12 de abril de 2012
Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso
PALESTRA SOBRE O COMANDANTE VASCO MOSCOSO DE ARAGÃO, CAPITÃO DE LONGO CURSO, DO ROMANCE OS VELHOS MARINHEIROS, DE JORGE AMADO – LIVRARIA BULHOSA, 12 DE ABRIL DE 2012
29 de março de 2012
“Um conto e duas histórias”
Ciclo de Quintas-Feiras Culturais.
MAPA - Associação Cultural e Livraria Galeria Municipal Verney - Câmara Municipal de Oeiras.
Livraria Galeria Municipal Verney.
MAPA - Associação Cultural e Livraria Galeria Municipal Verney - Câmara Municipal de Oeiras.
Livraria Galeria Municipal Verney.
27 de março de 2012
“Quem teme a literatura?”
27 de Março de 2012, Livraria Bulhosa, Lisboa.
"Diálogo literário com Mayra Santos-Febres (Porto Rico) e Juva Batella (Brasil)".
Moderador: Kristian Van Haesendonck.
24 de março de 2012
“Poesia Latino-americana”
Dia Mundial da Poesia 2012.
Plano Nacional da Leitura (Ministério da Educação e Ciência e Secretaria de Estado da Cultura) e CCB - Centro Cultural de Belém.
Sala Almada Negreiros.
poesia latino
americana
Poeta convidado
Armando Romero
das 15h às 19h
Sala Almada Negreiros P iso 1
em colaboração com a Casa da Amé rica Lat ina lat ino-americanos residentes em portugal
dizem poesia da américa lat ina
cada leitor escolhe poetas
na sua língua de origem
15h
Apresentação de José Manuel Fajardo.
Com:
Antonio Sarabia, escritor mé x ico
Cláudio Hochman, dramaturgo e encenador argent ina
Cristina Norton, escritora argent ina
Erica Zingano, poetisa brasil
Juva Batella, escritor brasil
Karla Suárez, escritora cuba
Katia Hernandez, jornalista mé x ico
Lauren Mendinueta, poetisa colômbia
Magdalena Lopez, investigadora na FL-UL venezuela
Ozias Filho, poeta brasil
Ramón Peralta, poeta mé x ico
Plano Nacional da Leitura (Ministério da Educação e Ciência e Secretaria de Estado da Cultura) e CCB - Centro Cultural de Belém.
Sala Almada Negreiros.
poesia latino
americana
Poeta convidado
Armando Romero
das 15h às 19h
Sala Almada Negreiros P iso 1
em colaboração com a Casa da Amé rica Lat ina lat ino-americanos residentes em portugal
dizem poesia da américa lat ina
cada leitor escolhe poetas
na sua língua de origem
15h
Apresentação de José Manuel Fajardo.
Com:
Antonio Sarabia, escritor mé x ico
Cláudio Hochman, dramaturgo e encenador argent ina
Cristina Norton, escritora argent ina
Erica Zingano, poetisa brasil
Juva Batella, escritor brasil
Karla Suárez, escritora cuba
Katia Hernandez, jornalista mé x ico
Lauren Mendinueta, poetisa colômbia
Magdalena Lopez, investigadora na FL-UL venezuela
Ozias Filho, poeta brasil
Ramón Peralta, poeta mé x ico
7 de março de 2012
“Conversa com a Srta. Língua Portuguesa”
“Conversa”, JL — Jornal de Letras,
Artes e Ideias, Lisboa, 7 Mar. a 20 Abr. 2012, p. 14-15.
32 declarações de amor à Língua
Portuguesa, por escritores e criadores dos diferentes países lusófonos.
"Conversa"
— Preciso escrever para ti uma declaração de amor.
— Não há coisa mais fácil… Diz que sou bela.
— Isto todos já disseram; já não tem piada…
— Diz então que sou flor inculta e que venho do Lácio.
— O Olavo já disse.
— Esplendor e sepultura, lira singela, desconhecida e obscura…
— Ele mesmo, idem, ibidem.
— O que dizer? Diz que não sou mais do que as outras, mas que sou tua...
— Isto o Vasco já disse.
— Que graça… Diz o que faço: formo frases instáveis e…
— O Gastão disse isto.
— Cruz! Tudo já foi dito?
— Acho que sim...
— Então tudo está por dizer no que já foi dito…
— Isto já disse o António.
— O Ramos Rosa?
— Em pessoa.
— Já agora… e o Fernando, o que disse?
— Escreveu que tu és pátria.
— E tu?
— Eu não tenho pátria; tenho mátria e quero frátria.
— Então diz isto!
— Não posso; o Caetano já disse…
— Adoro nomes… Então diz assim: “Amo-te”.
— Os portuguesem dizem assim.
— E que tal: “Te amo”?
— Os brasileiros dizem assim.
— Diz então que nasces com as minhas palavras dentro da tua barriga, e que, quando todas as minhas palavras acabam, tu morres, e…
— Isto quem disse…
— … e que é por causa disso que os mortos não falam…
— Isto é bonito, mas, como eu ia dizendo, isto quem disse foi o povo Dogon, lá da África. É uma crença…
— Meu caro Juva, não sei bem o que vais dizer na tua declaração de amor a mim… Não podes dizer que sou obscura, que sou flor, tuba de alto clangor e lira singela… Também não podes dizer que sem mim não serias o que és, porque o que és é mais do que aquilo que falas e escreves…
— Pois…
—
Eu sei que queres dizer que me entendes inteira, que me dominas e que graças a
mim fazes com que os outros te percebam e te admirem. Sei que queres dizer que
sou a vertiginosa lista de todas as palavras, todas as combinações de palavras
e todos os sons das bocas de meio mundo. Não sou. Sou mais.
— Muito mais… devagar. Estou a tomar notas...
— Talvez queiras acreditar que tenho em mim palavras que nenhuma outra língua tem e que sou a saída para a tua ânsia de querer expressar, querer entender e querer não esquecer.
— Sim, sim…
— Talvez prefiras acreditar que sou e surjo muito mais e melhor da forma como me escrevem, e talvez depois percebas que, na verdade, sou muito mais, e melhor, do modo como me falam, embora no fundo intuas que eu esteja muito mais próxima de mim mesma, e de ti, quando sou da maneira como me pensam… Anotaste?
— Sim. Disseste tudo. Como sempre… Obrigado.
— Conta comigo, sempre que precisares…
— Conto, sim, amada Língua! Quando eu conto, é sempre contigo.
1 de janeiro de 2012
"Amantes ouvintes da madrugada"
BATELLA, Juva; KUSCHNIR, K. (ilustradora), “Amantes ouvintes da madrugada”,
in: Lado 7 (Impresso), 2012, v. 4, p.
117-127. (ISSN: 2236-370X)
E agora, José, em casa, você releu se levantou, espreguiçou o
corpo demoradamente, com as mãos para cima, balançou a cabeça como que para
sacudir alguma poeira, desligou maquinalmente o computador, escureceu o quarto
e foi para a cama. Deitou-se convicto de que não dormiria, e começou então a
fuçar desta vez a memória, e entre as muitas cenas e imagens antigas, perdidas
e esquecidas, espalhadas por todos os recantos de seu passado e associadas a um
sem-número de outras lembranças, sentiu chegar à sua testa pouco sonolenta
aquela época da vida em que ouvia uma determinada estação de rádio dedicada, em
suas madrugadas, a promover encontros entre pessoas solitárias.
Você fechou os olhos, sorriu de leve no escuro e deixou-se
conduzir. E lembrou-se de que era tarde e de que naquela noite você não estava
conseguindo conciliar o sono. O locutor da rádio, depois de tecer um comentário
óbvio acerca do destino e das misteriosas curvas da vida — Estamos sempre
traçando as linhas de nosso destino, meus caros amigos! Não fazemos nada que já
não esteja traçado... E por isso pensem bem nos passos que devem dar. Dêem voz
aos chamados do coração, pois um detalhe pode mudar a sua vida, e por isso...
—, passou a palavra a mais uma ouvinte que havia ligado para se revelar
publicamente sozinha e disposta a conversar. E você se lembrou, no escuro, de
que o nome que ela deu foi Angelúcia, e dizia também que tinha trinta e sete
anos, que estava recentemente separada do marido, morava num bairro da Zona Sul
do Rio de Janeiro, era loira, de estatura mediana, pesava cinqüenta e três
quilos, era bonita e jovem, mas carente. — E deixo eu aqui, meus queridos
ouvintes desta madrugada, o telefone de nossa amiga Angelúcia. Um pequeno passo
pode mudar a sua vida, e por isso pensem bem nos passos que devem dar. A
Madrugada do Amor, sempre à meia-noite. Porque estamos a toda hora traçando as
linhas de nosso destino. E passo mais uma vez, para quem não anotou, o número
de nossa amiga ouvinte Angelúcia. A Madrugada do Amor: nós estamos aqui, e
você? Está aí? A Madrugada do Amor. Um oferecimento...
Você ligou, Angelúcia atendeu. Tinha uma voz bonita. Conversaram,
ao inicio uma conversa tipo então, tudo bem, tudo bem, e você, tudo bem também,
como você é, sou assim, e você, sou assim, o que é que você faz, faço isso, e
você, faço isso, e está sozinha, estou, eu também, que bom, e gosta de fazer o
quê, gosto disso, jura, eu também, que bom, está frio, e combinaram de se falar
no dia seguinte, pelas dez da noite. Você ligou, Angelúcia atendeu. A voz
continuava bonita, e dessa vez mais sexy, e a conversa seguiu o rumo do onde é
que nós paramos ontem, paramos aqui, onde, aqui, eu perguntei o que é que você
gostava de fazer, e você disse isso, e eu pensei naquilo, ah, eu também, você
também o quê, eu também pensei naquilo, ah... e ficaram um pouquinho em
silêncio, e foi ela quem perguntou, depois de um suspirinho, o que é que você
está vestindo, silêncio, e você disse eu, eu, bem, eu estou na cama com um
short e uma camisa, e você, eu estou na cama... silêncio. Ah, você disse, e
depois disse está quente hoje..., e a partir desse dia, ao longo de duas
semanas, a conversa de vocês, sempre às dez da noite, foi uma conversa
sexo-confessional bastante animada, com direito a eventuais e supostas
masturbações de lado a lado que resultavam cada uma em supostos orgasmos,
depois dos quais desligavam, viravam cada um para o lado de suas camas e
dormiam, saciados. Lembra-se, José?
Combinaram numa noite que se veriam enfim, e seria no dia
seguinte, uma sexta-feira, depois do expediente. Trabalhavam ambos no centro da
cidade, marcaram de se encontrar na estação de trens Central do Brasil. Você
iria buscá-la de carro. E ainda na noite anterior acertaram detalhes, tais como
você estará como, estarei assim, e você, estarei assim, você vai de carro, vou,
e qual o carro, é o carro tal, à hora tal. E na hora tal lá estava você, José,
dentro do seu carro, o coração pulando e as mãos molhadas de suor segurando e
apertando a alavanca das marchas. Você não via ninguém, ou melhor, via o mundo
inteiro, porque às seis da tarde, na Central do Brasil, não se vê o chão, mas
apenas pés, os inúmeros pés de toda aquela gente para lá e para cá. E você,
agora na cama, tentando dormir, pensou em si mesmo aquele dia, àquela hora, na
Central do Brasil, e sentiu um friozinho na barriga lembrando-se de como ele
começou, a cada minuto que passava e Angelúcia não aparecia, ou melhor, não
aparecia diante de seus olhos a descrição que Angelúcia fizera de si mesma, de
como você começou a se sentir, ali parado dentro do seu carro, vulnerável,
exposto, ridículo e pateta. E não deu tempo de chegar a se arrepender de ter
revelado a ela a cor e o tipo do carro com o qual a pegaria porque você a viu
de longe, parada junto ao meio fio, a uns vinte e cinco metros à frente de onde
vocês estavam, você e o seu carro. Você a viu, ou seja, reconheceu exatamente
as cores e o tipo de roupa que ela estaria usando e viu que ela ainda não o
tinha visto, e vendo isso quis ir embora, e respirou fundo. Nada o impedia de
ir embora. Mas por três segundos não soube o que fazer. E se levantasse a
cabeça bem alto dentro do carro, de modo a dificultar que uma pessoa do lado de
fora visse seu rosto, e se colocasse o carro em movimento, avançasse e saísse
dali? O trânsito não ajudava, e a fila de carros à sua frente ia bastante
lenta. Não teria como não passar ao lado dela, mas manteria os vidros suspensos
e não olharia para o lado de modo algum. Você ouvia o seu próprio coração. À
medida que o carro se aproximava daquela mulher ainda parada e aparentemente
absorta ou distraída, você ia reparando em detalhes que constituíam desvios
verdadeiramente brutais daquela descrição original que fizera Angelúcia de si
mesma ao telefone ao longo daquelas duas semanas de papo quente e furado. Havia
apenas dois carros à sua frente, e em questão de segundos estariam
emparelhados. Você empertigou-se no banco, mirou o sinal de trânsito mais
adiante e assim ficou, o mais sério que pôde. Pelo rabo dos olhos viu-a sair de
onde estava e se aproximar, acenando para o carro e em seguida abaixando o
tronco. E você, José, depois de engatar a primeira marcha, mexeu apenas o pé
esquerdo, levantando-o lentamente do pedal da embreagem e andando para a
frente. A mulher olhou para dentro, sorriu e depois franziu a testa. Você
continuou imóvel, na marcha lenta do trânsito, e olhando para a frente. A
mulher começou a andar ao lado, acompanhando o carro, e bateu no vidro do lado
do carona.
— Ei! José!
E você, José, ainda conseguiu fingir que não ouvia nada ou que não
tinha nada a ver com aquilo tudo, mas se sentiu envergonhado de si mesmo, e
pela segunda vez em menos de dez minutos. Ela bateu uma segunda vez no vidro,
dessa vez mais forte, e você sorrindo amarelo, debruçou-se sobre o banco e
girou a manivela.
— Decepcionado? — perguntou a mulher sorrindo um sorriso feio, e
você, que poderia ter dito: — De modo algum, Angelúcia, mas se vim aqui foi
para lhe dizer que não poderemos nos encontrar hoje, porque surgiu um
imprevisto e coisa e tal —, ou então: — De modo algum, Angelúcia, mas prefiro
que não avancemos mais do que já avançamos até aqui e coisa e tal —, você,
José, disse afinal:
— De modo algum... Entre...
E aquele movimento de levantar o pino do carro e abrir a porta foi
dos movimentos que já vez na vida o que mais tempo demorou para ser iniciado e
concluído. Uma vez concluído, você se viu então em meio a uma outra realidade.
Aquela desconhecida estava entrando no carro, e entrou primeiro com o pé
esquerdo metido num sapato altíssimo e por cima a sua perna grossa e gorda.
Depois simplesmente deixou-se cair com a grande bunda no banco, cinqüenta e
três quilos..., soltando de vez todo o peso, e puxou em seguida o pé que
faltava, metendo-se inteira e apertada dentro do carro, abaixando o pino e
virando-se para você, que entretanto não andou com o carro porque o sinal havia
fechado justamente ali, na sua vez. E você sorriu.
Angelúcia, ou aquela mulher que se dizia Angelúcia, deveria ter
entre sessenta e setenta anos, era gorda o suficiente para pode ser apontada na
rua assim: — Lá vai uma mulher gorda —, seus braços exibiam camadas de pele
dependuradas, pele ressequida e clareada por manchas irregulares, havendo
também muitas sobras de pele ao pescoço, e em cima uma cabeça pequenina cheia
de um cabelo loiro embranquecido, também seco. Vestia uma roupa bonita e
parecendo cara, estava excessivamente maquiada, excessivamente perfumada e,
como também deveria estar nervosa e sob algum jejum, não podia abria a boca sem
que você sentisse ânsias e virasse de pronto para o outro lado, tentando não
respirar o ar daquele bafo. Se ao menos não tivesse descrito a si mesmo e o
carro em que estaria, você pensou. Conforme haviam combinado ao telefone, iriam
imediatamente a um motel.
— Tomamos alguma coisa antes?
— Não — disse ela. — Eu não bebo. Você quer beber?
Você não disse nada, e depois de quinze minutos dirigindo em
silêncio estacionaram na garagem de um motel próximo ao centro. Entraram no
quarto, Angelúcia jogou sua bolsa no chão com alguma teatralidade, colocou os
braços à volta do seu pescoço e fechou os olhos. Você desviou o rosto, fugindo
de sua boca de bafo ruim, e abraçou-a. Depois soltou-a, abriu o frigobar e, na
esperança de que pelo menos aquele mau hálito fosse embora, ofereceu a ela um suco
de laranja de garrafa e um salgadinho. Ela recusou os dois, fez-lhe um carinho
na barba e saiu, dizendo que ia tomar um banho longo. Você respirou fundo,
chegou a pensar em fugir e ainda conseguiu rir de si mesmo, tirou a roupa, foi
para a cama, meteu-se nos lençóis, ligou a tv, apagou a luz e ficou assistindo,
sem som, a um filme pornô. Excitou-se, depois cansou-se e sentiu sono, e em
seguida viu-se ansioso com aquela demora. Chegou até a desejar, rindo para ver
se aliviava a própria tensão, que ela tivesse escorregado no chão, batido a
cabeça e morrido ali mesmo, em silêncio, no banheiro do motel. Você ia chamá-la
quando enfim ela entrou no quarto, depois de mais de vinte e cinco minutos a
preparar-se. Olhou para você, olhou para o filme pornô e perguntou se você se
importaria de desligar aquilo. Você deu de ombros, ela mesma desligou, o quarto
ficou de repente todo no escuro e ela disse que não, e pediu a você que
acendesse a luz.
— Quero ver você sentir prazer — disse ela, e nem parecia a mesma
pessoa do telefone. E ela se aproximou envolta na nuvem de um perfume doce
demais, tirou uma camisola levinha que estava usando e exibiu-se totalmente
nua. Você engoliu em seco, sorriu amarelo, chamou-a para a cama.
E agora, José, você acordou um pouquinho sobressaltado. Adormecera
lembrando-se da história com a tal Angelúcia, e a lembrança escorregara
rapidamente para o sono, transformando-se em sonho e depois em pesadelinho. Mas
foi assim mesmo, pensou sorrindo, ainda deitado na cama e pouco antes de
acender a luz. Ainda era quinta ou já estávamos na madrugada de sexta?
Lembrava-se de tudo, ela chegando, você querendo ver um filme de sacanagem para
poder excitar-se, você querendo fazer tudo no escuro para conseguir manter-se
excitado, e ela? Ela querendo todas as atenções para si mesma, sem tv, sem
escuro, só ela, ali, tão feia, fedida e gorda, e tão carente, tadinha, com
aquelas pernas abertas. Você, José, tem boa memória. E do que mais se lembrava?
Com ela já por baixo de você e você sentindo que o sangue lhe fugia, lembrou-se
daquela voz ao telefone, daquela voz sexy e envolvente, e lembrou-se do exato
instante em que, fechando os olhos, pediu a ela que falasse bastante e sem
parar, até o fim. Você se lembrava de tudo, não é?, e não se lembrou de ter
aberto os olhos uma só vez.
“Dormir é preciso”
7. “Dormir é preciso”
(“Ensinar a dormir é preciso”), Revista Lilica and Tigor,
São Paulo, jan. 2012 (data aproximada).
Lembro-me
como se fosse hoje da noite em que, voltando de uma festa, quando ainda
morávamos no Rio, encontramos eu e a minha então mulher o nosso vizinho, às
quatro da manhã, a passear na pracinha ali do Leblon com o seu carrinho de
bebê. Olhei para ela: “Estranho um sujeito passear com o bebê a esta hora…”. E,
ainda embalados com as caipirinhas que tomamos e as música que dançamos, rimos
a risada que riem os casais sem filhos.
Passados os
anos, e já nascida a Pipoca (também chamada de Alice), entendemos o que é que
significa um bebê acordar no meio da noite e não voltar a dormir — um bebê com
mais de dez meses, entenda-se, que é a idade em que as crianças se dão conta de
que dormir significa ficar longe dos pais. E sentimos isto na pele. A Pipoca
adormecia com um de nós dois no quarto. E, se acordava no meio da noite e não
via aquele com quem ela pegou no sono, chorava. “Onde está o papai, se estava
aqui na hora em que fui dormir?” E lá ia o papai voltar a adormecer a criatura.
Se acordasse novamente, novamente ia o papai adormecer a criatura. Quando a
criatura em questão se acostumava a pegar no sono no carrinho, por exemplo (o
caso do vizinho do Leblon), o sujeito tinha de voltar a adormecê-la no carinho.
E eu sei de histórias de crianças que só pegam no sono embaladas pelo motor do carro,
e no meio da madrugada lá ia o pai a passear de carro com a criatura…
Adormecido o ser, carregava-o o pai para casa e para o berço.
Até que,
fatigados, adquirimos o livro Nana, neném
(ed. Martins Fontes). A tese é simples: do mesmo modo como ensinamos os nossos
bebês a grunhir, a cair e a comer, devemos, também, ensinar os miúdos a dormir;
ensinar os miúdos a conciliar o sono sozinhos, sem a nossa presença debruçada
sobre o berço, a fazer “Nãna, nãna, nãna…”, enquanto passamos os dedinhos sobre
a testa. Fazemos isso, em geral, durante vinte, quarenta minutos, até que as
criaturinhas apaguem, e só depois que apagam é que saímos do quarto, mal
disfarçando um sorriso e a alegria que experimentamos diante da possibilidade
real de algumas horas de sossego total. “A criatura pegou no sono afinal?”,
pergunta a mulher. “A criatura pegou no sono afinal!”, anuncia o homem, que
avança, cheio de pensamentos, para a mulher, que finge que foge.
Aplicado o
método, que foi sofrido e quase tortuoso — uma semana a aplicar uma tabela
crescente de minutos, ao fim dos quais entrávamos no quarto para lhe dizer que
estávamos ali, que a amávamos, mas que ela deveria dormir sozinha, e ela a suar
e a chorar, desesperada, os olhos brilhando, a boiar em lágrimas; uma semana de
choros e ranger de dentes (de leite) contrapostos à convicção de que aquilo era
para o bem dela e de todos —, ensinamos, enfim, a Pipoca a conciliar o sono sem
papai e mamãe no quarto.
As vantagens do
método são óbvias: a última situação que a criança vive antes de pegar no sono
envolve apenas o berço, onde ela está sozinha, uma chupeta e o seu ursinho
amarelo (pode ser vermelho). Se ela acorda ao longo da noite (e as crianças acordam
muitas vezes ao longo da noite; acordam e voltam a dormir segundos depois), a
situação que encontra é a mesma que deixou ao cair no sono: a solidão do berço,
a chupeta e o ursinho amarelo (pode ser cor-de-laranja). As crianças que caem
no sono com os pais debruçados sobre o berço, quando acordam e não vêem os pais,
protestam, porque querem a reprodução do mesmo contexto, e aí: Nossa Senhora
das Noites Mal Dormidas, Nossa Senhora do Mau Humor, Nossa Senhora dos Dias Mal
Vividos.
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