13 de julho de 2011

O mágico círculo da linguagem

"Um galo [de Barcelos] sozinho não tece uma manhã" (João Cabral de Melo Neto), a língua portuguesa, inculta e bela, o amor, os rios, o mar, Babel e os marcianos, os Dogon, Borges, os deuses pagãos e as segundas, terças e quartas feiras [de livros], o [des]Acordo Ortográfico, Nossa Senhora da Oratória. Uma imperial, s.f.f.

12 de julho de 2011

“A Língua Portuguesa deságua em delta”

"29. Feira do Livro de Barcelos"
8 a 17 de Julho de 2011, Lisboa.

Dia 13: Tertúlia - “A Língua Portuguesa deságua em delta”, sobre a escrita lusófona.

Mediador: Vergílio Alberto Vieira.
Com: José Luís Tavares (Cabo Verde), Luís Carlos Patraquim (Moçambique), Juva Batella (Brasil) e Rui Vieira (Portugal).




4 de julho de 2011

Como diria o Nabokov, “opiniões fortes”

“Se o discurso cultural brasileiro comporta uma espécie de esquizofrenia latente devida à preocupação, afinal absurda, de procurar uma identidade imaginária numa indianidade a posteriori, forma de recalcar o acto fundador português, o discurso português sobre o Brasil é pura e simplesmente retórico e onírico. Esse discurso sem qualquer conteúdo real está, há muito tempo, ritualizado em formas convencionais. Para nós, portugueses, o Brasil é o país irmão, designação que nos envaidece, naturalmente, mas que, no fundo,  tem por objectivo esconder a relação de origem que os brasileiros não estão interessados em evocar. O discurso português sobre o Brasil, tal como o transmite uma longa tradição retórica e historiográfica, incessantemente reescrita, é produto de uma pura alucinação da nossa parte, alucinação que os brasileiros — há pelos menos um século — não ouvem nem compreendem.”

Eduardo Lourenço, “Uma língua, dois discursos”, in A nau de Ícaro e Imagem e miragem da lusofonia, São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 149.

3 de julho de 2011

No prelo...

O último carrinho de mão transportado pela Língua Portuguesa vinha cheio até à boca não de poesia portuguesa dos séculos XIII e XIV, que disso já não havia mais nada, mas de livros de autoajuda, com os títulos variando entre Como ser feliz em quarenta minutos e por vinte anos seguidos, Como alcançar o seu Eu Profundo em dez lições, Como modelar sobrancelhas, Como chegar à Paz Interior em sete semanas, Como continuar bonita após longas viagens, Como lembrar de seus sonhos, Como ser rico por dentro sendo pobre por fora, Como comer muita salada e ter poucos gases, Como falar inteligentemente de livros que nunca leu, Como entender a nomenclatura de aeronaves europeias, Como manter a autoestima tendo baixa altura, Como se manter distante dos livros de autoajuda, e outros, muitos outros.

30 de junho de 2011

“A Biblioteca” e “A Cidade” — entre quatro aspas

"Falaram-me várias vezes do homem que, numa casa do bairro de Flores, esconde a réplica de uma cidade em que trabalha há vários anos. Construiu-a com materiais insignificantes e numa escala tão reduzida que podemos vê-la de uma só vez, próxima e múltipla e como que distante na suave claridade da alba.

“A cidade está sempre longe e essa sensação de distância tão próxima é inesquecível. Vêem-se os edifícios e as praças e as avenidas e vê-se o subúrbio que se esbate para oeste até se perder no campo.

“Não é um mapa, nem uma maqueta, é uma máquina sinóptica; a cidade está toda ali, concentrada em si mesma, reduzida à sua essência. A cidade é Buenos Aires, mas modificada e alterada pela loucura e a visão microscópica do construtor.

“O homem diz chamar-se Russell e é fotógrafo, ou ganha a vida como fotógrafo, e tem o seu laboratório na calle Bacacay e passa meses sem sair de casa a reconstruir periodicamente os bairros do sul que as cheias do rio arrasam e enterram cada vez que chega o Outono.

“Russell acredita que a cidade real depende da sua réplica e por isso está louco.”

Ricardo Piglia, “Prólogo”, in O último leitor, trad. Jorge Fallorca, Lisboa, Teorema, 2005, p. 9-10.

28 de junho de 2011

A bola de neve

"Os intérpretes simultâneos na ONU traduzem — através de um complexo equipamento — os discursos dos delegados na mesma velocidade em que estes normalmente falam. Se uma palavra crucial para o debate for traduzida de modo incorreto, precisa ser revista no decorrer da discussão, sob o risco de transformar as conversações numa festa do Chapeleiro Louco, extraída de Alice no País das Maravilhas. Um incidente assim ocorreu durante a época da descolonização, quando um representante do rapidamente minguante Império Britânico lia um relatório das atividades de uma região sob custódia do Reino Unido durante uma Assembleia. Quando falava das tentativas do pessoal do lugar (antigamente denominado apenas ´nativos´) para combater as pragas de besouros-rinocerontes, o intérprete russo compreendeu a palavra ´rinoceronte´ (nasaróg, em russo), mas não ´besouro´ (zhook). O delegado soviético, portanto, interrompeu para perguntar como os nativos podiam equipar-se para resistir à invasão de inumeráveis rinocerontes. Recebeu a resposta de que o pessoal do lugar recebia vassouras e baldes de produtos químicos. Isso pareceu ao representante soviético não só armamento insuficiente para combater o ataque de hordas de rinocerontes, mas também prova de má vontade colonialista em distribuir armas de fogo aos africanos para proteção contra o ataque de animais ferozes. ´Ao mesmo tempo´, contrapôs o delegado soviético, com boa dose de farisaísmo ecológico, ´restam apenas algumas centenas de rinocerontes na África; por que deveriam ser exterminados?´ A isso replicou o delegado britânico: ´Ah, não! Há muitos milhões deles. Todas as primaveras eles voam do norte em grandes enxames e comem as cascas das árvores´. A essa altura a discussão já se havia complicado tanto que a sessão precisou ser suspensa, até que a palavra ´besouro´ foi localizada e — finalmente — aposta a 'rinoceronte'.”

Charles Berlitz, “Traduções pouco diplomáticas”, in As línguas do mundo, trad. Heloisa G. Barbosa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 154-155.