24 de dezembro de 2016

"A quem possa interessar: o autor inédito"

Como ser um autor inédito, um autor publicado, um autor de um livro só, uma “coisa assim” num aquário ovalado, um sujeito em risco, um travesso?

Convidaram-me um dia para participar de uma mesa redonda cujo tema era “O autor inédito”. Como havia outros participantes que, pela idade e pelo currículo, estavam bastante longe da condição de jovens escritores, ainda por cima inéditos; eram antes intelectuais de peso, nome e renome, deduzi sem esforço que o papel de autor inédito, naquela mesa, não cabia a mais ninguém, senão ao pobre de mim. Comecei a ficar nervoso uns dias antes, mas pensava, para a minha tranqüilidade, que a presença do Juva, ali, seria praticamente ilustrativa, tal como se eu fosse um espécime colhido ao acaso em meio a um cardume de seres semelhantes ao pobre de mim: os jovens escritores brasileiros, inéditos e ávidos por uma publicação. Todos na mesa usarão da palavra, todos debaterão com paixão e lucidez o tema proposto, mas ali, naquele debatedouro, apenas eu não teria esse encargo. Sou, afinal, o autor inédito, pensei; sou, afinal, aquele de quem se falará exaustiva e brilhantemente. E me preparei para não falar nada, no máximo uma ou outra expressão de aturdimento, às vezes de desamparo.

É verdade que eu disse imediatamente às simpáticas moças que me convidaram que eu não era mais um autor inédito, tendo publicado na vida quatro livros, o quinto no prelo, alguns contos, alguns artigos, nenhum poema de amor ainda, mas nunca se sabe, e as simpáticas moças me bateram às costas: “Mas já foi autor inédito! E, além do mais, é um jovem autor! É de coisas assim que precisamos!”. Eu gostei mais daquele “jovem autor” do que do “coisas assim”, e passei o dia todo amuado, vendo a mim mesmo não mais que uma “coisa assim”, ansiosa e atordoada. No dia marcado, entretanto, e como sou cumpridor dos meus compromissos, me enchi de brios e fui. Estavam na mesa dois editores, um agente literário, dois intelectuais inteligentes e eu: o autor inédito, o jovem autor, a “coisa assim”, ou que quer que seja que se encaixe na fôrma da minha condição. Cheguei a sonhar, um dia antes, que meu lugar não seria à mesa, mas na mesa mesmo, e dentro de um aquário ovalado e transparente, por onde me veriam não falando, que uma “coisa assim” não fala, mas soltando belas bolhas.

Foi quase isso. Mal nos sentamos, cumprimentativos e sorridentes, e todo o mundo ficou me olhando, até mesmo eles, os estudiosos da minha condição. E enquanto falavam entremeavam suas digressões com pausas que se destinavam a viabilizar um exame mais minucioso daquela criatura que ali estava, aberta à visitação e com o seu melhor sorriso amarelo. E era como se dissessem à platéia de ouvintes: “Olhem para ele, observem-no, tem um olhar obcecado, uma postura obstinada, vê editores em todos os cantos, sonha com editores, faz vodu com editores”. E imaginei a mim mesmo, ou lembrei de mim mesmo, no papel do autor inédito, a andar, erradio e obstinado pela chamada cidade grande, olhando para os lados e repetindo para mim mesmo: “Sou um autor! Sou um autor!”, ao mesmo tempo em que o resto do mundo me atirava à cara a outra condição: “És inédito! És inédito!”.

E talvez eu seja mesmo. Meus cadernos de caligrafia, escritos com algum esforço no início da década de 70, ainda estão inéditos, e ainda haverá um intelectual inteligente que convencerá um editor astuto do valor daquilo, no que concerne à crítica genética, biográfica e arquivística (eu já não estarei neste mundo...). Sou um autor inédito porque metade da minha vida acadêmica está dentro da gaveta. Sou um autor inédito porque sempre que me sento para escrever algo novo em folha é como se estivesse indo tomar a primeira injeção: tenho medo de que doa; doa sentar-se, permanecer sentado hora e meia e se levantar, com cara de bobo, sem ter escrito uma única linha, somente bolhas. Felizmente isso quase nunca acontece (ou eu nunca confesso que aconteça), mas é mais fácil acontecer essa fatalidade literária a alguém que já tem um livro publicado do que a um aventureiro que nunca publicou nada. Eu usei a palavra “aventureiro” de propósito, pensando nos sentidos potentes que tem essa palavra. Se a literatura é uma aventura do espírito (sim, isso é um lugar comum, mas vamos tentar retirar essa idéia do lugar-comum e olhar para ela como se pela primeira vez; esse procedimento salva muita coisa do lugar comum...); se a literatura é uma aventura, quem escreve deve se debruçar, antes de tudo, sobre uma aventura, ou seja, sobre um risco. Uma pessoa que nunca tenha publicado um livro; que não seja, portanto, o que se chama de “autor publicado”, pode viver essa aventura de um modo mais produtivo, porque não carregará nas costas qualquer título ou passado literário público, por menor e irrelevante que seja. Um autor publicado, infelizmente e em muitos casos, mete na cabeça um série de minigâncias idiotas, compromissos literários inexistentes e responsabilidades para com algum tipo de expectativa cuja origem está na figura abstrata de um leitor, e pronto: está montado o quadro para esse sujeito simplesmente meter os pés pelas mãos, sentar-se, ficar hora e meia pensando na Literatura com maiúsculas e sair da cadeira com nada mais que a cicatriz de uma picada.

Tudo isso que eu disse acerca da potência de se sentar para escrever sem um passado literário às costas fica muito bonito escrito e mesmo lido em voz alta, mas também é chato e mentiroso. Ninguém que se considere um escritor e que goste de ser um escritor e que precise ser um escritor porque precisa escrever e, escrevendo, ganhar dinheiro e confiança e auto-estima com aquilo que escreve — ninguém vai querer dedicar-se ao rito de retornar estrategicamente à condição de autor inédito toda a vez em que se dispuser a se sentar para escrever. Eu me lembro que apreciei bastante o dia em que deixei de ser esta “coisa-assim-tipo-autor inédito” e passei a ser esta “coisa-assim-tipo-autor publicado”. É claro que me dediquei, antes do advento daquele dia, a uma certa produção — produção que incluiu, entre outras coisa, escrever, sim, mas não só.

A primeira providência que tomei para deixar de ser autor inédito foi mudar o nome, seguindo os preceitos do Mário de Andrade: “Fernando Tavares Sabino, si você quiser continuar sendo escritor, antes de mais nada tem que encurtar o nome. Tavares Sabino, Fernando Tavares, Fernando Sabino. O que é impossível é Fernando Tavares Sabino. Me desculpe esta sinceridade e entremos pelos outras”, escreveu o Mário para o Fernando, em janeiro de 1942.

A segunda coisa que fiz para deixar de ser autor inédito foi deixar de lado a preocupação muito consciente de que deveria abandonar a condição de autor inédito. E então comecei a escrever assim, como quem não queria nada. Escrevi, como já disse a Marguerite Duras e eu citei aqui uma outra vez, escrevi para saber o que eu escreveria se escrevesse... E, como quem não quer nada, publiquei; publiquei para saber o quer eu publicaria caso publicasse... O Mário diz que os estreantes devem pôr no primeiro livro a idade que têm. Eu pus, e ainda pus uma foto minha de cinco anos antes, para impressionar os mais velhos.


Depois, quando já não era mais autor inédito, sentei para escrever com o propósito de reforçar a idéia de que eu já não era mais autor inédito, mas ainda era, pior dos piores, “autor de um livro só” — o que deve ser bem mais angustiante do que ser autor inédito, porque o autor de um só livro passa aos outros, e a si mesmo (o que é desgraçadamente mais grave), a sensação de que tudo o que tinha a dizer já disse, e não há portanto mais nada, tendo sido aquele primeiro livro nada mais que um espasmo, um acaso, um surto, um arroubo que aconteceu e pronto: não vai mais acontecer, prometo. Em menos palavras: pode ser mais custoso escrever o segundo livro que o primeiro. Pudera... São escritos por autores diferentes (quem escreve o segundo livro é o “autor publicado”, que sofre, não raro, da moléstia da dupla personalidade, uma vez que ele pode ser também o amofinado “autor de um livro só”, ao passo que quem escreve o primeiro livro é simplesmente, e nada mais, o “autor inédito”, ou seja, o sujeito em risco). De minha parte, no entanto, a estratégia vem funcionando. Na hora em que me sento para me dedicar a escrever o meu quinhão de escrita diária, faço de tudo para me sentir, o mais verdadeiramente possível, um autor inédito, um amador, um aventureiro dedicado a descobrir, de preferência com espanto e delícia, qual a travessura que faria, caso a fizesse.

16 de dezembro de 2016

"Uma noite sem adjetivos"

A noite está curvada sobre a janela do quarto de dormir da filha da empregada. A filha da empregada ainda não é também uma empregada. Pode suceder que sua vida siga por onde não segue a de uma empregada. Mas isto não está acontecendo, pois que a noite, por enquanto, ainda está curvada sobre a janela do quarto de dormir da menina.

A mãe, no momento, está trabalhando na cozinha, lavando pratos, panelas, talheres e copos. Os convidados de seu patrão bebem e conversam na sala de estar. Não vêem a noite, bem como a menina em seu quarto também não.

A noite, lá fora, ocupa todo o quintal. Entra por debaixo das folhas das árvores, escurecendo os ninhos dos currupacos e facilitando o trabalho daqueles que se aproximam para devorar os currupacos. Envolve os ramos das plantas que ainda estão para crescer e que precisam do orvalho que só vem com a noite para se refrescar do calor do dia e para se preparar para o calor do sol que o dia trará. Cuida de alargar o buraco das pupilas dos que andam à noite, para que possam perceber, plantado no chão, o buraco dos caminhos; para que possam não perder, na tocaia do céu, com suas mil nuanças, o céu.

Mais coisas faz a noite. Da à luz os recém-nascidos vindos da noite de dentro de cada mãe; acorda morcegos; faz acenderem-se lampiões; desculpa amantes e vergonhas; vive medos e cala telefones. À noite, o banco das praças muda de cor e reflete a lua. As formigas interrompem o trabalho iniciado ao amanhecer, e as minhocas, ao anoitecer, recomeçam o trabalho da perfuração, pois a noite penetra a terra e a umedece. Então as minhocas se reproduzem. Reproduzem-se também os homens, já que, à noite, há menos ruídos nas cidades e a campainha não toca.

Na sala de estar, o telefone não pára de tocar. Os convidados do patrão da mãe da menina sobre cuja janela está curvada a noite não param de comer. É uma pena, pois que a noite, parando tudo o que costuma fazer, no momento é vista apenas debruçada sobre a janela do quarto de dormir, fazendo a cama para os grandes sonhos da filha da empregada.


1 de dezembro de 2016

“João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros"

TEXTO SEM DATA
SÉRGIO, Renato, “João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros, desde o primeiro, Setembro não tem sentido, escrito na flor dos vinte anos — agora reeditado —, até Viva o povo brasileiro, aos 40. E já pensando no próximo: O sorriso do lagarto. Frase padrão: ‘Baiano não nasce, estreia’”, Revista Ele Ela, texto sem data.

JUR: “Glauber foi um gênio da nacionalidade, o maior cineasta nacional, isso todo mundo tem que engolir, pra começo de conversa. O único que construiu uma linguagem autônoma que resolveu a necessidade de comunicar de tal maneira que forma e conteúdo estivessem efetivamente integrados na específica situação brasileira. Claro que ele sofria influência, e até profunda, de Jean-Luc Godard. Mas sua briga foi muito mais difícil, porque Glauber sempre esteve ameaçado de perder e só não perdeu porque tinha uma tal potência intelectual, uma tal pujança de imaginação e uma tal habilidade de viver — contraposta a uma proverbial inabilidade de viver — que permitiram que ele continuasse naquela briga de foice no escuro. E ele continuou porque brasileiro prefere Godard, prefere Bergman, prefere Kurosawa, prefere qualquer coisa, desde que não seja da gente. (...) Assim, no limite do que se poderia chamar ‘a loucura de Glauber’, ele produziu uma linguagem brasileira, sem xenofobias. E somos todos tão aculturados, nossas raízes se perderam tão profundamente, que encaramos como esquisito aquilo que é mais nosso. O que vem significar o ápice da enrabação de um povo por um vasto processo colonialista, aquele que faz você receber como de fora aquilo que mais lhe diz respeito”.

RS: "Um dia Glauber estava filmando Jece Valadão saindo da água com um peixe na mão, em Arambepe, João observando à distância. Mas Glauber viu João e gritou: ‘Tire a camisa, tire a camisa!’. A João foi entregue uma espingarda e ordenado que atirasse para o alto várias vezes, entes de virar a arma na direção [ilegível] Duarte, que passava o filme inteiro tocando violão. Foi tão bom o desempenho de João Ubaldo, que Glauber Rocha botou-lhe um 38 na mão, numa cena coletiva de multidão, o povo todo dançando, João deu mais tirinhos de cinema, inclusive no olho da câmera, e recitou o to be or not to be”.

JUR: “Foi meu amigo desde a adolescência. Difícil descrevê-lo, uma personalidade muito complexa, uma pessoa muito divertida, inteligente, intuitivo, um homem agradabilíssimo. Era amigo para caralho. Me dava muito bem com ele. Estou com saudades dele”.

“A loucura de Glauber”

TEXTO SEM DATA
GOMES, João Carlos Teixeira, “A loucura de Glauber”, texto sem referência.

JCTG: “Essa obra uniforme em sua temática mas altamente criativa, sendo uma interpretação fundamental de nossa realidade, na mesma linha de livros pioneiros como Os sertões [e] todo o ciclo do romance regional nordestino, tornou-se de difícil entendimento para o público, apesar de tão impregnada de brasilidade e de tocar em problemas essenciais de nossa formação e do nosso povo. Isto decorre não de um deliberado propósito de hermetismo, mas do extremos apego de Glauber Rocha a uma concepção artística de valorização revolucionária das formas e da sua ampla consciência da especificidade da linguagem fílmica, que o levou a repudiar o cinema comercial...”.

“O analfabetismo erudito”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO, João Ubaldo, “O analfabetismo erudito”, Enfim, texto sem data, p. 20-21. 

JUR: “(...) se eu começasse a falar inglês, o pessoal todo da mesa ia entender, mas, se eu começasse a falar sergipês, o pessoal ia boiar. (...) se essas pessoas tivessem sido levadas aos clássicos da língua (em vez de repelidas, tarefa precípua dos professores de literatura), se não manipulassem um vocabulário pop, cheio de psicanalês, sociologuês e adjetivos antes dos substantivos, compreenderiam tudo perfeitamente, pois um sergipano ignorante apenas estropia as palavras que pertencem ao nosso patrimônio histórico, que são nossas, que refletem nossa maneira de pensar e ver o mundo e que, por isso mesmo, o colonizador transforma em língua estrangeira.

JUR "... As revistas nacionais desenvolveram um estilo esquisitíssimo, cheio dos tais adjetivos na frente dos nomes, às vezes separados por vírgulas, cheio dos recursos jornalísticos americanos, como se fôssemos um povo imbecil, incapaz de adaptar sua própria língua (ou seja, sua identidade cultural) a exigências tecnológicas. Como se inglês, por ser a língua dos dominantes, tivesse sido, por essa razão mesma, predestinada (...) para servir melhor a propósitos tecnológicos. Na realidade, (...) inglês é uma língua que convive com imprecisões exasperantes (...). E o português, se não atingiu a precisão da navalha do francês, foi (...) porque os povos da língua portuguesa vêm pegando em baixo há bastantes séculos. É que nós abdicamos da nossa sagrada autonomia de ver o mundo à nossa forma e importamos as formas pré-fabricadas que nos empurram. E aí ficamos fazendo comentários cretinos, tais como ‘em inglês isto é muito melhor de dizer’, esquecendo que, quando falamos tais coisas, estamos confessando que já somos ingleses (ou americanos). E o pior é que não somos, porque lá eles nos acham engraçados. E aí ficamos, coitados de nós, passando esta vida na colonização e morrendo sem entender nada.

JUR: "... já viram que a coisa que brasileiro mais gosta é que gringo diga que ele é bom? Comigo mesmo aconteceu isto, porque, quando meu livro saiu nos Estados Unidos e os americanos gostaram (embora escrevendo besteiras incríveis, na maior parte dos casos), houve grandes festejos locais e recebi propostas de (...) um porrilhão de países sobre os quais sei muito pouca coisa, nem quero saber”.

“Os baianos — ‘Baiano não nasce; estreia...’”

TEXTO SEM DATA
RIBEIRO, João Ubaldo, “Os baianos — ‘Baiano não nasce; estreia...’”, Revista Manchete, texto sem data.

JUR: “... esse é o baiano do Recôncavo — falador, pegador, alisador, compositor, cantor, declamador, tomador de intimidades instantâneas, preguiçoso, relaxado, incapaz de compreender a necessidade de horários, festeiro, cara-de-pau... (...). Em contraste, vem o baiano do sertão, o euclideano ‘antes de tudo um forte’ (aliás, Euclides da Cunha se referia a nós, do Recôncavo, como ‘mestiços neurastênicos do litoral’), gente muito diversa do pessoal da praia. (...) São os baianos de ancestrais cangaceiros, coronéis, jagunços, combatentes de Canudos, acostumados a ‘tudo pouco’: pouco de comer, pouca chuva, pouca conversa, pouca brincadeira, pouca intimidade, tudo pouco. (...) ... continuamos a ser e não ser tudo aquilo que pensam de nós, a ser cidadãos de um país grande e nativos de uma nação especial. E não aceitamos presentes de pulseiras e colares, nada que amarre (...), não gostamos que nos passem a mão na cabeça (...), não sentamos de costas para a porta, não damos nem nome nem objeto pessoal à gente de pouca confiança (...), não esquecemos o santo na hora de beber, gostamos de conversar sobre comida, temos hábitos sexuais pouco ortodoxos, somos compositores, cantores, vaqueiros, sofredores, curtidores, lutadores (...)”.

“João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros"

TEXTO SEM DATA
SÉRGIO, Renato, “João Ubaldo Ribeiro — Um personagem que esqueceu de se incluir num dos seus oito livros, desde o primeiro, Setembro não tem sentido, escrito na flor dos vinte anos — agora reeditado —, até Viva o povo brasileiro, aos 40. E já pensando no próximo: O sorriso do lagarto. Frase padrão: ‘Baiano não nasce, estreia’”, Revista Ele Ela, texto sem data.

JUR: “Glauber foi um gênio da nacionalidade, o maior cineasta nacional, isso todo mundo tem de engolir, pra começo de conversa. O único que construiu uma linguagem autônoma que resolveu a necessidade de comunicar de tal maneira que forma e conteúdo estivessem integrados na específica situação brasileira. Claro que sofria influência, e até profunda, de Jean-Luc Godard. Mas sua briga foi muito mais difícil, porque Glauber sempre esteve ameaçado de perder e só não perdeu porque tinha uma tal potência intelectual, uma tal pujança de imaginação e uma tal habilidade de viver — contraposta a uma proverbial inabilidade de viver —, que permitiram que ele continuasse naquela briga de foice no escuro. E ele continuou, porque brasileiro prefere Godard, prefere Bergman, prefere Kurosawa, prefere qualquer coisa, desde que não seja da gente. (...) Assim, no limite do que se poderia chamar ‘a loucura de Glauber’, ele produziu uma linguagem brasileira, sem xenofobias”.