26 de agosto de 2010

Let´s Piglia

"Uma das cenas mais famosas da história da filosofia é um efeito do poder da literatura. Nietzsche, ao ver como um cocheiro castigava brutalmente um cavalo caído, abraça-se chorando ao pescoço do animal e o beija. Foi em Turim, em 3 de Janeiro de 1888, e essa data marca, em certo sentido, o fim da filosofia: com esse facto começa a chamada loucura de Nietzsche, que, tal como o suicídio de Sócrates, é um acontecimento inesquecível na história da razão ocidental. O incrível é que a cena é uma repetição literal de uma situação de Crime e castigo, de Dostoiévski (parte 1, capítulo 5), na qual Raskólnikov se abraça ao pescoço do animal caído e o beija. Ninguém parece ter reparado no bovarismo de Nietzsche, que repete uma cena lida. (A teoria do eterno retorno pode ser vista como uma descrição do efeito de falsa memória que a leitura produz.)"

Ricardo Piglia, "Notas sobre literatura em um Diário", in _____, Formas Breves, trad. José Marcos Mariani de Macedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2004, p. 75.

1 de agosto de 2010

“Pai para toda obra”

1. “Pai para toda obra" ("O nascimento do pai doméstico"), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, ago. 2010 (data aproximada).*

É-se pai de um bebê de um segundo para o outro, e dizer isto não é cair em redundância. Antes de ser “pai de um bebê”, um sujeito é, no máximo, “pai de uma barriga” que cresce e se arredonda. Aquela barriga não é apenas uma barriga, sabe-se disso, mas pouco mais se sabe. Uma barriga sempre será, para um pai, uma abstração. As mães vão tornando-se mães aos bocadinhos, mês a mês e a cada pequeno chute daqueles seres tão minúsculos e ao mesmo tempo bem maiores, bem maiores do que o mundo em que se vive e a História que se atravessa.

E, um dia, a barriga, num átimo, deixa de ser barriga, e o sujeito torna-se pai. E é tudo tão rápido que todas as águas se misturam, as da barriga e as dos olhos, que, estupefactos, assistem àquele que seria o segundo nascimento, porque o nascimento mesmo, o primeiro, ninguém sabe quando é que se dá, só os bebês e as mães. O segundo, embora ainda privado, é mais público, e desse os pais participam, e cada vez mais.

De “pai de uma barriga” para “pai de um bebê”, é inevitável que o sujeito, trabalhando em casa, entre na condição de “pai doméstico”, a categoria de pai que mede o seu quotidiano em quotas — de leite, arrotos, fraldas e choros. É o chamado “pai pra toda obra”. E eu, como “pai doméstico”, fiz de tudo. Só dar o peito é que não dei. Fiz camas e compras, lavei louças e mamadeiras e troquei fraldas como ninguém, batendo o recorde nacional para a “categoria um”, com 17 segundos para uma troca completa, e ficando em terceiro lugar na “categoria dois” (bem mais complexa), com 28 segundos.

Além de fazer de tudo, ainda fiz uma tese de Doutorado, começando o meu batente às 7 da manhã, com tapinhas nas costas da Pipoca, à espera paciente de um arrotinho libertador, que me liberaria então para iniciar uma sessão de leitura, usando o olho direito, de algum teórico da literatura, ao mesmo tempo em que, com o esquerdo, vigiava a pequena para que não se virasse no berço e ficasse de barriga para baixo. O resto da manhã alongava-se até à hora do almoço, quando, a seguir a uma nova quota de leite, eu me punha novamente a implorar por um arrotinho, depois do qual ela dormia a sesta e durante a qual eu despencava ao seu lado, exausto, não tanto dos meandros da semântica, da semiótica e da hermenêutica, mas dos Desafios e das Grandes Questões que me propunha a Pipoca, a interpretar criticamente o mundo, ali do seu bercinho.

Ao fim da tarde lá ia eu, a passear com a Pipoca pelo Leblon, digo, pelos corredores da Livraria Argumento, onde me punha a pesquisar os livros de “teoria”, não de “teoria literária”, claro está, mas aqueles que contivessem a palavra “bebê” no título — sempre em busca de uma orientação, um padrão, uma forma de bem lidar com a minha nova condição: a condição de “pai doméstico”.

* Juva Batella nasceu no dia 13 de junho de 1970. Aprendeu a andar em 1971, a falar em 1972, a nadar em 1976 e a andar de bicicleta, sem as rodinhas laterais, em 1980. Escreveu o primeiro caderno de caligrafia em 1976 (inédito). É doutor em literatura brasileira e autor dos seguintes livros: O verso da língua (Revan, 1995; e Editorial Presença, Lisboa, 2009); o livro de contos A cabine & O trânsito (7Letras, 2002), tendo sido um dos contos, “A cabine”, adaptado pela TV Globo para a série “Brava Gente”, com Antônio Fagundes e Marília Pêra; o livro de crônicas Confissões de um pai doméstico (Planeta, 2003); e o livro Quem tem medo de Campos de Carvalho? (7Letras, 2004). Dedica-se também à literatura infanto-juvenil, e para este público tem publicados, pela editora Girafinha, os títulos O menino que guardava as palavras na barriga (2006), Em busca do amor perdido (2007) e O labirinto da cabeça da Matilde (também de 2007). Juva é pai de duas meninas: a Alice, com 7 anos; e a Clara, com 3; mora atualmente em Lisboa, dorme bem e quase não chora.

8 de julho de 2010

"A viagem do escritor"

“Pilar, encontramo-nos noutro sítio”, foi mais ou menos isso o que disse José Saramago, a olhar para a câmara do realizador português Miguel Gonçalves Mendes na abertura do documentário José e Pilar, recentemente concluído e escolhido para abrir o festival Doc Lisboa. A partir desse ponto, o filme carrega-nos pelo quotidiano ensandecido do grande escritor português durante uma parte dos últimos anos de sua vida, ou, mais precisamente, um pouco depois de iniciada a escrita do romance A viagem do elefante até ao seu desfecho, e pelo meio do caminho a doença que quase o matou e a sua inacreditável recuperação — o que lhe permitiu não só concluir o texto como escrever mais um, Caim; o último livro de José Saramago, porque nunca mais haverá outro.

José e Pilar atira-nos para dentro de uma privacidade muito pouco partilhada até então. Como documentário que é, documenta, mas como poucos o fizeram, a vida íntima e pública de um escritor. Este equilíbrio não é simples, uma vez que corre o risco de ser, por um lado, invasivo e indiscreto, e, por outro, redundante e óbvio. Nada disso, no entanto, acontece. Miguel Gonçalves Mendes revela-se uma câmara elegante quando entra na vida privada de José Saramago e Pilar, e original ao nos mostrar esta mesma vida do lado de fora da porta de casa — a vida pública, vale dizer, atribulada e polémica do escritor e de sua não menos polémica esposa, amiga, interlocutora, leitora, admiradora, produtora e principal incentivadora.

Tudo aquilo a que assistimos é novo e impressionante, sendo, ao mesmo tempo prosaico e quotidiano. Como é que isso é possível? José e Pilar, a começar pelo título, que os trata pelos nomes, desmitifica e ao mesmo tempo homenageia. Estamos diante daquele se foi tornando um mito da literatura, um Nobel, um intelectual com uma biografia que corre em constante diálogo com a história política portuguesa, um criador que soube perceber e recuperar, em meio às ideias que fazem parte do universo romanesco contemporâneo, a força crítica da alegoria como tema, um escritor que criou um novo paradigma rítmico na prosa, através da economia no uso dos sinais de pontuação, da utilização fluida da vírgula, da presença das maiúsculas como separadoras para a marcação da alternância entre os diálogos, da prolixidade opinativa do narrador e da ténue fronteira entre discurso directo e indirecto livre — isto sem mencionarmos os personagens e enredos.

Este mito, no filme, desfaz-se e humaniza-se quando o flagramos no seu dia-a-dia em Lanzarote, com a sua mulher, a seleccionar os quilos de correspondência recebida, divertindo-se com algumas, guardando poucas e rasgando muitas; quando o sentimos fraquinho, bastante doente, a caminho do hospital e depois quando acompanhamos a sua ginástica, já em casa e em recuperação, a pedalar uma bicicleta ergométrica; quando percebemos que está a dormitar numa conferência de imprensa, ao lado de outros ícones literários, que também estão a dormitar, loucos para tudo aquilo acabar, entre eles Gabriel Garcia Marquez; e tantas outras cenas deliciosas captadas pelo olhar documentarista de Miguel Gonçalves Mendes.

José e Pilar não é uma história de vida e muito menos uma história das obras de José Saramago, mas um registo de uma parte dos seus últimos anos, vale dizer, das suas últimas andanças pelo mundo. E se o realizador perde um bocado a mão, pecando, como se diz, pelo excesso, é justamente quando se torna incansável na documentação vertiginosa desse dia-a-dia de viagens, conferências, entrevistas, fotos e lançamentos de livros pelo mundo afora. Saramago está exausto, e tão exausto fica que cai doente; e cansado, a certa altura, fica também o espectador, que acompanha o escritor no entrar e sair de aviões, assinando livros, participando de homenagens e festas e sendo fotografado e impiedosamente questionado acerca das mesmas questões, sempre. “Eu dou sempre as mesmas respostas porque vocês fazem sempre as mesmas perguntas...”, queixa-se Saramago diante dos jornalistas que o assediam.

Tive o prazer de conhecer o Miguel Gonçalves Mendes, e o mérito não é meu; é dele, porque foi através deste blogue que ele apareceu, comentando um ou outro texto meu e me convidando para assistir a uma sessão prévia do filme. Mais tarde, numa conversa, eu lhe falei desse exagero documental e do quanto fiquei cansado, para não dizer quase chateado com a Pilar, que não conheço, e com o mundo todo, que não deixavam o escritor sossegado, em casa, quietinho, a trabalhar e a nos dar mais e mais livros. Como eu disse, a sua esposa era a sua principal motivadora, alegando sempre que o marido teria toda a eternidade para descansar, e por isso o impulsionava para correr pelo planeta. O Miguel, diante da minha crítica, contou-me da sua imensa dificuldade em seleccionar as cenas para a edição e a montagem. “Foram ao todo 240 horas de gravação”, disse-me ele, “e há momentos de entrevista que são preciosos mas que tiveram de sair.” A primeira versão de José e Pilar ficou com seis horas de duração; a segunda, a que assistiu o próprio Saramago, com três horas e meia. Sim, falar que um filme é longo é bastante fácil; difícil é torná-lo mais curto.

A excessiva documentação, se por um lado nos cansa, por outro tem o mérito de nos fazer conhecer mais e mais aquele incrível casal que são José e Pilar. Incríveis ambos, e tão diferentes entre si. Em determinado ponto do filme assistimos à seguinte conversa entre os dois: Saramago pergunta à Pilar o que é mais importante: os livros ou a vida. Ela não hesita, e elege a vida, “é claro que é a vida”. Saramago defende os livros, ela retruca, ele rebate, imperturbável; e ficam assim, a rir um da escolha do outro e não chegando a nenhum acordo. Para um, a vida; para outro, os livros. Mas a felicidade dela, a sua alegria, o contentamento da Pilar quando, terminada a escrita dA viagem do elefante, Saramago lhe confidencia, ainda sentado na poltrona de um avião que os levaria ao outro lado do mundo, que acabava de ter uma nova ideia para um próximo romance, Caim — toda esta excitação incontida e quase infantil nos faz suspeitar de que a questão não é simples, não, alguns livros entram na vida, como algumas vidas bem que caberiam nalguns livros, como o senhor José e a senhora Pilar: imbricados que foram; imbricados que agora estão, neste ecrã de História que é o filme do Miguel Gonçalves Mendes.

25 de junho de 2010

Isto é que é chegar no fim da festa

"Admitamos a formação do nosso universo, há 15 bilhões de anos, pela grande explosão a que se convencionou chamar Big Bang. Condensemos o período decorrente desde então nos 365 dias de um ano. Teremos num calendário anterior a dezembro, comportando acontecimentos como a origem da Via Láctea (1 de maio), a origem do sistema solar (9 de setembro), a formação da Terra (14 de setembro), a origem da vida na Terra (cerca de 25 de setembro), a formação das rochas (2 de outubro), os primeiros microorganismos sexuados (1 de novembro), as plantas capazes de fotossíntese (12 de novembro), as primeiras células com núcleo (15 de novembro).

Somente no dia 1 de dezembro, uma atmosfera significativamente rica em oxigénio começaria a se desenvolver na Terra, seguida do florescimento dos invertebrados (17 de dezembro), dos vertebrados (dia 19), da disseminação de vegetais (dia 20) e de insetos (21) pelo planeta. Entre os dias 22 e 24 poderíamos assistir ao surgimento dos primeiros insertos alados, das primeiras árvores, dos primeiros répteis e dinossauros. Mamíferos e pássaros não surgiram antes do dia 28, mesma data em que apareceram as primeiras flores e se tornariam extintos os dinossauros. Esta é a véspera do aparecimento dos primeiros cetáceos, assim como dos primatas. Os hominídeos viriam à cena no dia 30 de dezembro e no dia 31, finalmente, os primeiros homens dariam o ar da graça.

A partir desse ponto seria necessário abandonar a escala do calendário, adotar a do cronômetro e utilizar critérios mais precisos, até a espessura do minuto (isto é: 29 mil anos) e do segundo (475 anos). O Procônsul e o Ramapiteco, ancestrais prováveis dos macados e dos homens, nasceriam às 13h30m desse dia 31; os primeiros homens por volta de 22h30m; as pinturas das cavernas européias teriam sido executadas às 23h59m. A invenção da agricultura ocorreria às 23h59m20s. A civilização neolítica e as primeiras cidades às 23h59m35s e nos quatro últimos segundos teríamos acotovelados o nascimento de Cristo, as grandes descobertas, os métodos experimentais em ciência, a bomba atômica, as viagens espaciais...”

José Carlos Rodrigues, “Homens e crocodilos”, in Antropologia e comunicação: princípios radicais, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989, p. 128-129.

16 de junho de 2010

"O Bloomsday nosso de cada dia"

Acorda às oito e trinta da manhã, espreguiça-se, come cereal, toma café, fuma um cigarro, olha e é olhado, beija e é beijado, caminha para o carro, vai para casa, recebe uma mensagem, sorri, responde sorrindo, escreve, vai nadar, almoça, pára na pastelaria, pede um café, discute a situação do país, sai da pastelaria, fuma um cigarro, dá um passeio, volta para casa, escreve, fuma outro cigarro, lê, ouve música, trabalha num texto alheio, come um chocolate com laranja, bebe mais café, fuma outro cigarro, assiste à tarde caindo na noite, dá comida ao gato Ulisses, toma banho, fuma o último cigarro, escreve, lê, passa creme nas mãos, vai para o quarto, tira a roupa, lê, apaga a luz, imagina como seria bom se, pega no sono imaginando como seria bom se, e, em meio a um monólogo inexprimível, sonha que está sendo - e que é mesmo muito bom.

8 de junho de 2010

"Como perceber que o gato está encaixado"

Para se encaixar um gato são necessários um gato, uma concavidade de pernas e um certo ar de manhã sem vento. Mas não é só isso. O primeiro passo, bem anterior, é possuir uma amiga de coração amplo que encontre um gato abandonado e lhe dê pouso em sua casa. E esta amiga tem de possuir, ainda, duas tartarugas, duas cadelas (uma muito velha) e pouco espaço ao redor, mas sempre acolhedor. O gato saído da rua precisará passar por momentos de tensão diante daqueles dois seres esverdeados, minúsculos e quase sempre imóveis, prontos para o ataque, tendo ainda de conviver com as idiossincrasias dos dois outros seres, sempre espalhafatosos e dispostos a aprender o que quer que seja com os seus donos, porque os cães... Deixa pra lá.

A amiga, cansada, oferecerá enfim o gato, e nós aceitaremos, e numa manhã sem vento estaremos no sofá, a pensar em que é que pensaríamos, quando de repente ele virá, saindo da varanda e lentamente, no seu passo de gato, e dará duas ou três voltas em torno de si mesmo. O sino da igreja deve tocar nessa hora, e, se não tocar, bem... Quando ele afinal se curvar e se deitar, encostado na curva de uma de nossas pernas, ainda poderemos alongar este tempo imaginando que o gato fará alguns movimentos quase imperceptíveis, e ele fará se quiser, porque os gatos... Deixa pra lá. E então ele ficará de repente imóvel e deitará a cabeça sobre as patas, e o tempo parará, e é nesse instante único e raro que nos convenceremos de que o gato está encaixado.

E depois? E depois, já quando nos tivermos levantado, pegado os cigarros e as chaves do carro e ido para a rua, é que nos daremos conta de que tudo o que se quer da vida pode ser feito com calma e delicadeza — e, porque não somos um gato, permaneceremos deliciados por dias a fio, como se não houvesse amanhã.