14 de agosto de 2008

"Os bastidores de um longo artigo"

Eu coloquei aqui no blogue um artigo gigantesco que escrevi sobre a atribuição do Prêmio Camões ao João Ubaldo Ribeiro. Não leia, querida leitora. Também me refiro a você, bem-disposto leitor, mas vou referir aqui somente a leitora, porque acho que acordei querendo imitar o Joaquim Maria (Machado de Assis), e ele, eu sei disso, embora também conversasse com o leitor, preferia mil vezes conversar com a leitora. O Italo Calvino fez coisas parecidas, porém de modo mais radical, no engenhoso e chato Se um viajante numa noite de inverno. Mas já estou eu, leitora minha, fazendo digressões...

Saio do Joaquim Maria e volto ao Luís (de Camões) — digo, ao Ubaldo. O artigo é longo e acadêmico, e escrevi o texto pensando mais naqueles que queiram se aprofundar em assuntos ubáldicos, do que na delicada leitora, que certamente tem mais o que fazer... Eu agora sou especialista em João Ubaldo Ribeiro. Sou também especialista em Campos de Carvalho. Qualquer coisa, estamos aí: é só perguntar, cara leitora, que o especialista responde. Isso é que dá escrever dissertações e teses: a pessoa se torna um especialista.

Tudo começou assim. Eu estava em casa, dormindo no sofá, às 4 da tarde de um domingo. A Clarinha (1 ano e 3 meses, 11 quilos) estava dormindo, a Alice (5 anos, 23 quilos) estava na piscina, e a minha mulher (não digo a idade e nem os quilos), fazendo ginástica. Em outras palavras, eu estava nas nuvens, o que, no meu caso, significa no sofá, com a casa em silêncio, sem mulheres à volta, sem tarefas, sem gritinhos, sem fraldas, sem tombos, sem mamadeiras.

(Eu vivo cercado de mulheres, porque eu só faço mulheres. Um dia desenvolvo este assunto. Outro dia comprei o Ken, que, para quem não sabe, é o namorado da Barbie. Eu já estava sentindo falta de um outro homem dentro de casa há algum tempo. E pensei que o Ken poderia aliviar as coisas para o meu lado – divisão de responsabilidades, creio. Tomei coragem, fui lá e comprei o Ken, dizendo ao vendedor que era para a minha filha (e era!). Hoje, passados nuns meses, confesso que esperava mais do Ken. De todo modo, agora sei que não estou sozinho aqui em casa. Isso, se não incorro em erro, foi uma digressão. Voltemos ao João.)

Eu estava deitado no sofá, quando toca o telefone. Era o José Carlos Vasconcelos, editor do JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, aqui de Portugal, jornalista e grande amigo de João Ubaldo. Ele me ligou porque queria saber onde é que andava o João — que é meu tio porque é casado com Berenice, que é irmã de minha mãe. (Não, o Campos de Carvalho não era meu tio...)

O José Carlos me pergunta onde é que anda o João. Eu digo que não sei. E ele anuncia, animado, que o João ganhou o Prêmio Camões. Eu soltei vivas ao telefone. Dei-lhe o número do celular de minha mãe, que lhe daria mais informações acerca do João ou mesmo da Berenice, e já estava quase desligando e sonhando novamente com o meu sofá, quando o José Carlos, já depois de se ter despedido, disse:

“Ó, Juva! Então, não quer escrever algum texto lá para o JL acerca do João?”

Eu concordei imediatamente. Perguntei-lhe quantos caracteres queria. Ele disse:

“Pr’aí uns sete mil.”

Escrevi dezoito mil... E disse adeus ao meu sofá. Quinze minutos depois, eu estava escrevendo o primeiro parágrafo do artigo. Dezessete minutos depois a casa foi invadida por três mulheres cheias de saudades de mim.

Gritei pelo Ken. Ele estava dormindo na caixa de brinquedos, abraçado a sete Barbies.