 5 - "Masculinidade, obsessão e memorialismo na literatura", por Juva Batella (CLEPUL).
1 de setembro de 2011
“Um estranho no sofá”
6. “Um estranho no sofá” (“Tratado
geral dos pais ciumentos — ou a ‘arte de
amarrar genros’"), Revista Lilica and Tigor,
São Paulo, set. 2011 (data aproximada).
Ser pai de duas miúdas bonitas (a minha opinião é isenta, não me
canso de repetir isto)… ser pai de duas miúdas lindíssimas, como eu dizia, tem
os seus percalços. Mais cedo ou mais tarde o tema dos namorados ou dos arremedos
de namorado acaba vindo à baila, e um pai, que é homem e conhece os homens,
deve saber como se portar para não passar por bobo e ciumento. A curiosidade
acerca do tema do namoro e do amor, e, na boleia disto (ou seja, na carona
disto), acerca do tema dos beijos na boca, é um impulso que funciona em ondas,
e os discursos das miúdas muitas vezes caminham no sentido contrário ao das
ações.
A minha filha Alice, que tem nove anos e é o máximo (eu já disse
isso?), não pode ouvir falar em beijo na boca, que vira o rosto e faz cara de
nojo, como se um beijo na boca fosse a coisa mais inconcebível para uma criatura
racional. Ao mesmo tempo, espicha o pescoço, mal conseguindo disfarçar a
curiosidade, quando me vê ao telefone a trocar torpedinhos com a minha
namorada, e quer porque quer saber o código de acesso do meu telemóvel (celular),
e quer porque quer saber o teor daquilo que eu tão marotamente escrevo no
telemóvel, fazendo cara de levado-da-breca.
A Clarinha, que tem quatro anos e é irresistível (isso eu ainda
não havia dito), diz a todos, mesmo que não perguntem (e falava o meu avô que não
existem perguntas indiscretas; existem é respostas indiscretas)… a Clarinha
anuncia aos sete cantos do mundo que tem dois namorados, um mais novo do que
ela (“… para eu ensinar a ele coisas, papá”), e outros mais velho do que ela (“…
para ele me ensinar coisas, papá”); diz que já beijou na boca várias vezes, manifesta
sempre a vontade de me dar a mim um beijo na boca; avisa que há pelo menos três
colegas da escola, da mesma idade, que querem ser o namorado dela; e diz que
eu, uma vez que sou brasileiro mas moro em Portugal, e portanto tenho amigos
dois lados do oceano, deveria ter, no mínimo, duas namoradas: uma aqui e outra
lá, diz ela (“… é bem melhor assim, papá; assim não ficas com saudades de
namorar…”).
Provavelmente, daqui a poucos anos, eu me verei na situação de
enfrentar estas duas miúdas novamente numa posição inversa: a Clara com esgares
de face diante de um beijo na boca flagrado numa televisão ou numa página de
revista, e a Alice, bem mais maliciosa daqui a alguns anos, a disfarçar melhor,
bem melhor, o seu interesse, mais real e mais cheio de perspectivas, diante da
possibilidade de ela mesma dar, nalgum dia, o seu primeiro beijo na boca. Não vou
agir como um amigo um dia me segredou, talvez a citar alguém e referindo-se aos
pretendentes da sua filha: “Divido-os em dois, meu caro Juva”, disse ele. “Aqueles
que eu detesto e aqueles que eu desprezo.” Não. Tentarei ser bem mais civilizado:
vou amarrá-los numa cadeira e pedir que jurem, de pés juntos (e isso vai ser
fácil, porque os pés estarão amarrados a um pé da cadeira)… vou pedir que jurem
que jamais se deixarão amarrar em cadeiras por um pai-de-princesas ciumento e
bobo.
20 de agosto de 2011
Wim Wenders e aprendenders
"Na faculdade de arquitetura, alguém (já não recordo quem) me deu este conselho útil: ´Quando a borracha cair no chão, não se precipite a pegá-la de volta; siga-a com os olhos enquanto salta e saltita, até parar, e só então vá pegá-la´. E, analogamente: ´Na hora de fechar os tubos de tinta, depois de ter usado vários às pressas, não se deve nunca andar com o tubo à procura da tampa; primeiro pegue a tampa e depois vá em busca do tubo. É bem mais fácil´."
(STEINBERG, Saul. “4. Desenho de observação. Os reflexos, as sombras. O ofício de cartunista. Vender as próprias obras. O mundo artístico. O marceneiro Sig Lomaky”, em __________. Reflexos e sombras (com a colaboração de Aldo Buzzi). Trad. Samuel Titan Jr. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p. 165.)
(Desenho de Steinberg.)
7 de agosto de 2011
Vida besta do Portugal (Brasil) profundo
"... umas moças velhas com os cotovelos aparafusados nas janelas, olhando mortas, todas murchas, nem falam. Vez em quando, uma vira a cabeça para o lado e fica o tempo todo, com aquela cabeça virada, com preguiça de desvirar e fica lá, como uma planta."
João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, p. 31.
6 de agosto de 2011
"Perda e recuperação do cabelo"
"Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo mais velho defende a prática de arrancar um bom fio da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia. Se o cabelo ficar preso no ralo que costuma haver nesses buracos, bastará abrir um pouco a torneira para que se perca de vista.
"Sem perda de um instante, deve-se iniciar a tarefa de recuperação do cabelo. A primeira operação se resume em desmontar o sifão da pia para ver se o cabelo ficou agarrado em alguma das sinuosidades do cano. Se não for encontrado, deve-se abrir o pedaço de cano que vai do sifão ao encanamento do esgoto principal. É certo que nessa parte aparecerão muitos cabelos e será preciso contar com a ajuda do resto da família para examiná-los um por um à procura do que tem o nó. Se não aparecer, colocar-se á o interessante problema de quebrar o encanamento até o andar de baixo, mas isso significa um esforço maior, pois durante oito ou dez anos será necessário trabalhar em algum ministério ou numa casa de comércio para juntar o dinheiro que permita comprar os quatro apartamentos situados embaixo do de meu primo mais velho, tudo isso com a extraordinária desvantagem de que enquanto se trabalha durante esses oito ou dez anos não se poderá evitar a penosa sensação de que o cabelo não esteja mais no encanamento, e que só por um remoto acaso permaneça preso em alguma saliência enferrujada do cano.
"Chegará o dia em que poderemos quebrar os canos de todos os apartamentos, e, durante meses, viveremos cercados por bacias e outros recipientes cheios de cabelos molhados, assim como de curiosos e mendigos, aos quais pagaremos generosamente para que procurem, separem, classifiquem e nos tragam os cabelos possíveis, a fim de alcançarmos a certeza desejada. Se o cabelo não aparecer, entraremos numa etapa muito mais vaga e complicada, porque o trecho seguinte nos leva aos esgotos maiores da cidade. Depois de comprar uma roupa especial, aprenderemos a nos esgueirar pela rede a altas horas da noite, armados com uma poderosa lanterna e uma máscara de oxigênio, e exploraremos as galerias menores e maiores, se possível ajudados por marginais com quem teremos travado relação e a quem precisaremos dar grande parte do dinheiro que ganhamos durante o dia em um ministério ou numa casa comercial.
"Frequentemente teremos a sensação de haver chegado ao fim da tarefa, porque encontraremos (ou nos trarão) cabelos semelhantes ao que procuramos; mas como não se conhece nenhum caso em que um cabelo tenha um nó no meio sem a intervenção da mão humana, acabaremos quase sempre por comprovar que o nó em causa é um simples engrossamento do diametro do cabelo (embora tampouco conheçamos algum caso parecido) ou um depósito de algum silicato ou óxido qualquer, provocado por uma longa permanência numa superfície humida. É provável que avancemos assim por diversos trechos de esgotos menores e maiores, até chegarmos a esse lugar onde ninguém se atreveria a penetrar o esgoto principal que desemboca no rio, na junção torrencial dos detritos na qual nenhum dinheiro, nenhum barco, nenhum suborno nos permitirão continuar a busca.
"Mas antes disso, e talvez muito antes, a poucos centímetros do buraco da pia, por exemplo, na altura do apartamento do segundo andar, ou no primeiro encanamento subterrâneo, pode acontecer que encontremos o cabelo. Basta pensar na alegria que isso nos provocaria, no cálculo espantado de esforços economizados por pura sorte, para justificar, para exigir praticamente uma tarefa semelhante, que todo professor consciente deveria aconselhar a seus alunos desde a mais tenra infância, em vez de secar-lhes a alma com a regra de tres composta ou com as tristezas de Cancha Rayada (1)."
(1) Episódio histórico, também chamado na Argentina El desastre de Cancha Rayada, batalha perdida pelas forças do General San Martín no Chile, para os espanhóis, em abril de 1817, pouco antes da vitória de Maipú. (Nota da Tradutora).
Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas, trad. Glória Rodríguez, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972, p. 34-36.
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