1 de janeiro de 2014

"Conto para os que não suportarem"

“Conto para os que não suportarem”, in: Tentados, ed. Cata-Vento.

Antes não éramos tantos. Fomos ficando muitos, e agora a vida é isto, o melhor é esperar a vez para levantar e começar o dia. Aqui no nosso apartamento ainda estamos bem organizados, à exceção de um ou outro que fura a fila, ou melhor, tenta, porque mesmo furar fila, nos dias de hoje, não significa muito. Furar fila furavam os nossos antepassados, quando não éramos tantos, é o que sempre ouvi, ou quando havia algum lugar para ir quando se furava uma fila. É engraçado. É por isso que quando alguém dá a impressão de estar furando uma fila todo o mundo já sabe que é mesmo só impressão, porque a coisa, hoje, está nesse pé: somos tantos que já não há como contar, já não há como medir, já não há como fazer nada, a não ser se manter nas filas e ir levando, sem cair, claro, na tentação. Daqui a pouco, no máximo uma hora e meia, talvez tenha algum ânimo para me levantar; uma pessoa, afinal, tem de dormir deitada, embora as previsões não caminhem nesse sentido. Uma pessoa, afinal, tem de dormir, e ponto, mas o barulho que fazemos é grande; é muita a conversa, e há sempre quem nos compare a formigas, mas não me ocorre que as formigas conversassem, não que eu saiba, nem que se matassem. É muita a conversa, é um fluxo sem fim, porque há sempre gente nova chegando de todos os lados, e o lugar do apartamento onde dormi noite passada não será o mesmo lugar da noite seguinte. O problema nem é mudar o lugar; é ficar tudo sempre, a cada dia, mais apertado, mas a gente se acostuma; no inverno acaba sendo bom, gera calor, mesmo num apartamento caindo aos pedaços. E sem falar nas amizades que surgem; a cada novo dia alguém diferente à frente e alguém diferente atrás e dos lados. As amizades surgem mas também desaparecem. Vão. E quando a gente se afeiçoa é assim, uma coisa que começa triste e depois vai ficando banal. Eu me afeiçoo fácil. Fico pensando se quando não éramos tantos as amizades duravam mais. Isso eu teria de perguntar aos meus bisavós se eles fossem vivos, ou se, uma vez vivos, eu soubesse reconhecê-los. Ainda bem que ainda somos organizados, e nesse ponto aprendemos muito com as formigas, que por sua vez não creio que tenham aprendido nada conosco. Somos organizados aqui neste prédio e especialmente neste velho apartamento, cujos princípios são simples. Primeiro, respeitar, dentro do possível, as filas, porque com as filas a vida fica mais fácil, embora furar filas não faça lá muita diferença, uma vez que somos tantos; e depois, é claro, não cair em tentação, porque, apesar de tudo e de tanto tempo, ainda se acredita que ninguém tem esse direito.

Eu disse que ainda somos organizados, mas o mérito não é nosso; é dos princípios, muito bem pensados nalgum passado mais distante por aqueles que tiveram a capacidade de prever o quadro atual; um passado distante e menos populoso, quando não éramos tantos. Somos organizados, mas nem tanto. Se fôssemos, tudo estaria previsto, como numa bela engrenagem, e não está. O que não previram é que continuaríamos com essa história da tentação. Lá vou eu com filosofias, mas agora tenho de me lavar em banheiros onde se faz tudo coletivamente, e todos debaixo de umas grandes duchas, porque assim dizem que a economia de água é bem maior, com a única divisão sendo ainda mulheres num e homens noutro, e não se fica sozinho um único segundo, e depois pegar as minhas barras de refeição. A minha vida, a nossa vida, assim contada, fica até engraçada, e parece doida e impraticável, mas não é muito, embora seja idiota. Posiciono-me na fila da porta de saída do apartamento, em seguida na dos elevadores, ou das escadas, a escolha é minha, ainda bem que não nos engavetamos tão alto, e finalmente consigo sair do prédio e ganhar as ruas. E, quando sair do apartamento e em seguida do prédio, tudo por aqui ficará mais vazio, ou na verdade um pouco menos ocupado, porque há, afinal, a equipe de sono diurna, formada por todas as pessoas da cidade que vagam à noite mas de dia têm de dormir, nada mais justo. E justiça é comigo mesmo, isso sem falar que é um conceito filosófico, e eu gosto muito de pensar, porque enquanto penso a fila se mexe e nem me dou assim tanta conta da passagem do tempo. Já estou quase dentro da fila da porta de saída, que vai dar na dos elevadores, e as duas, afinal, são a mesma fila. Meu pai me dizia, antes de eu o perder de vista nesta imensa cidade, que ao fim e ao cabo, no fundo de tudo, meu pai era prolixo, a bem da verdade, dizia ele, a fila é uma só. Meu pai estava sendo filosófico quando sustentava isso, deve ser mal de família isso da filosofia, porque, sendo prático, ou sendo adepto da filosofia pragmática, as filas são várias. Cada elevador, por exemplo, tem a sua fila, porque cada andar tem o seu elevador, caso contrário não conseguiríamos nunca entrar num elevador, porque ele já pararia aqui completamente cheio quando o primeiro da fila abrisse a porta. O que seríamos de nós sem os elevadores? Uma pessoa, nesta vida, tem de andar para frente, mesmo que seja numa fila, e numa fila lenta, e também andar para cima e andar para baixo, muitos andares. Essa fila anda ou não anda? deve ser das coisas que mais se ouvem nesta cidade, vasta cidade. Uma coisa importante, eu falei agora há pouco do primeiro da fila, mas isso é modo de dizer, porque o primeiro da fila não existe.

O único lugar onde não existe fila é dentro dos elevadores, quando e onde podemos olhar mais para as caras uns dos outros e até mesmo refazer a fila como der, porque no fundo, como eu já disse, tanto faz. Alguma conversa até se engrena, mas é sempre a famosa conversa de elevador, uma coisa que não muda, por mais que mude a humanidade. É como Deus, que não desaparece. Fala-se do tempo, que nos dias de hoje é sempre o mesmo, nublado; fala-se da possibilidade remota de algum reencontro, e sempre com alguma galhofa, sem a qual ficaríamos bem mais tristes do que já somos, e nessa hora todos riem dentro do elevador; e falam-se das filas, claro, uma forma de se falar de tudo. Quando um elevador quebra há sempre alguém que sabe fazer a coisa voltar a funcionar, em meio a uma roda de muitos de nós, que ficam assistindo a um dos trabalhos mais importantes de que se tem notícia, e chego a pensar com algum espanto divertido que a única coisa que ainda fazemos bem é consertar elevadores, quem diria. E pode parecer que estou sendo filosófico de novo, mas na verdade não, embora eu tenha lá as minhas teorias, e teorias quanto ao andar das filas nunca me faltaram. Na época em que lia, cheguei a entrar no tema, especialmente na teoria das filas relacionada àquilo que nos interessa, que é o fluxo de tráfego para pessoas, ou seja, uma teoria que inclui a definição de final de fila e início da fila seguinte; a forma como se dá o tempo do serviço, se é regular ou não; o número de pontos de atendimento de tal serviço, e os elevadores são aqui um bom exemplo de ponto de atendimento e ainda de final de uma fila para começo de outra; e isto sem falar na capacidade do sistema de manter e ainda incorporar novas filas; na população geral de usuários das filas, que pode ser finita ou infinita, o que no nosso caso é finita mas na prática é infinita, uma vez que somos tantos; e, por fim, na disciplina de atendimento na fila, que no fundo não passa da forma como se organizam os critérios de formação da fila; e mais um blá, blá, blá que eu nem conto. E isto parece ser o ponto fraco (risos) da nossa sociedade, porque, mesmo que estejamos tentando modelos de falha zero, o que acaba prevalecendo é o bom e velho quem chegar na frente é atendido primeiro, há até um termo técnico para isso, embora, na prática, tanto faça, porque ser atendido primeiro não significa nada mais do que entrar em último lugar na próxima fila, seja ela qual for. E, seja ela qual for, o movimento de uma fila é uma ondulação, e sempre será; o corpo mexendo-se em ondas, as pessoas mexendo-se em ondas, uma de cada vez, e não todas a andar ao mesmo tempo, porque afinal não é a fila que anda, mas cada pessoa que dá o seu passo, como uma peça individual de um corpo maior composto de inúmeras peças, e é isso que confere ondulação à coisa, o intervalo de tempo entre a pessoa da frente andar e a que está atrás perceber o espaço vazio à frente e dar então o seu passo adiante. Uma fila não é como um trem e seus vagões; uma fila é como uma lagarta. Teoricamente falando, claro.

Não vou negar que estou sempre à espera de uma oportunidade e alguma coragem. E creio que todos estamos, menos as formigas, porque não creio, embora seja ignorante acerca de formigas, que elas procurassem isolamento para o que quer que fosse. E veja que nem falei numa formiga em particular, mas nas formigas, sempre no plural. Nunca imaginei uma formiga andando sozinha, cantarolando por estradas de terra, a pensar na vida ou na própria morte. Isso faziam os nossos antepassados. As formigas eram o formigueiro, e parece que sempre foram. Uma coisa só. Nós, não. Nós, hoje, somos o nosso bendito e maldito sonho de um mirabolante projeto de voltar a circular como antes, livres. E é por isso que há sempre alguma história misteriosa e heroica acerca de uns poucos milhões que trabalham sem parar na ampliação da cidade, não mais para cima, porque para cima já fizemos tudo o que era preciso e possível fazer, e não há espaço nem logística para se construírem mais prédios, embora isso seja fundamental no sentido de continuarmos vivos, uma vez que não há espaço no chão. Isso pode parecer inacreditável mas não é. O trabalho de ampliação, dizem, é para os lados, embora essa ampliação para os lados, na minha opinião, não passe de conversa de fila, porque nunca conheci ninguém desses poucos milhões que tenha ido ou voltado das fronteiras, o único lugar, de fato, onde se poderia ficar, mesmo que por algum tempo, a sós, e vivo, e assim aliviar um pouco a vontade de se cair definitivamente em tentação. E não passa de conversa de fila o projeto de ampliação das fronteiras porque, também na minha opinião, claro, não há mais fronteiras. A cidade está em todo lado, e, se antes, quando não éramos tantos, havia ainda algum mar, agora já não creio que haja mar algum. E é por isso que, em nosso passado distante, crescemos tanto para cima, sempre para cima, trabalhando sem parar na construção de prédios altíssimos e descobrindo formas de os tornar ainda mais altos. Nesse ponto teríamos muito a ensinar às formigas se as formigas ainda existissem.

Falar da inacreditável altura dos prédios que construíram os nossos antepassados é uma forma de se falar da morte, e falar da morte é ser prático, e não filosófico, podendo-se falar da morte de duas formas. Se por um lado é bom sair enfim dessas torres de gavetas, depois de enfrentar todas as filas dos apartamentos e elevadores, e ainda a fila para se sair às ruas, que é uma confluência dos amontoados que saem de todos os elevadores; ou seja, se por um lado é bom botar a cabeça para fora após tanto tempo esperando a vez de sair dos prédios, por outro lado vive-se o perigo de se estar ao ar livre, o que significa, para os mais prevenidos, ficar olhando o tempo todo para cima, já que a morte vem de cima. Por mais numerosas que sejam as medidas de segurança, como as grades nas raras janelas e os picos eletrificados (os prédios não possuem, no topo, áreas planas e se vão afunilando ao ponto de se tornar agulhas espetando o céu), há sempre alguém que desiste e se atira, e, atirando-se, além de se matar a si mesmo, ainda mata um punhado de nós, que estamos aqui em baixo na fila, aguardando a vez de seguir em frente. E abre-se um clarão no chão, e algumas filas se desfazem até que tudo se reordene, e novas filas se formam, embora bem mais lentas, até que o susto e a curiosidade diante de alguns corpos no chão desapareçam; e novamente não se vê o chão, apenas os pés de nós todos, que somos tantos, embora antes não fôssemos. Não sei se é filosofia barata de minha parte, mas já não fico a olhar para cima como antes, quando era mais jovem e acreditava que suportaria tudo. Nunca ninguém me caiu por cima, e nem creio que cairá; e, se afinal cair, não vai ajudar nada eu estar com o nariz pro céu, achando que poderia desviar de alguém despencando feliz, e é por isso que minha vida é mais com a cabeça para baixo do que para cima, a observar e tentar medir a velocidade com que andam os pés que vejo à minha frente e que vou seguindo com os meus, o que nada mais é do que viver o andar da lagarta.


Mas há um dia em que o andar da fila ou a cidade ou as fronteiras ou o mar e o horizonte e o maldito sonho de uns poucos e benditos milhões de heróis já não importam de modo algum, porque tudo o que se deseja de imediato são alguns instantes a sós, alguns segundos em silêncio e a sós. Quantos segundos, ou mesmo minutos? Isto irá depender da absurda altura do prédio e das medidas de segurança e do estado das grades nas raras janelas e de alguém ao lado ou atrás tentar me impedir ou não; para tudo dá-se um jeito, não vou negar que estou sempre à espera de uma oportunidade e alguma coragem — hoje, mais de oportunidade do que de coragem, porque o desejo afinal de cair em tentação, de ficar, mesmo que por uns bons segundos, ou mesmo mais de um minuto, o máximo que puder, dentro de um silêncio veloz e a sós, sentindo o vento forte nos cabelos e pelo corpo inteiro, a força da gravidade, os braços abertos e os olhos o tempo todo fechados para não ver o formigueiro, lá embaixo, ficando cada vez maior; esse desejo é mais forte do que o remorso e o arrependimento e a culpa que não vou ter tempo de sentir quando chegar, saciado e feliz, ao chão.

1 de novembro de 2013

“Crescer dói”

13. “Crescer dói”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, nov. 2013 (data aproximada).

Crescer dói. Isso eu ouvi enquanto crescia, e enquanto crescia sentia a dor de crescer. Depois que cresci, parei de sentir a dor, e dessa dor de crescer me esqueci. E lá se vão alguns anos, os anos em que somos adultos e vivemos a vida dos adultos até o momento em que talvez a dor volte, e a dor então será outra, a de ficar velhinho, se é que tal dor existe, e tudo indica que sim. A dor de crescer, no entanto, essa dor das crianças crescendo, essa eu sei que existe, e agora sei não porque a sinto, mas porque a estou vendo quando olho para a minha menina mais velha (ou a minha piolha, como se diz com carinho em Portugal); a minha menina que agora tem onze anos e que está experimentando o que se pode chamar uma “transformação hormonal”, na falta de nome melhor — ou simplesmente um “virar mocinha”, porque, afinal, há sempre um nome melhor...

Os hormônios não avisam quando decidem começar a circular de forma diferente no corpo de uma menina que entra (ao início súbita e depois gradualmente) na adolescência — ou pré-adolescência, chamemos assim, vamos com calma. Conversei com amigas minhas que me confessaram ter vivido o mesmo, e com as mães de amigas minhas, e quase todas, quando provocaram a memória, se lembraram de desconfortos e febres, e mesmo de sintomas específicos, como os olhos vermelhos e a pele muito sensível. Como um homem que já foi menino e que também está aqui a espremer a memória, consigo lembrar-me de cenas parecidas, acontecidas com o meu corpo, especialmente espinhas. Mas, também como um homem que já foi menino, tentar imaginar uma menina passando por isso a que chamam “a primeira menstruação” é, mesmo na teoria (e poderia ser de outra forma?), difícil pra chuchu.

E talvez por isso eu não entendia bem quando sentia que algumas colegas minhas de escola estavam diferentes; de repentes mais crescidinhas; de repente achando as nossas brincadeiras de sempre agora “coisas de criança”. E eu comigo: “Coisas de criança?! Como assim? Nós há trinta dias estávamos brincando disso, e hoje a Fulaninha e a Beltraninha e até a Joaninha dizem, rindo da minha cara e me gozando, que a brincadeira de um mês atrás hoje é coisa de criança?”. Mal sabia eu que muitas “transformações” tinham ocorrido com elas naqueles últimos trinta dias...

E comigo? E conosco, meninos? Vamos lá, amigos, digam coisas! As coisas demorariam um bocadinho mais a acontecer... Ainda ficamos eu e o Fulaninho e o Beltraninho e o Mauricinho a correr uns atrás dos outros, a nos esconder uns dos outros, a mostrar a língua uns pros outros, a nos dar tabefes uns nos outros, a fazer caretas uns pros outros, a mandar tiros de mentirinha uns nos outros e a atirar água nas caras uns dos outros por uns bons meses ou um par de anos, até o momento em que finalmente começamos a demorar mais a pegar no sono e desatamos a sentir coisas diferentes no corpo e no coração; e os banhos ficam mais demorados; e os sonhos, mais apimentados; e insistimos em nos preocupar mais do que antes com a opinião dos outros (outras). A partir daí, crescer começa a doer, e é uma dor estranha.

E boa.


1 de agosto de 2013

“As errâncias da infância”

12. “As errâncias da infância”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, ago. 2013 (data aproximada).

Escrevo este texto de Lisboa, e se sair à rua para tomar uma “bica”, que é um café curto, uma espécie de shot de café, tenho de pôr um chapéu, senão as ideias, quando eu voltar, estarão secas. O sol aqui não é para terráqueos, porque o ar é bem mais seco e não há, rigorosamente, chuvas nesta época do ano. Para as minhas duas piolhas, Alice e Clara (e para os piolhos e as piolhas de todo este Portugal), começam as chamadas “férias de agosto”. Vim cá para estar com elas, rever amigos, tomar uns copos no Bairro Alto e para pouco mais – em suma, não fazer quase nada, e escrever, e olhar para as coisas e ler o que der na telha. Não é muito fácil uma pessoa estar assim diante deste mar de possibilidades de prazer. Se houver no vivente algum resquício de um perfil sofredor, ter de escolher entre tantas delícias pode tornar-se uma fonte de angústia.

Não foi sem tempo que me caiu às mãos a crônica “Breve partilha da minha sorte infinita”, de um escritor português chamado José Luís Peixoto. O gajo escreve sobre um insight que teve justamente durante umas férias típicas, enquanto lia um livro, enquanto assistia aos filhos a pular como doidos na piscina ou a jogar bola, enquanto vivia um momento em que tudo soa bem e ele se dá conta, e faço aqui uma paráfrase, da noção precisa do tamanho da sua sorte.

O centro nervoso do seu texto é o seu temor, que segundo ele vem desde jovem, de passar pelas horas mais felizes de sua vida sem as reconhecer. O que o José Luís quer parece simples, mas não é: está a falar da lucidez de se estar sempre alerta para a felicidade, o que significa detectar os momentos felizes na hora exata em que acontecem.

Isto pode começar como uma brincadeira; depois passar a ser um exercício com promessa de bons resultados e terminar sendo uma forma de vida, ou, vá lá, uma espécie de sabedoria de caráter bastante prosaico, se é que não são assim as melhores ou as mais profundas sabedorias: aquelas que nos ensinam sem que percebamos que estamos a aprender coisas; aquelas que nos envolvem no dia-a-dia e se encontram tão dentro de nós que nem damos mais por elas.

E assim fiz, e assim venho fazendo quando me vejo aqui em Lisboa, a olhar para as minhas duas piolhas a correr e a andar de bicicleta e a pular na piscina feito doidas no condomínio de casas onde moram, com árvores e espaços que não acabam mais. Vejo-as a viver uma infância perfeita, rodeadas de amigos, sem preocupações quanto à segurança, a dormir umas nas casas das outras, a ficar do lado de fora, fazendo piqueniques na grama, até o momento em que o sol, por estas bandas, se decide finalmente a ir embora e acordar lá longe os chineses, o que acontece pelas nove da noite, ou ainda mais tarde.

E depois desabam nas suas camas e nem se mexem. Não sei bem o que elas sabem acerca disso tudo; não sei se percebem a infância que estão a viver. O que sabem, e disso têm a certeza, é que no dia seguinte vão acordar e bater às portas dos amigos e recomeçar este eterno retorno de água e sol e tombos e bicicletas e choros e lanches e corridas e “noitadas” na grama. Se calhar, saberão, sim, da infância que estão a viver, mas talvez mais tarde, quando já não a estarão vivendo. E então poderão viver essa infância tal como eu a vivo hoje, enquanto as vejo: de forma indireta, mas, agora, lúcida.


1 de março de 2013

“A dona Saudade, a srta. Rima e o dr. Iscáipe”

11. “A dona Saudade, a srta. Rima e o dr. Iscáipe”, Revista Lilica and Tigor, São Paulo, mar. 2013 (data aproximada).

Sim, a Dona Saudades não brinca em serviço, e vez por outra aparece de surpresa, e geralmente de modo súbito, pungente e esquisito. Posso estar a tomar banho, depois de uma chuvada de tempestade nas ruas do Rio, e quando dou por mim já sinto, em meio à água da ducha gelada, um certo gosto de água salgada, e já estou eu a pensar na Alice e na Clarinha lá longe, em Lisboa, no frio, numa quase geada, e encerro de uma vez a chuveirada. Agora a chorar em pleno banho, pá?

Posso estar a me arrastar com um carro no meio dum engarrafamento, a ouvir Caetano, Gil, ou apenas um jazz em baixo andamento, e de repente tudo fica embaçado e cheio de gotas, e eu penso, num lamento: “Mas está lá fora um sol de rachar...”. E quando dou por mim são os óculos de sol embaçados e engotejados, e eu a fungar... Agora a chorar no trânsito, pá?

Posso estar a beber uns copos pelo Rio de Janeiro, posso estar a nadar, lépido e fagueiro, a tomar um sorvete, a chupar uma manga ou a subir num coqueiro, a comer sushi ou feijão tropeiro, que olho para o lado e lá vejo a dona Saudade, olhando pra mim (ela está ainda mais gorda?...), um arzinho zombeteiro... e choro, simplesmente choro, um choro discreto, é claro, mas longo e verdadeiro. Agora a chorar por tudo, pá?

Mas deixemos as salgadas águas da srta. Rima de lado, porque a realidade é desmedida, desafinada e seu ritmo, amalucado. E conto aqui uma façanha da mãe, em sociedade com o dr. Iscáipe. Dia 19 de março é Dia dos Pais em Portugal, e nesse dia 19 último houve então a festa dos pais na escola da Clarinha. Estão a perceber toda a cena, pois não?... “A nossa Clarinha está muito, muito triste. Chorou imenso ontem à noite porque se deu conta de que tu não estarás presente na festa de depois de amanhã. Todos os demais pais lá estarão, a realizar uma atividade em conjunto com os miúdos, menos tu... Pena, né? A nossa pequena piolha está desconsolada...” Nem consegui continuar a conversa. Dormi em sono leve e fiquei todo o dia 18 a flutuar na tristeza, sem pensar numa solução de peso. E na noite anterior ao evento lá vem a mãe ao telefone com uma feliz ideia cochichada para mim: “Amanhã acordas às seis da manhã no horário aí do Rio, põe-te na frente do Skype, e eu, com o iPad e lá na salinha de aulas da escola, que tem wi-fi, exatamente às nove no horário daqui, faço-te virtualmente presente na festa! Só não poderás comer os pastéis de nata...”. Nem acreditei, e à noite, ao dr. Iscáipe brindei, e com Nossa Senhora do Uái-Fái sonhei...

Dormi pontualmente e acordei no ponto, ou mais para o bem passado: asseado, cheiroso, barbeado e dente escovado. E me plantei à frente da tela do computador, microfone testado, áudio em bom som, vídeo ativado. E esperei pela chamada lisboeta. E qual não foi o contentamento da minha portuguesinha, olhos de repente arregalados, mão na boca a conter um berrinho... Olha a saltar pela sala uma genuína alfacinha! “O papá está no Iscáipe! Prof”ssora! Olha o meu pai no écran do Aipédi da mãe! O papá veio à minha festa! Isto é muito giro, mamã!” E amontoaram-se as coleguinhas de seis anos para ver o pai da Clarinha, lá do Brasil, e bem aqui, no Aipédi da mãe. “Mas, um momento... Olha o écran. Ele está com uma carinha...”

Mas agora choras pelo wi-fi, pá?

14 de fevereiro de 2013

1 de janeiro de 2013

“Dona Saudade”

10. “Dona Saudade” (“A Dona Saudade manda lembranças”), Revista Lilica and Tigor, São Paulo, jan. 2013 (data aproximada).

Quando terminar de escrever isto, terei escrito sobre o futuro, e, escrevendo sobre este meu futuro próximo, estarei já inundado de saudade – uma saudade que bravamente antecipo, sentindo-a como se já a sentisse há muito tempo. E creio que morar em Portugal por oito anos tem a ver com isto, fazendo de mim o que já sou pela metade, um português, ao menos nas questões principais da existência: a saudade, a forma de se defender da saudade e a alegria à mesa diante de peixe e vinho barato. Não falarei aqui da alegria à mesa diante de peixe e vinho barato, mas da saudade e da forma de se defender da saudade.

E é por isso que já começo a sentir saudade das minhas duas piolhas – Alice e Clara – antes mesmo de estar longe delas; antes mesmo de pegar o avião, sair de Portugal e voltar a morar no Brasil depois de oito anos em Lisboa. Como bom brasileiro que sou, e ótimo carioca, transformo-me em português e sofro duas vezes mais e alguns meses antes – sofro antes do instante em que começarei de fato a sofrer. De saudade. E assim, já tendo sofrido tanto, e convencido de que não será possível sofrer mais, enfrentarei a saudade real preparado e fortalecido pelo duplo sofrimento anterior, como se o cara – digo, o gajo – já conhecesse de tempos idos essa senhora de ares melancólicos e olhos sempre um pouco úmidos e que atende pelo nome de Saudade.

O português já nasce sentindo saudade, ou melhor, a sentir saudade, e não sabe bem de quê, e atravessa o mar da vida à procura da razão de sua saudade. Se morre de morte morrida (e não “de susto, de bala ou vício”), é porque, bem investigada a causa mortis, morreu, pois, de saudade.

– Como assim, papá? O que queres dizer com isto? Disseste que vais passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. É isso? – pergunta a mais velha.

– Pois é, minha linda. Portugal está num momento difícil, e o papai não arranja trabalho aqui, e por isso vou arranjar uns trabalhos lá, e…

– Então vais trabalhar no Brasil?

– Sim, de certo modo, digamos… É como se… bom, é como disse a vocês duas…

E a mais novinha ali, parada, com um pastel de nata a ocupar toda a boca.

… – como disse a vocês duas: vou passar mais tempo no Brasil do que em Portugal. Vou trabalhar no Brasil.

– Isso quer dizer que… E nós?...

E a mais miudinha, conseguindo finalmente engolir o pastel de nata, diz: – … quer dizer, mana, que o papá vai morar no Brasil, mas só para trabalhar, porque à noite, toda noite, ele vem morar em Portugal pra nos dar um beijinho na testa, contar uma história da vaca amarela que deu um pum e acabou-se a história, e dormir ao pé de nós, não é, papá?

Não soube responder. Vou perguntar àquela senhora, a dona Saudade.

– Quem deu o pum – corrigiu a mais velha, impaciente, salvando a pátria – foi a vaca Vitória.

E assim acabou-se a história.