30 de junho de 2011

“A Biblioteca” e “A Cidade” — entre quatro aspas

"Falaram-me várias vezes do homem que, numa casa do bairro de Flores, esconde a réplica de uma cidade em que trabalha há vários anos. Construiu-a com materiais insignificantes e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como que distante na suave claridade da alba.

“A cidade está sempre longe e essa sensação de distância tão próxima é inesquecível. Vêem-se os edifícios e as praças e as avenidas e vê-se o subúrbio que se esbate para oeste até se perder no campo.

“Não é um mapa, nem uma maqueta, é uma máquina sinóptica; a cidade está toda ali, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires, mas modificada e alterada pela loucura e a visão microscópica do construtor.

“O homem diz chamar-se Russell e é fotógrafo, ou ganha a vida como fotógrafo, e tem o seu laboratório na calle Bacacay e passa meses sem sair de casa a reconstruir periodicamente os bairros do sul que as cheias do rio arrasam e enterram cada vez que chega o Outono.

“Russell acredita que a cidade real depende da sua réplica e por isso está louco.”

Ricardo Piglia, “Prólogo”, in O último leitor, trad. Jorge Fallorca, Lisboa, Teorema, 2005, p. 9-10.

28 de junho de 2011

A bola de neve

"Os intérpretes simultâneos na ONU traduzem — através de um complexo equipamento — os discursos dos delegados na mesma velocidade em que estes normalmente falam. Se uma palavra crucial para o debate for traduzida de modo incorreto, precisa ser revista no decorrer da discussão, sob o risco de transformar as conversações numa festa do Chapeleiro Louco, extraída de Alice no País das Maravilhas. Um incidente assim ocorreu durante a época da descolonização, quando um representante do rapidamente minguante Império Britânico lia um relatório das atividades de uma região sob custódia do Reino Unido durante uma Assembleia. Quando falava das tentativas do pessoal do lugar (antigamente denominado apenas ´nativos´) para combater as pragas de besouros-rinocerontes, o intérprete russo compreendeu a palavra ´rinoceronte´ (nasaróg, em russo), mas não ´besouro´ (zhook). O delegado soviético, portanto, interrompeu para perguntar como os nativos podiam equipar-se para resistir à invasão de inumeráveis rinocerontes. Recebeu a resposta de que o pessoal do lugar recebia vassouras e baldes de produtos químicos. Isso pareceu ao representante soviético não só armamento insuficiente para combater o ataque de hordas de rinocerontes, mas também prova de má vontade colonialista em distribuir armas de fogo aos africanos para proteção contra o ataque de animais ferozes. ´Ao mesmo tempo´, contrapôs o delegado soviético, com boa dose de farisaísmo ecológico, ´restam apenas algumas centenas de rinocerontes na África; por que deveriam ser exterminados?´ A isso replicou o delegado britânico: ´Ah, não! Há muitos milhões deles. Todas as primaveras eles voam do norte em grandes enxames e comem as cascas das árvores´. A essa altura a discussão já se havia complicado tanto que a sessão precisou ser suspensa, até que a palavra ´besouro´ foi localizada e — finalmente — aposta a 'rinoceronte'.”

Charles Berlitz, “Traduções pouco diplomáticas”, in As línguas do mundo, trad. Heloisa G. Barbosa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 154-155.

26 de junho de 2011

Companhia: a Vertigem das Letras

Recontextoalização

“Alice was beginning to tire of sitting by her sister on the bank. She took out her iPhone and played Angry Birds for the next three hours.”

“Call me Ishmael_65.”

“Mother died today. I posted it as my Facebook status.”

E mais inícios alterados de romances.

24 de junho de 2011

“Palavra, um jogo sem fronteiras”


Festival do Silêncio
15 a 25 de Junho de 2011, Lisboa (página de jornal e programa com as páginas 1 e 10).

Dia 24: Conversa 5 - “Palavra, um jogo sem fronteiras” (Cinema São Jorge).
Mediador: José Mário Silva.
Com: Juva Batella, José Eduardo Agualusa e Richard Zimler.

Diferentes culturas, diferentes universos, uma paixão única: a palavra. Escrita, dita ou cantada, a palavra enquanto motor para uma cultura transnacional e transversal. Uma conversa moderada pelo jornalista José Mário Silva e que junta à mesma mesa escritores de várias nacionalidades: o brasileiro Juva Batella, o angolano José Eduardo Agualusa e o norte-americano Richard Zimler.

... conversar e bater e debater e rebater e esbater, e silenciar...

... tempo          som          cultura          jogo          fronteira          barriga          mudez          algaravia          universalidade          Platão          fonema          sistema          morfema          pátrias          venenos          histórias          conversas          silêncio          Ulisses          poesia          trovão          mitologia          círculo          magia          conto          iceberg          dinossauros          limite          entardecer          rinocerontes          besouros                      ... (e tomar, depois, uma cerveja)...

22 de junho de 2011

Amarrando cordinhas…

Fala o escritor:

“Tomemos a palavra “thunder” [trovão] e olhemos em retrospecto para o deus Thunor, o equivalente saxão do Thor nórdico. A palavra tunor exprimia o trovão e o deus; mas tivéssemos perguntado aos homens que chegaram à Inglaterra com Hengist se a palavra exprimia o estrondo no céu ou o deus colérico, não acho que seriam argutos o suficiente para compreender a diferença. Imagino que a palavra carregava ambos os sentidos sem se comprometer muito a fundo com nenhum deles. Imagino que, quando proferiam ou escutavam a palavra “thunder”, ao mesmo tempo ouviam o grave estrondo no céu e viam o raio e pensavam no deus. As palavras eram envoltas em mágica; não tinham um significado estanque”.

Jorge Luis Borges, “Pensamento e poesia”, in Esse ofício do verso, org. Calin-Andrei Mihailescu, trad. José Marcos Macedo, São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 85.

Fala o filósofo:

“Tudo a que chamamos mito é (…) algo condicionado e mediado pela atividade da linguagem; é na verdade o resultado de uma deficiência linguística originária, de uma debilidade inerente à linguagem. Toda designação linguística é essencialmente ambígua e, nesta ambiguidade, nesta paronímia das palavras, está a fonte primeva de todos os mitos”.

Ernst Cassirer, “A linguagem e o mito: sua posição na cultura humana”, in Linguagem e mito, trad. J. Guinsburg e Mirian Schnaiderman, São Paulo, Perspectiva, 2000, p. 18.

20 de junho de 2011

"O mar...

"... está sempre em movimento para não sair do lugar. Se o mar saísse do lugar teriam que mudar os mapas. Se o mar ficasse parado ele escorreria para cima das cidades e apagaria os vulcões. A água sobe quando o sol a evapora. O sal da água do mar não evapora. Quando chove sobre o mar a água recupera o sal que havia deixado ali com o resto das águas. Há tanta água na água quanto a água evaporada que há no ar. Há tanta água salgada como lágrima dentro do mar. Quando a água doce do rio chega ela deixa de ser doce porque o mar é maior. E quando requebra na praia é bonito. E tem gente que morre de sede no meio do mar."

Arnaldo Antunes