13 de março de 2011

Fase "Coisa" - As coisas que se tocam com a pena do poeta: Manoel de Barros I

"Retrato do artista quando coisa: borboletas

Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol."

Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa, Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1998, p. 11.